O Edgar Martins foi explorar os limites da Agência Espacial Europeia

Um estudo sobre a impossibilidade poética de conter o infinito.

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21 Maio 2014, 9:40am

Não fui um filho da geração da "corrida espacial". Nasci no final dos anos 70, mas deixei-me encantar pelas missões Apollo como se encantaram aqueles que as viveram. E tal como tantas outras crianças das décadas de 60 e 70, também eu quis tornar-me astronauta (o que não era tarefa fácil para um europeu a crescer na China). Toda a literatura que li desde criança (Júlio Verne, HG Wells, William Gibson e mais tarde Richard Feynman, Alfred Jarry, entre outros), os filmes pioneiros de ficção científica de Ray Harryhausen ou as animações de Georges Méliè, entre outros. Tudo isto preencheu o meu imaginário fotográfico.

Lembro-me de, em adolescente, sonhar com o espaço. De facto, em toda a minha vida, só tive dois sonhos recorrentes. Um pesadelo estranho, com diferentes figuras geométricas que não encaixam bem umas nas outras a caírem do céu, e que se aglomeram criando formas cada vez maiores e mais esotéricas, como um jogo de Tetris infernal. Mas isso é uma conversa para outro dia, muito provavelmente com um psiquiatra. O outro sonho é ligeiramente mais tangível, ainda que igualmente desconcertante, que me leva frequentemente a acordar de lágrimas nos olhos. Nesse sonho sou atirado para o espaço (apesar de nunca me lembrar de como isso aconteceu exactamente). Quando entro em órbita sobre a Terra, a flutuar na gravidade zero e olho para baixo, para o planeta, pela primeira vez, a experiência deixa-me avassalado. Subitamente, sou invadido por um profundo sentimento de calma e consciência, como se finalmente tivesse compreendido todos os segredos do planeta e a solução para os seus problemas. É o tipo de momento em que somos confrontados com o nosso ímpeto dialéctico e saímos a ganhar. Depois, acordo.

Recentemente, foi-me dada a oportunidade de conhecer e conversar com alguns astronautas que me confidenciaram que ver a Terra do espaço pela primeira vez é uma experiência bastante comovente. Os astronautas do programa Apollo falam de uma experiência transcendental ou espiritual. Também é do conhecimento geral que a tão celebrada fotografia do Nascer da Terra, feita durante a era Apollo, inspirou toda uma geração de pessoas, nomeadamente o movimento verde. Para resumir uma história que já vai longa, o espaço e todo o misticismo e maravilhas tecnológicas que o rodeiam têm uma ressonância imensurável na nossa consciência social e individual. Isto é algo do qual eu sempre tive uma consciência clara, e é por isso que o espaço tem sido um tema recorrente no meu trabalho.

Este é um tópico que constantemente me (nos) arremessa para as antíteses da percepção e da existência, que nos empurra para a exploração de fronteiras volúveis e das realidades instáveis, ilógicas e oscilantes. De forma que, quando um dia, li um artigo de um dos directores da ESA a explicar a importância da agência se abrir ao público de uma forma mais marcante, considerei que este seria o contexto ideal para os contactar. Nesse mesmo dia escrevi uma longa carta à ESA onde expliquei que queria produzir a mais completa descrição de sempre de uma das mais importantes organizações científicas e espaciais e dos seus programas. Mencionei que acreditava que o futuro da exploração espacial exigia um contínuo diálogo social e cultural, no qual as artes e, em particular a fotografia, podia desempenhar um papel dinâmico e vital.

A proposta que apresentei à ESA foi bastante ambiciosa: propus participar de forma crítica nos seus programas, tais como os programas de microgravidade, navegação, telecomunicação, exploração lunar, de Marte, de Mercúrio, entre muitos outros, elaborando ao mesmo tempo reflexões acerca das novas políticas de exploração espacial bem como acerca do impacto deste tipo de aplicação tecnológica na nossa consciência social. Mais do que um projecto sobre a Agência Espacial Europeia e sobre o imaginário ligado à exploração espacial este projecto teria também de representar uma reflexão sobre a nossa relação com a tecnologia. De forma que fiquei muito sensibilizado com o facto de a ESA ter acolhido o projecto e a ideia de eu trazer comigo uma perspectiva artística e crítica. Trata-se da primeira vez que a agência abriu as suas portas a um artista visual, desta forma. Mas para mim, talvez a revelação mais interessante ao longo deste processo tenha sido a reconciliação com duas simples ideias: o vazio e o vácuo do espaço tornaram-se no conceito mais movimentado que a humanidade conhece; apesar de todos os avanços tecnológicos e no campo da robótica, a exploração espacial continua a depender, intrinsecamente, do indivíduo.





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Câmara Maxwell de testes electromagnéticos.

Mercury Transfer Module (MTM) – Veículo de propulsão de BepiColombo – durante a sua fase de integração (Airbus Defence and Space, AIT, Stevenage, Reino Unido)

Interior da câmara de um simulador de espaço (ESA-ESTEC, Noordwijk, Holanda)

Instalações de testes acústicos (IABG, Ottobrunn, Alemanha)

Grua movível para o lançador Vega, visto do interior (CSG – Base de lançamento espacial europeia, Kourou, Guiana Francesa)

Complexo de preparação de cargas S5 – estação de abastecimento de combustível de naves espaciais (CSG – Base de lançamento espacial europeia, Kourou, Guiana Francesa).

Campanha de lançamento do veículo de transbordo automatic (ATV) na base espacial europeia em Kourou (CSG – base de lançamento europeia, Kourou, Guiana Francesa)

Simulador de treinos (ESA-EAC, Colónia, Alemanha)

Cabos utilizados durante os testes da ESA da nave espacial BepiColombo (ESA-ESTEC, Noordwijk, Holanda)

Modelo do Node 2 (ESA-ESTEC, Noordwijk, Holanda)

Capacete de um fato SCAPE utilizado pela equipa de propulsão durante as operações com uma nave espacial (CSG – Base de lançamento espacial europeia, Kourou, Guiana Francesa)

Reflector de aço inoxidável, Laboratório de componentes e material (ESA-ESTEC, Noordwijk, Holand)

Cubo Rubik do astronaut Jean-François Clervoy, que voou com ele em todas as suas missões espaciais.

Fato pressurizado da Soyuz TMA no módulo de treinos no Room 1A (Centro de Treinos Yuri Gagarin, Star City, Rússia)

Quarto de vestir de astronautas, onde os fatos espaciais Sokol são armazenados (Centro de Treinos Yuri Gagarin, Star City, Rússia)

Modelo em tamanho real de um módulo ISS (Centro de Visitas, Airbus Defence and Space, Bremen, Alemanha)