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Serão os testículos artificiais a solução para a infertilidade?

A infertilidade poderá ter os seus dias contados com a invenção de uma máquina-de-fazer-esperma, que um grupo de cientistas tem vindo a investigar.
8.4.15

Fotografia via Flickr/ Iqbal Osman

Qualquer dia, num futuro próximo, não precisaremos de sexo, nem sequer de esperma para fazer bebés. Necessitaremos, isso sim, de um pedacinho de uma bochecha, ou um bocado de pele, ou outra maneira de colectar uma célula viva que contenha o nosso ADN et voilà: um recém-nascido, sem todo aquele aparato e complicações dos bancos de esperma. A tecnologia necessária para tal acontecimento está quase pronta, em parte por causa da equipa de investigadores que tem trabalhado arduamente para desenvolver um testículo humano artificial.

O urologista californiano Dr. Paul Turek é o homem que lidera a equipa - que inclui médicos e cientistas da Universidade de Stanford, da Universidade Pública de Montana e a empresa biotécnológia de São Francisco, MandalMed. O modelo que estão a desenvolver - uma simples peça de laboratório feita através de pequenos recipientes e tubos - é uma imitação da complexa estrutura que é o testículo humano, e, à partida, transforma células estaminais em esperma.

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Turek acha que um testículo artificial poderá proporcionar aos homens inférteis - que devido aos tratamentos contra o cancro do testículo ou outras condições ou doenças que os tenham incapacitado - , a possibilidade de contribuírem para o nascimento de uma nova vida com a ajuda da fertilização in vitro. Esta "peça" poderá também substituir os animais nos testes das farmacêuticas.

"Todos os dias fico fascinado com isto", diz Turek. "Eu sei que isto é mesmo necessário".

As células estaminais são de extrema importância para os investigadores devido à sua capacidade de proliferar e, com as condições certas, desenvolver ou "diferenciar" outros tipos de tecidos de células. E, não há muito tempo, foi demonstrado que a biologia das células estaminais pode ser útil para estudos sobre a infertilidade. Em 2011, um grupo do Japão surpreendeu tudo e todos ao anunciar que tinham conseguido produzir em laboratório esperma de rato, acrescentando um tipo de material gelatinoso às células estaminais extraídas do tecido testicular de um rato bebé. Em Maio do ano passado, outra equipa de cientistas foi mais longe: publicaram um relatório na revista científica Cell Reports documentando a forma como utilizaram as células da pele de homens inférteis para produzir células de esperma percursor dentro dos testículos dos ratos.

Turek, o co-autor do estudo anterior, afirma que o truque para criar um testículo artificial é criar um ambiente para que as células estaminais "fiquem convencidas" que vivem num testículo real. Com a combinação certa de células e hormonas, as células estaminais - quer células estaminais testiculares, embriónicas-produzidas-em-laboratório, ou células provenientes da pele de um homem - podem ser suficientemente "nutritivas" ao ponto de se poderem transformar em esperma puro.

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"Temos que perceber qual é a receita, e temos que descobrir o que vamos colocar nessa receita", diz Turek. "Há imensas variáveis, mas é uma questão de 'boa ciência'. Tudo é boa ciência. Temos que despender o tempo que for preciso, prestar atenção aos detalhes, ver o que acontece e moldar, modificar e voltar a mudar até conseguirmos o que queremos".

Claro que não há garantias que um testículo artificial possa realmente ser capaz de "fazer um bebé". Mesmo que se levantasse e saísse a correr, seria uma peça bastante complicada, com necessidades e cuidados redobrados em laboratório - ao fim e ao cabo estamos a falar de um testículo, não é algo que se possa implantar do dia para a noite.

De qualquer das formas, é entusiasmante pensar que a humanidade possa um dia vir a ter acesso a uma máquina genuína de fazer esperma. Afinal de contas, os homens têm sido atormentados com a praga da infertilidade provavelmente desde os primórdios da espécie.

Ao longo dos anos, muitos foram os pacientes que decidiram experimentar soluções manhosas. No início do século XX, muita gente afluiu ao consultório do médico americano John R. Brinkley em busca de tratamentos altamente imorais, como por exemplo, transplantar glândulas de cabras para os testículos dos pacientes. O procedimento, que rondava os 9000 dólares (convertendo para os valores actuais), iria curar (supostamente) a infertilidade. Obviamente, como era de se esperar, as partes íntimas das cabras provocaram perigosas infecções, doenças e até mesmo a morte de muitos pacientes.

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Felizmente, a ciência e a medicina evoluíram e os homens têm agora várias opções para o caso de quererem fazer bebés. Apesar da quimioterapia para o cancro nos testículos ser uma causa potencial para a infertilidade nos homens, também é verdade que eles podem congelar o seu esperma antes de dar início ao tratamento. E para os que sofrem de baixos números de espermatozoides, podem sempre tirar proveito de um procedimento altamente especializado em que um cirurgião abre (literalmente) as jóias da família à procura de "esperma de qualidade".

Peter Schlegel, cirurgião e professor de urologia na faculdade Médica Weill da Universidade de Cornell, explica que as células do esperma dos homens são produzidas dentro de uma rede de pequenos tubos que contêm as pequenas 'sementes' encontradas dentro dos testículos. "Os tubos maiores e mais espessos são basicamente os que contêm mais células - e, consequentemente, são também esses mesmos tubos que têm maior probabilidade de conter esperma", explica.

Quando perguntámos acerca do testículo artificial, Schlegel responde que fazer uma réplica (em laboratório) de um sistema estrutural tão complexo poderá ser o maior dos desafios para Turek e a sua equipa.

"Quando falam em testículo artificial parece que podemos pegar numa mão cheia de centenas de milhares de interacções extremamente complexas que ocorrem e simplificá-las até ao ponto de conseguirmos criar uma espécie de sopa que colocámos à volta das células-produtoras-de-esperma", acrescenta. Talvez seria mais eficiente, sugere Schlegel, usar testículos de um animal de forma a produzir esperma humano, em vez de um equipamento construído em laboratório. Sim, ok, é mesmo isso - vamos agora pegar em ratos para produzirem esperma para nós.

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"O próprio testículo, em termos funcionais, é bastante complexo", argumenta. "Há imensas interacções do tipo célula-para-célula e, por isso, a ideia de gerar um testículo artificial poderá ser melhor conseguida se for produzida num rato ou qualquer outro animal que tenha os materiais e hormonas necessários para suportar o desenvolvimento de um testículo".

É curioso pensar que o esperma pode ser produzido fora do nosso corpo. Mas ainda estamos bem longe desse momento. Actualmente, a equipa de Turek está concentrada no financiamento para continuar a pesquisa. Um dos objectivos é desenvolver uma panóplia de análises e testes para a toxicologia de fármacos. E se pensarmos bem, não seria assim tão complicado como produzir esperma artificialmente.

"O que mais nos interessa é tornar esta área num negócio", diz Constance John, presidente da MandalMed, que trabalha com Turek na ideia do testículo artificial desde 2009. "Uma das estratégias é mesmo desenvolver os testes e análises, que pensamos que poderiam ser comercializáveis e lucrativos, e dessa forma fazer da empresa uma aposta acertada".

Para angariar fundos para este projecto, Dr. Turek considerou também um meio bem mais famoso - ou seja, uma campanha no Kickstarter. Mas qual seria então o prémio que poderiam oferecer aos contribuidores?

"Podemos sempre oferecer-lhes esperma, já que custa uma fortuna", responde Turek.

E se forem almofadas ou frasquinhos com esperma?

"Olha, boa ideia. Podemos fazer isso!", diz ele. "Boa! Vamos fazer isso".

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