Estamos algures entre as quatro e as cinco da madrugada em Barcelos, marca do regresso fatídico do guerreiro, manqueando por entre a bruma que se estende tão longe quanto os seus olhos vêem, apesar dos céus limpos e do clima ameno. Atrás de si alguém em claro estado de loucura de guerra, bastante mais temperado, canta alegremente em espanhol e a plenos pulmões para toda a cidade ouvir, que tinha a barriga cheia de carne assada e de sangria, e qual poeta dos tempos modernos, que só lhe faltava «foder uma portuguesa».
O primeiro dia de Milhões de Festa, afinal o dia zero, deu o mote e as boas-vindas à beira Cávado a centenas de melómanos e outros que tais com uma taina à moda antiga. Estima-se que a uma quinta-feira ainda reste bastante espaço para colocar tendas e arraiais, mas já é bastante claro o peso internacional que o festival dos triângulos ganhou este ano. Açores, Madeira, Espanha, México, Brasil, Luxemburgo (olá carros de luxo estacionados na feira), Inglaterra, Ponte de Lima; há extraterrestres dos mais variados e mais estranhos cantos deste mundo.
Mas também há aquilo por que tanto quisemos vir. Há saudade, há abraços, reencontros, amor, muito amor, há o clima estupidamente abafado barcelense, e há a música, motivo maior da festa, e tanta e de tantos sabores. A chave banhou-se de oiro quando os Ensemble Insano subiram ao Castelo (quase) para fazerem ecoar riffs viciantes. Descendo ao Palco Taina, afinal o mundo naquela noite, nem o espaço nem as condições estiveram à altura do Gonçalo, que sem os seus Long Way To Alaska tocou bonito mas não deslumbrou. Já os Modernos puxaram pelo relaxado rock quase stoner para tirarem uns passos de dança à já composta plateia, que se viu mais tarde embrulhada nas malhas orgânicas e entrelaçadas de Rodrigo Amado e do seu Motion Trio.
Com o sol a pôr-se tarde e a carne a adoçar a barriga, vimos do "camarote" os Serrabulho darem uma sessão de porrada grind-coresca misturada com versões brutas de música infantil, com corpos e bonecos de peluche a voar. O ânimo escoou noite dentro por entre o estranho mundo dançável dos Iguanas e dos Putnam Was The Bastard, com direito a dançarinas vestidas a rigor. Algures por esta altura perdemos o senso melómano e deixámo-nos carregar pela comodidade e hospitalidade providenciada pela mistura da cidade do galo e da taina, afinal do que tinhamos tantas saudades.
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