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Tecnologia

LIVINGSTON, o Computador que Escreve Música Folk, É Bom Demais Para Ser Verdade

"Eu sou sentimento e não tenho utilidade / Como operador e amigo / Mas essa voz continua a sussurrar em meu outro ouvido / Me dizendo que nunca mais vou te ver"
A inteligência artificial que escreve músicas. Crédito: Henry Svec

A música folk sempre foi considerada um veículo para fortes emoções humanas. Das canções fantasmagóricas e melancólicas sobre sofrimento e salvação reunidas pelo etnomusicologista Alan Lomax nas penitenciárias e plantações de algodão do Sul às canções de liberdade comunistas de Woody Guthrie, a tecnologia não costuma ter muito espaço no movimento.

É por isso que muitos sites, incluindo nosso blog-irmão Noisey, ficaram loucos (e com razão) quando Henry Svec, um professor de mídia e artista de mídia residente da Universidade de New Brunswick em Fredericton, anunciou ter construído um computador que escreve músicas folk. Ele criou o LIVIGSTON junto com Mathias Kom, creditado como "coprogramador", que é líder da banda canadense The Burning Hell.

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A aparente proficiência musical do LIVINGSTON, o letrista robótico em questão, levanta muitas questões sobre a autenticidade da arte, o papel da tecnologia na facilitação do desenvolvimento cultural, e sobre como compreendemos nossa relação com máquinas cada vez mais inteligentes, independente das limitações dessas inteligência artificial.

Essas questões ficam ainda mais interessantes se nós considerarmos a possibilidade muito real de LIVINGSTON ser uma farsa, sustentada cuidadosamente por uma série bizantina de truques midiáticos.

O LIVINGSTON supostamente escreveu dois volumes de música folk, o último deles lançado por Svec na última semana. As canções do LIVINGSTON tem títulos igualmente hilários e profundos — como: "Takin' Off My Glasses Tonight" ("Tirando Meus Óculos Essa Noite") e "I am a Weary Immaterial Labourer In a Post-Industrial Wasteland" ("Eu Sou Um Trabalhador Imaterial Exausto em Uma Terra Devastada Pós-Industrial") — e suas letras também são bem bacanas.

Deem uma olhada, por exemplo, nesse trecho de "I Have the Peaceful and Easy Feelings" ("Eu Tenho os Sentimentos Felizes e Calmos"), do segundo volume:

I am feeling I have no use / As an operator and a friend / But this voice keeps whispering in my other ear / And tells me I'll never see you again

(Eu sou sentimento e não tenho utilidade / Como operador e amigo / Mas essa voz continua a sussurrar em meu outro ouvido / Me dizendo que nunca mais vou te ver)

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Nada mal para um computador.

"A obra do LIVINGSTON é um desafio para meus colegas do meio folk, porque nos obriga a repensar os parâmetros de nosso meio", escreveu Svec em um email. "Temos muito o que aprender com computadores como o LIVINGSTON."

De acordo com Svec, LIVINGSTON foi desenvolvido por ele e Mirek Plíhal, um cientista da computação checo que ele conheceu em 2013 em Dawnson City no estado de Yukon, quando eles eram artistas residentes do Instituto Klondike de Arte e Cultura. O computador é basicamente um banco de dados de músicas folk canadenses que usa um algoritmo para gerar novas composições selecionadas por Svec e gravadas posteriormente por diversos músicos folks.

Vamos pensar um pouco mais sobre isso. Se o LIVINGSTON fosse real, ele seria um dos processadores de linguagem mais avançado do planeta — só assim para ele ser capaz de criar letras tão persuasivas e tocantes quanto as que aparecem nas gravações de Svec. Atualmente os computadores estão sendo usados para gerar matérias jornalísticas, poemas, e até romances, é verdade, mas o resultado não são criações cheias de talento — ou mesmo sentido. Nada digno de um Hank Williams.

Considerando que o LIVINGSTON foi supostamente criado em 2013, nós podemos concluir que o projeto ainda está no começo do processo; ainda assim, ele já produziu dois volumes de ótimas canções folks. É assustador imaginar as páginas e mais páginas de letras folk sem sentido que Svec teve que vasculhar antes de encontrar essas pérolas.

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Isso sem contar as provas circunstanciais. Uma rápida pesquisa no Google revela que a única referência ao programador checo "Mirek Plíhal" vem do próprio Svec. Eu liguei para o Instituto Klondike de Arte e Cultura, onde os dois supostamente se conheceram, e a administradora respondeu que ela nunca tinha ouvido falar sobre esse tal de Plíhal. Quando pedi esclarecimentos à Svec, ele evitou minha pergunta delicadamente.

A alcunha de "LIVINGSTON" vem de um folclorista canadense chamado Staunton R. Livingston — um personagem criado por Svec e utilizado por ele para lançar discos falsos com gravações perdidas de Stompin' Tom Connors. "Livingston" é um pseudônimo utilizado por Svec em vários meios, incluindo o digital, para compartilhar suas opiniões artísticas sobre a natureza da cultura folk.

Música cortesia de LIVINGSTON/Henry Svec

Porque toda essa artimanha, então, se o LIVINGSTON é só uma farsa? Svec não é um trapaceiro — o projeto é financiado pelo Conselho de Artes de Ontario, e possui apoio universitário. Será que é tudo uma ação midiática? Talvez isso não passe de uma crítica amarga, e talvez um pouco escancarada, à grupos pop-folk como os Lumineers? A declaração de Svec indica que seu projeto é na verdade um convite à reflexão sobre nossa visão da inteligência artificial e da tecnologia, e como elas se relacionam com a prática artística.

"Existe uma resistência a se levar a arte gerada por computadores à sério. A atenção que o LIVINGSTON recebeu veio praticamente de publicações de tecnologia, e não de arte, por exemplo", escreveu Svec. "Mas é completamente possível que as regras da arte e do folclore canadense mudem, e que nós desenvolvamos novas formas de compreender essas obras. É claro que já existem pessoas inteligentes pensando sobre essas questões."

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Ao trazer a dicotomia familiar do "natural" vs. "artificial" para os discursos de repórteres ingênuos que acreditam que o LIVINGSTON é real, Svec está expondo opiniões sobre tecnologia e arte de pessoas que vêem ferramentas e máquinas como algo à parte da experiência humana — e não como uma parte essencial de nossas vidas desde que os neandertais criaram o primeiro pincel para pintar nas paredes das cavernas. De uma forma verdadeiramente Derridiana, a ideia por trás do LIVINGSTON e as reações à ele expõem e detonam essa dicotomia.

Crédito: Colin Miner

O trabalho de Svec no LIVINGSTON também tem implicações na concepção moderna de autoria, que se prende desesperadamente à uma ideia de autenticidade vinda da humanidade singular do criador. Nesse projeto, Svec é um autor único se fingindo de banco de dados, produzindo obras culturais tradicionais a partir de um mar impessoal de dados.

"A ética trabalhista e desencantamento inerente com a celebridade e a persona presentes no LIVINGSTON — e a presença de conceitos como oevre e autoria — podem inspirar pessoas criativas em diversos campos culturais, incluindo a música indie, a literatura, a comédia stand-up, e até mesmo na arte contemporânea", Svec escreveu para mim.

Em seu site, Svec atribui, sorrateiramente, uma visão "comunista" da cultura folk à Linvingston, o folclorista falso. Livingston, escreve Svec, acredita que a cultura é um recurso coletivo que pertence a todos, e que a tecnologia pode chamar atenção para esse ponto. Se considerarmos que essas são as própria opiniões dissimuladas do Svec, podemos dizer que o LIVINGSTON chama atenção para essa visão coletiva e desprovida de autoria da cultura folk a partir de uma faceta de alta tecnológica.

Então, sim, é bem provável que o LIVINGSTON não seja real. Mas será que isso é uma coisa ruim? Talvez não. Saber que o que estávamos discutindo o tempo todo era a ideia de uma inteligência artificial com aspirações artísticas é tão interessante quanto se deparar com a máquina em si, em termos filosóficos.

É claro que é improvável que o Svec confesse a verdade. Isso seria estragar o projeto e matar um pouco da magia que circula a obra do LIVINGSTON como um pó de pirlimpimpim da internet. Mesmo assim, de forma que eu vim a entender como completamente Sveciana, ele me deixou uma declaração bem-humorada sobre o futuro do LIVINGSTON:

"Existem duas opções: ou o LIVINGSTON vai dominar o mundo, ou ele vai virar tema de uma ou duas dissertações excelentes."

Tradução: Ananda Pieratti