Este cosplayer era o responsável pelo maior podcast neonazista do Canadá
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Este cosplayer era o responsável pelo maior podcast neonazista do Canadá

Temos evidências de que um cosplayer chamado Clayton Sanford estava por trás de uma ferramenta de recrutamento neonazista.

Antes de ser um neonazista, Clayton Sanford era cosplayer.

Era maio de 2008, no Anime North, um dos maiores eventos de anime anuais da América do Norte. Milhares de pessoas vinham de Toronto, fantasiadas como personagens de games e desenhos japoneses. Sanford estava vestido de Roy, da série Fire Emblem da Nintendo, com direito à armadura azul-celeste, espada com detalhes em dourado e cabeleira ruiva esvoaçante.

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Era o primeiro evento de Sanford como cosplayer. Nas fotos, ele faz várias poses de guerreiro, geralmente sem sorrisos e com cara de poucos amigos, acompanhado de uma grosseira peruca vermelha e detalhes em dourado por toda sua roupa. “Estou sempre sério porque o Roy é casca-grossa”, dizia a legenda de uma das fotos.

Passados dez anos, Sanford agora com 31 anos se viu envolvido em um mundo bem menos colorido, este povoado por racistas orgulhosos que vão contra a imigração, maldizem minorias e defendem deportações em massa, por vezes até genocídio, num esforço para fazer do Canadá uma nação branca novamente.

Sob a alcunha “Axe In The Deep”, Sanford apresentava o programa This Hour Has 88 Minutes, um dos mais longevos e populares podcasts racistas do país. De setembro de 2016 até meados de maio de 2018, quando o programa saiu do ar após questionamentos feitos pela VICE, 88 Minutes mostrava-se como um podcast assumidamente profano e odioso ao tratar das notícias da semana.

Três semanas atrás, revelamos a identidade do outro apresentador do 88 Minutes que usava o pseudônimo“League of the North”, cujo nome verdadeiro é Thomas White, que já fora proprietário de uma cafeteria em Thunder Bay e, em maio de 2017, lançou sua própria empresa do setor cafeeiro chamada Rising Sun, na esperança de “criar uma nova economia para o futuro de nosso povo”.

Clayton Sanford, por sua vez, percorreu uma trajetória um pouco mais confusa: na adolescência, ele passou por várias comunidades online, até que uma o segurou de vez — o fórum zeldapower.com, dedicado ao game Zelda, uma das principais franquias da Nintendo.

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Como “ifm2181”, Sanford era um dos mais ativos no site, reconhecido por sua sagacidade e por não ter papas na língua. Em paralelo, ele também se abria em relação aos problemas sofridos no ensino médio e ansiedade quando o quesito era garotas; em meio a isso, o jovem também deixava claro seu desgosto por minorias e pela comunidade LGBT como um todo, que acabou por se tornar ódio puro e simples com o passar do tempo. Seus sentimentos em relação às mulheres, que de cara não apresentavam nada de negativo além de sua ansiedade, acabaram por progredir da mesma forma.

Sanford em 2009. Foto de sua extinta conta no site Cosplay.com.

A postura de Sanford ficou mais histriônica após a eleição de Donald Trump e a ascensão da tal alt-right. Em 2016 ele começou a postar no fórum neonazista norte-americano The Right Stuff. Em 2017, Sanford participou do evento da alt-right canadense conhecido como Leafensraum. “Não nos sentimos à vontade em nossas sociedades porque elas foram preenchidas com hordas de estrangeiros”, disse durante episódio do 88 Minutes de agosto de 2017. “E assim criamos sociedades paralelas e amizades com nossos irmãos brancos”.

Conseguimos confirmar a identidade de Axe In The Deep como Clayton Sanford após a publicação de nosso artigo sobre Thomas White em maio. Um email citando Sanford nos levou ao endereço zeldapower.com e o usuário ifm2181. Desde 2001, ifm2181 havia feito mais de 60.000 postagens no site. Notamos que alguns usuários referiam-se a ele como Clayton e em dois posts de janeiro de 2008, ifm2181 mencionou Clayton e Sanford como seu nome.

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Ao verificar anos e anos da presença de Sanford online, detalhes começaram a surgir. Ele mora nos subúrbios de Ottawa, filho de pais divorciados. Sanford e seu pai, músico e eletricista aposentado, mantém uma relação bastante próxima (o pai não respondeu às nossas tentativas de contato). Em um episódio antigo do podcast, Sanford comentou que seu pai era “meio que normal” mas que estaria “tentando endireitá-lo um pouco mais”. Sanford tinha ainda avós nos subúrbios de Ontario e familiares em New Brunswick e Maine. Fã de airsoft, usava óculos de grau e sua temporada no ensino médio fora um inferno.

Sanford afirma ter “vivido na internet” desde o final dos anos 90, tendo morado com seus pais durante maior parte de sua vida adulta, pulando de emprego em emprego sem nenhuma formação ou treinamento formal digno de nota. Ele escreve com o tom irônico distante que viria a definir a forma como a alt-right se expressa na internet e também comentava sobre a vida dura durante o ensino médio. Seu amor por anime o fez visitar o Japão em 2015.

“Eu sabia que o nome verdadeiro de ifm2181 era Clayton Sanford desde o começo do ZP”, disse Ben Arsenault, antigo moderador do Zelda Power. “Sabíamos dos pontos de vista de extrema direita de ifm já por volta de novembro de 2016, quando ele voltou à ativa no ZP para se gabar da vitória de Trump”.

A postagem derradeira de Sanford no fórum Zelda Power.

Sanford, ainda como if2181, deixou migalhas por onde passava pela internet. Com Axe In The Deep, a história é outra. Entramos em contato diversas vezes para que comentasse sobre este artigo, sem sucesso; não conseguimos determinar como Sanford sustenta suas atividades neonazistas ou como ele conheceu seus colegas de 88 Minutes. Mas sua trajetória de nerdão raivoso a neonazista assumido é relativamente simples: o rapaz já tinha algumas noções tortas sobre raça e só fez afundar ainda mais nestas ideias, tornando-se então um nazista de carteirinha até a eleição de Trump.

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“Axe In The Deep”, ou Machado nas Profundezas, é uma referência sutil às raízes geek de Sanford, seu nome de guerra vindo de “Tankard Basher”, canção medieval cantada em dialeto anão, inspirado por Dwarf Fortress, um dos games favoritos de Sanford.

Após nossas tentativas de contato, a página de if2181 no DeviantArt desapareceu, bem como registros no site cosplay.com e na Steam. Seu canal no YouTube mudou de nome mais ou menos na mesma época — o novo nome de usuário de é “X D D D”. Alguém logou em sua conta no Zelda Power e tentou apagar dezenas de milhares de postagens em 18 de maio — dois dias após a publicação do artigo que expunha Thomas White.

Ainda assim, sua pouquíssimo usada conta no site scienceforums.net segue ativa. O mesmo vale para seu Twitter como Axe In The Deep. Em 2016, Axe referiu-se a “if2181” e foi marcado em uma foto vestido como Roy.

Além de apresentador, editor e produtor do podcast This Hour Has 88 Minutes, Sanford (como Axe In The Deep) era, de longe, a voz mais explícita do programa.

Thread no Twitter de 2014 em que Sanford responde a um tuíte direcionado ao seu antigo nome de usuário.

Seus monólogos de tom racial davam o tom de cada episódio, dotados de uma linguagem chocante até mesmo para os padrões da alt-right. Por diversas vezes Sanford usava a palavra nigger e descia o cacete em índios, asiáticos, promovia a violência contra judeus, fazendo ainda comentários sugestivos sobre uma violenta guerra racial. “As palavras proferidas por ambos os lados logo se tornarão balas e os brancos não atiram com suas armas inclinadas para os lados”, disse em 2016 em referência ao movimento Black Lives Matter.

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Sua fase de racista orgulhoso (ainda que anônimo) é só uma das versões mais recentes da personalidade online em constante evolução de Sanford. Quando ele começou a deixar suas primeiras marcas online no começo dos anos 2000, Sanford era o total oposto do racista bostejador. Em maio de 2005, ele se descrevia como um “despojado comunista fã de heavy metal medieval” que fundou um site com esperanças de dar início à “Herothane”, uma comuna guiada sob princípios socialistas.

“Quando o conheci, Clayton era um comunista assumido”, comentou uma antiga amiga sua que não quis ser identificada por medo de retaliações da parte de Sanford e seus novos parceiros neonazi. “Ele discursava contra racistas e fascismo. O Clayton comunistas queria uma sociedade separatista onde teríamos nosso próprio território e uma comuna defendida com armas medievais”.

Em termos de fóruns online, o Zelda Power não parecia ser o lugar certo para Sanford, fã autodeclarado da Sega, rival da Nintendo nos 90. Ainda assim ele se sentia atraído pela liberdade que rolava no site, onde seus integrantes muitas vezes partiam para outros assuntos não-relacionados à Zelda. “Éramos o cantinho esquisito de um público mais amplo de fãs de Zelda na internet”, comentou um de seus antigos usuários em entrevista à VICE.

Logo do 'This Hour Has 88 Minutes'.

Sanford, sob o usuário ifm2181, prosperous neste espaço por cerca de 15 anos. “O Zelda Power era só drama naquela época e havia uma espécie de hierarquia bastante clara”, disse Arsenault. “Sua identidade fora da rede não valia de muita coisa se você era carismático ali no fórum. No caso do ‘ifm’, era um cara bastante sagaz, então diria que ele estava lá em cima na tal hierarquia”.

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Fora da internet, Sanford se envolvia com cosplay e relatava sua história no fórum. Ele havia feito boa parte de sua fantasia de Roy do zero lá na casa de seu pai, aquecendo e moldando plástico ABS para criar a armadura. A espada veio de um pedaço de carvalho. “Tornarei-me Roy para que o mundo veja”, escreveu no Zelda Power alguns meses antes do Anime North.

Os escritos de Sanford vinham com todo o bafafá e bravatas típicos de fóruns da internet, mas em raras ocasiões o rapaz deixava escapar algumas vulnerabilidades bastante reais.

“Minha psicose é autodiagnosticada e muito generalizada para ser levada a sério ou merecer ser comentada”, escreveu em 2009. Quando a irmã de um membro do Zelda Power foi assassinada, ele foi um dos primeiros a se manifestar com flores e palavras gentis. “Você é um de nós e nós nos ajudamos às vezes, ao nosso modo”.

Sanford em 2008. Foto de sua agora extinta conta no site Cosplay.com

Ainda assim, mulheres, fonte de insegurança para Sanford, tornaram-se alvo de seu desprezo com o passar do tempo. “Bata numa mulher e ela não vai reagir por estar em choque. Ou meta-lhe um tabefe como um homem de verdade”, escreveu em 2008.

Ele também começou a falar cada vez mal cada vez mais sobre minorias. “Armas não matam pessoas, minorias o fazem”, escreveu em 2012, o que foi chocante levando em conta o que se postava no Zelda Power, mas nada demais em comparação com o que viria depois. No final das contas, ele se viu do outro lado do muro quando o Zelda Power se mostrou um tanto quanto progressista em relação a temas como o Gamergate ou o Brexit, considerando garotas gamers vítimas na maioria das vezes e que a Grã-Bretanha deveria manter-se na União Europeia. Sanford foi jogado para escanteio com a eleição de Trump, fazendo um breve retorno para comemorar sua vitória. Naquele momento, Clayton Sanford já havia encontrado outra família.

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Sanford chegou à alt-right em 2016 por meio de um caminho semelhante ao que havia levado-o até o Zelda Power em 2001: a cultura nerd. Ele encontrou um novo lar no The Right Stuff, fórum de extrema direita fundado por Mike Peinovich em 2012.

“Eu diria que o The Right Stuff é um dos mais importantes pontos de encontro da alt-right agora. Digo isso por conta da audiência gerada ali”, comentou à VICE Keegan Hankes, da SPLC, há algumas semanas.

Sanford era um membro respeitado do TRS que exigia respeito e dava conselhos a podcasters de direita para que melhorassem seus meios de propaganda, fosse através de memes, vídeos no YouTube ou podcasts. “Tento ver [material de propaganda] como se fosse um normie vendo meu primeiro vídeo sobre Hitler e todas aquelas cenas de tiro e estrelas de David são sempre meio broxantes. O primeiro vídeo não deveria citar judeus ou mostrar a guerra, mas sim mostrar algo que o normie possa entender e este vídeo aqui faz isso bem”, escreveu para um usuário que havia postado um vídeo pró-Hitler em dezembro de 2017.

Usuários do The Right Stuff expressam seu descontentamento com a remoção dos podcasts 'This Hour Has 88 Minutes' após investigação da VICE.

Sanford também escreveu diversos posts exaltando as virtudes de um estado étnico branco. Como muitos outros “Leafs” (como se identificam os usuários canadenses no fórum), boa parte do ódio de Sanford se dirigia aos indígenas. “Eles são uns crioulos avermelhados, quase todos são gordos e preguiçosos que se trabalhassem tanto quanto reclamam, seriam capazes de construir umas porras de umas pirâmides”, escreveu em 2016.

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O salto das postagens em fóruns para o recrutamento ativo surgiu com o This Hour Has 88 Minutes. O podcast ganhou popularidade, em parte, por sua longevidade; com 90 episódios, era um dos únicos a durar mais que uns poucos programas. Sanford editava o podcast e ajudou a criar um segmento chamado “Rice Report” onde um “correspondente” com um sotaque chinês forçado falava sobre como os asiáticos estavam tomando a América do Norte. O podcast seria palco de diversos temas decididamente importantes para a direita canadense, apresentando ainda paródias como uma versão nazista do clássico de Stan Rogers “Barrett’s Privateers”, agora regravada como “Manstein Grenadier”, cujo primeiro verso começava com “Ah, o ano era 1943/Como eu queria estar em Berlim agora”.

Página inicial do 'The Right Stuff'.

Com suas tentativas de humor recobertas de ironia e cinismo, estes podcasts se aproximam e muito à linguagem dos shitposters da alt-right na internet, diferentes dos produtos pseudo-intelectuais oferecidos pelo sites racistas já na ativa.

“Podcasts são essenciais para o movimento, isto fica claro pela quantidade de programas existentes, especialmente na rede The Right Stuff que abrigava o This Hour Has 88 Minutes”, disse Hanks à VICE. “Eles criaram uma quantidade prolífica de conteúdo em seu curto período de existência. É algo crítico para a doutrinação de novos membros”.

Imagem de um episódio de 'This Hour Has 88 Minutes'.

Mas o perfil de destaque destes neonazistas online também significava mais atenção da parte de jornalistas e antifascistas. Ao passo que as identidades de gente como Gabriel Sohier-Chaput (“Zeiger’) e Thomas White vieram à tona, um Sanford cada vez mais assustado insistiu para que seus colegas usuários saíssem da plataforma Discord, fonte de muitos vazamentos para ativistas antifascismo, visto que temia que suas identidades fossem reveladas.

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Em julho de 2017 os Leafs se encontraram pela primeira vez. O evento necessitou de meses de planejamento e foi batizado de Leafensraum — uma referência a “Lebensraum”, um termo específico que denominava o colonialismo no auge nazista Discursos foram feitos, fogos de artifício foram estourados e a raça branca foi exaltada. Um dos participantes levou duas banheiras cheias de maionese em celebração à branquitude. Foi, por falta de termo melhor, um acampamento nazi só de macho.

Quase 40 neonazistas de alto calibre participaram do evento no sul de Ontário entre 21 e 24 de julho, onde compartilharam cabanas, cachaça e ideias. Vinham de todas as partes: ao menos um veio dos EUA, outros tantos de News Brunswick, diversos nativos de Quebec, incluindo Sohier-Chaput. Um dos apresentadores do 88 Minutes, Jonathan Boone, veio de British Columbia. Stanford veio de Ottawa, região onde morava.

Foto do local onde foi realizado o Leafensraum, postada por Zeiger em seu texto sobre o evento postado no Daily Stormer, não mais disponível.

O clima de camaradagem no ar não era muito diferente do evento de anime frequentado por Sanford quase dez anos antes, mas agora, em vez de discutir minúcias da animação japonesa — tais como a importância política do pornô com tentáculo já não ser algo mais tão presente no meio — ele agora saía em caminhadas, tomava um uisquinho e planejava um futuro dominado por brancos com seus amigos nazis.

Assim como os eventos frequentados na juventude, Sanford adorava o tempo passado com seus amigos online — incluindo seus colegas de podcast. “Foi a primeira vez que nos encontramos. A equipe toda junta pela primeira vez, acompanhada por todos os convidados que já recebemos”, diria Sanford em um episódio posterior do 88 Minutes.

No final das contas, foi aquele seu auge. Nos meses seguintes, as identidades de vários nazistas canadenses de alto escalão acabariam sendo reveladas por diversos veículos de mídia e por meio de uma campanha de doxxing iniciada por diversos grupos antifascistas. Eles foram silenciados, ao menso por enquanto. O fórum The Right Stuff se fechou e o This Hour Has 88 Minutes chegou ao fim, deixando Clayton Sanford sem uma voz online pela primeira vez em mais de uma década.

Um silêncio considerado positivo por ao menos um de seus antigos amigos.

“Clayton Sanford não pode atuar como supremacista branco na surdina com uma plataforma dessas”, disse Ben Arsenault. “De cara, quero odiá-lo por ser um nazista, mas a verdade é que isso tudo só me deixa triste e eu sinto falta do meu amigo”.

Matéria originalmente publicada na VICE Canadá.

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