As eleições de 2018 trouxeram um compilado de fatos curiosos e excêntricos para o processo democrático do Brasil. O mais esperado deles talvez seja o alto número de delegados, sargentos e coronéis escolhidos para cargos legislativos. No fim da apuração de ontem, viu-se que o número de policiais e militares eleitos como deputados ou senadores saltou de 18 para 73, uma marca quatro vezes maior que a obtida no pleito de 2014. (O levantamento, feito pelo G1, considerou apenas a autodeclaração dos candidatos. Alguns, como Major Olímpio, eleito para o Senado por São Paulo, não declarou sua ocupação fora da política. O número, portanto, pode ser maior.)
O fato não pode ser considerado uma anomalia ou fora do contexto da atual conjuntura política. De acordo com o professor Alvaro Bianchi, diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo, o sentimento captado pelo crescente número das candidaturas revela que a pauta da segurança pública tornou-se uma prioridade para grande parcela da população. “Os candidatos majoritários perceberam isso e incorporaram militares e policiais em suas listas", comenta. "Com a crise, a sensação de insegurança tende a crescer as demandas por policiamento ou por um sistema penal mais intolerante tende a aumentar.”
Coronel Alexandre Quintino (PSL) foi eleito deputado estadual no Espírito Santo. Foto: Divulgação
Segundo o professor, a eleição de diversos deputados militares confirma a onda conservadora em curso no Brasil. Para ele, o crescimento da direita é inegável e vai além da votação catapultada por Jair Bolsonaro (PSL). “De acordo com o Centro de Estudos de Opinião Pública, da Universidade Estadual de Campinas, o novo Congresso terá 301 deputados de direita. Em 2010 eram 190. O crescimento é expressivo”, diz.
Para Bianchi, as razões desse aumento de políticos militares e conservadores são várias. “Existe o lobby da indústria armamentista, que financia essas candidaturas. E existe também o lobby das corporações militares e policiais que desejam ver seus privilégios preservados", comenta. "Polícia e Exército são instituições pouco afeitas à democracia, com organizações internas fortemente hierarquizadas e com uma cultura da violência. A transposição desse espírito autoritário para os legislativos não fará bem à democracia.”
Candidatos como eleito para deputado estadual no Espírito Santo, Delegado Lorenzo Pazolini (PRP), que era titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), ou mesmo o Delegado Waldir (PSL), o deputado federal mais votado em Goiás, revelam um cenário intrigante, uma vez que as carreiras de muitos deles podem interferir diretamente no seu mandato e nas suas pastas. A dúvida comum a muitos analistas políticos é o que eles vão priorizar: o cargo político ou o posto em suas corporações?

Para Bianchi, é preciso estar atento às pautas desses deputados eleitos. “Há convergências importantes entre as chamadas bancadas do boi, da bala e da Bíblia. O único partido das esquerdas que aumentou sua bancada foi o PSOL, o qual obteve uma importante vitória, passando de seis para dez deputados.”
O resultado do primeiro turno marca uma profunda crise de representação dos partidos políticos tradicionais. Houve uma ascensão da direita radical no cenário político brasileiro e, junto a isso, ocorreu o declínio da centro-direita representada pelo PSDB e MDB e a lenta agonia da centro-esquerda representada pelo PT. "Essas tendências não serão alteradas por um segundo turno, qualquer que seja seu resultado”, analisa Bianchi. Ao que parece, o conservadorismo no Brasil não era apenas uma marolinha.
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