Sexo

Fingi ser o jovem Joseph Stalin no Tinder e deu estranhamente certo

Gente bonita consegue se dar bem de qualquer jeito em aplicativos de encontro. Mas essa regra se aplica quando a pessoa é um ditador?
4.2.19
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Todas as imagens cortesia do autor.

Quando falamos de dates do Tinder e afins, as coisas parecem promissoras entre Sofia e eu. Estamos bebendo cerveja num bar na Alemanha, compartilhando nosso amor por livros e como detestamos o jeito que americanos ocupam espaço demais nas pistas de dança. Quando ela me oferece um cigarro, decido esquecer meu plano de parar de fumar por uma semana.

Apesar dessa conexão, tenho zero chances com ela, porque nosso encontro é resultado de um experimento. Até onde ela sabe, meu nome é Joseph Stalin.

Cinco dias antes

É inacreditável como gente bonita pode se comportar de qualquer jeito em aplicativos de encontro. Mas essa regra se aplica quando a pessoa é um ditador do século 20? Fiquei pensando nisso enquanto examinava uma caixa de fósforos que um amigo trouxe da Geórgia, o local de nascimento do ex-governante soviético Joseph Stalin, um homem que disse: “Uma única morte é uma tragédia; um milhão de mortes é estatística”.

Num lado da caixa, Stalin aparece como nos livros de história: rosto redondo, bigodão e cabelo preto lambido para trás. O outro lado mostra um homem jovem e bem barbeado, com o cabelo preto num topete. Podia até ser o tecladista de uma banda indie dos anos 2000, mas não é: é um comunista totalitário como um jovem revolucionário charmoso.

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Para descobrir até onde um rostinho bonito pode te levar no Tinder, me registrei como Josef, 27 anos, no Tinder.

Infelizmente, não achei uma citação romântica do Stalin para apimentar meu perfil; ele gostava muito mais de falar de morte que dos assuntos do coração. Em vez disso, manipulei um trecho de um dos discursos dele, mudando “Hitlers vêm e vão, mas a Alemanha e o povo alemão permanecem” para “Relacionamentos vêm e vão, mas o amor permanece”.

Montei o perfil de Stalin até que bem rápido, mas conseguir um encontro é um pouco mais difícil. Depois de 15 minutos, fico sem pessoas para dar like, e não consigo um único match. Isso significa que mais pessoas do que eu pensava estão familiarizadas com o trabalho de Stalin nos seus anos de crepúsculo? Os “FCK NZS” e “sempre antifascista” que coloquei na bio não eram o suficiente para compensar?

Troco a ordem das minhas fotos e expando minha área de busca, mas ainda não tenho sorte. Aí pego meu cartão de crédito e pago pelo Tinder Plus. Também abro meu perfil para homens. Com a habilidade de mandar “super likes” infinitos e a bissexualidade recentemente descoberta de Stalin, de repente as coisas começam a andar. Na primeira hora, meu telefone vibra 15 vezes. As pequenas fotos de perfil começam a dançar na tela e o aplicativo proclama “Deu match! Você e Simon curtiram um ao outro”.

Procuro a melhor citação de Karl Marx para quebrar o gelo. “Oi, camarada, você não tem nada a perder a não ser suas correntes!” Ele responde: “De que correntes você está falando ;)”

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Claro que estou falando das correntes que as forças capitalistas usam para prender as classes trabalhadoras, mas percebo que não é uma cantada muito boa, então digito “você pode escolher onde vou usá-las ;)”.

Das Stalin-Profil unseres Autoren auf Tinder

Meu perfil do Stalin.

Agora mensagens inundam meu inbox. Meus matches podem ser divididos em três categorias. Primeiro: o pessoal sem noção – chovendo elogios pra mim. Segundo: aqueles que vão ficando cada vez mais céticos enquanto conversamos; “Não percebi que estava falando com um ditador. Preciso ler a bio das pessoas com mais cuidado”, diz um. Terceiro: uma mistura de stalinistas e especialistas em história. Com esse pessoal posso falar livremente sobre o Testamento de Lenin usando um emoji de silêncio e conversar sobre o assassinato do rival de partido Trotsky utilizando um emoji de furador de gelo.

Pouca gente parece perturbada por eu estar assumindo a identidade de um tirano – pelo menos, ninguém me disse que via problema nisso. Alex diz: “Eu não me importaria de dividir um gulag com você ;)”. Fofo.

Stalins Tinder-Chats mit mehren Usern

Stalin arrasando no Tinder.

Na mistura está Sofia, que abençoei com um dos meus super likes. A mulher de 30 anos quer “trocar pensamentos antes de trocar fluídos”, segundo seu perfil. Ela começa a conversa em russo, perguntando “Você está vivo?”, e se vou trazer o comunismo de volta. Uso o Google Tradutor e o russo que aprendi na escola para minha resposta: “Onde quer que eu esteja, é onde o comunismo está”.

As respostas continuam chegando – na segunda-feira atinjo 100 matches e, na noite de quarta, chego na marca dos 200. Enquanto isso, escrevo em russo, inglês e alemão, para advogados, estudantes e tatuadores. Estou negligenciando minha conversa com a Sofia neste ponto; ela me manda uma mensagem dizendo que não sou muito falante.

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Estou procurando algo para dizer sobre como a União Soviética não vai se industrializar sozinha. Explico minha falta de comunicação dizendo que o altamente paranoico Stalin não pode confiar em ninguém e tem que fazer tudo sozinho. Sofia me garante que não é uma espiã e que posso confiar nela. Decido seguir a deixa: “Para julgar isso, preciso olhar nos seus olhos”.

Sugiro que a gente se encontre no antigo setor soviético de Berlim Oriental. Sofia concorda. Digo que vou estar usando uma jaqueta de futebol vintage da Alemanha Oriental, já que é a coisa que mais combina com a situação que acho no meu guarda-roupa.

Antes do nosso encontro, não tenho certeza se ela vai mesmo aparecer. “Você já chegou?”, ela me escreve às 20h. Sei que ela só mandou mensagem porque está imaginando se estou parado aqui tomando chuva que nem um idiota. Talvez ela só queira vingança – zoar com a pessoa por trás de uma conta falsa, com a foto de um tirano responsável por incontáveis mortes. No final das contas, essa seria uma piada macabra justa.

Mas aí a vejo se aproximando. “Sofia”, ela se apresenta, direta. “Sou o Joseph”, respondo com um aperto de mãos empresarial.

“Ah, Joseph é seu nome de verdade?”, ela pergunta, dando um último trago num cigarro bolado à mão e depois pisando nele para apagar. Ela é mais alta que eu, com cabelo marrom na altura dos ombros. Diferente da Sofia, não pareço nada com meu perfil do Tinder. E não tenho nenhuma ilusão de parecer com o jovem Stalin. Escondido atrás do aplicativo, eu tinha a confiança de um ditador, mas na vida real sou bastante tímido.

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Sofia parece feliz por eu não ser um oficial aposentado da Stasi e estou feliz que ela não seja um membro da Associação das Vítimas do Stalinismo, usando esse encontro como uma desculpa para me atacar. Mas a noite está só começando.

Não tem nenhuma mesa disponível no Prassnik, o bar mal iluminado em Berlin-Mitte onde combinamos de nos encontrar, então somos obrigados a ficar na chuva. Antes de encontrarmos um lugar para comprar uma bebida, pergunto a ela: “Por que você concordou em ter um encontro com alguém fingindo ser Joseph Stalin?”

Não pode ser por falta de opção. Sofia é bonita, inteligente e divertida. “Achei que seria engraçado”, ela diz. Mais interessante do que os caras que postam foto sem camisa, ela diz.

Quando finalmente encontramos um lugar seco para sentar, Sofia me conta que é professora de alemão e como foi crescer perto da fronteira entre Alemanha e Polônia. Ela conta que saiu de casa para se mudar para Moscou sozinha depois da faculdade, sem falar uma palavra de russo, o que mais tarde a fez decidir cursar estudos eslavos.

Distraído com a conversa agradável, começo a esquecer meu papel. Escorrego e acidentalmente revelo meu nome verdadeiro. “Quem é Paul?”, Sofia pergunta.

Quando ela vai ao banheiro, pego meu telefone e encontro mais de uma dúzia de novas notificações. Tento, mas não consigo resistir ao impulso de saber quem são meus matches. A cada 30 segundos, um homem parece se apaixonar por Stalin. Emre acha que ele parece “mágico”. Egon, careca com uma barba de mago grisalha, pegunta se quero conversar por WhatsApp. Ele diz que quer ditar a vibe quando transarmos. Ele não curte minha sugestão: começar as coisas com um beijo de irmãos socialistas.

Enquanto isso, Sofia volta do banheiro. Rapidamente guardo meu celular e decido explicar a ela meus motivos. Confesso que sou jornalista e planejo fazer uma matéria sobre o experimento Jovem Stalin. Sofia absorve as informações. Ela não parece muito entusiasmada e pergunta, só meio brincando, “Você estava secretamente gravando nossa conversa?” Por alguma razão, ela não vai embora e imaginamos onde nosso date acabaria se isso tudo fosse real. Imaginamos o quarto dela cheio de cartazes do Stalin e decoração soviética.

Sofia vai dar uma prova amanhã, então troca o álcool por refrigerante. Ficamos observando as pessoas dançando na pista por um tempo antes de decidirmos ir embora. Nos despedimos com um abraço e marcamos de ir ao cinema em breve.

Na manhã seguinte, agradeço a ela pelo “encontro muito legal”, e pergunto como foi a prova. No mesmo dia, o Tinder me avisa que fui denunciado por postar material ofensivo no meu perfil. Um número de telefone russo começa a me ligar incessantemente, mas quando atendo só ouço estática do outro lado da linha. Acho que é hora de deletar minha conta, mas não antes de uma mensagem final: mando meu número para Sofia. Não tive notícias dela até agora.

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