Assassinato bizarro na Flórida mostra como um neo-nazi se transformou num jihadista

Pode parecer estranho, mas não é a primeira vez que jovens trocam de ideologias de ódio completamente diferentes.

Por Allie Conti
29 Maio 2017, 2:03pm

Imagem por Lia Kantrowitz.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Devon Arthurs não mudou de casa mesmo depois da sua conversão ao Islão. O jovem de 18 anos morava num condomínio fechado, chamado Hamptons, na cidade de Tampa Palms, com três outros jovens que identificou como nacionalistas brancos. Os seus colegas de casa pareciam não achar que mudar de uma ideologia extrema para outra fosse grande coisa. Alguns dos colegas eram membros de um grupo chamado AtomWaffen Division, conhecido principalmente por distribuir panfletos racistas em universidades.

No entanto, o delicado acordo de co-habitação entre as diferentes convicções acabou por não resultar. Há alguns dias, Arthurs fez três pessoas reféns numa tabacaria em Tampa, segundo a polícia local. Quando foi preso, confessou que tinha assassinado dois dos seus colegas de casa – Jeremy Himmleman, 22 anos, e Andrew Oneschuk, de 18 – por fazerem comentários depreciativos sobre a sua nova religião (a irmã de Himmelman disse ao Tampa Bay Times que o irmão e Oneschuk não eram neo-nazis, apesar de Arthurs afirmar o contrário). Quando a polícia chegou ao condomínio Hamptons, os agentes encontraram o terceiro colega deles, Brandon Russel, de 21 anos, a chorar à porta de casa vestido com um uniforme camuflado.

A história teve ainda outra estranha reviravolta quando a polícia vasculhou o apartamento. na garagem, encontraram "um refrigerador que continha uma substância branca tipo cocaína", conhecida como hexametileno-triperóxido-diamina e um pacote de "precursores de explosivos", com o nome de Russell, juntamente com uma foto do terrorista de Oklahoma, Timothy McVeigh. Russel, que é membro da Guarda Nacional da Flórida, foi preso dois dias depois em Florida Keys e foi acusado pelo tribunal federal por posse de explosivos. Enquanto isso, Arthurs recebeu duas acusações de homicídio em primeiro grau e duas de ofensas corporais, além de acusações de sequestro.


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Um conhecido dos rapazes, Watson Fincher, de 24 anos, explicou a dinâmica do grupo ao Tampa Bay Times. Ele conta que Arthurs começou a identificar-se como muçulmano há cerca de um ano e mudou o seu perfil na comunidade de extrema-direita ironmarch.com, para refletir a sua nova identidade nacionalista socialista salafista – uma referência a um dos ramos mais conservadores do islão sunita. Apesar de outros participantes terem gozado com ele na altura, Arthurs parece ter continuado no meio da AtomWaffe Division, um pequeno grupo de ódio, que tem sido monitorizado pelo Southern Poverty Law e pela Liga Anti-Difamação.

A ideia de um neonazi a converter-se a uma ramificação ultraconservadora do islão sunita pode parecer inexplicável, mas Fincher salienta que a vida de Arthurs era marcada por contradições. "Ele foi ateu. Depois católico. Depois cristão ortodoxo. Depois nazi. Depois muçulmano. Apegava-se à estética de qualquer coisa que lhe parecesse fixe", disse ao Tampa Bay Times.

Especialistas em terrorismo dizem que saltar entre grupos violentos com ideologias aparentemente opostas não é exactamente uma novidade. "Não tens de ser membro encartado de nenhum grupo extremista – podes passar de um para o outro facilmente", sublinha Oren Segal, director do Centro de Extremismo da Liga Anti-Difamação. E acrescenta: "Mas, geralmente, a pessoa vai de um grupo supremacista branco para o outro. É difícil ver um supremacista branco converter-se a algo que despreza".

A situação mais próxima deste caso que Segal viu, foi a de um homem chamado Ryan Anderson. Ele fazia parte da Guarda Nacional do Estado de Washington e postou anúncios em grupos do Usenet, em 1995, à procura de milícias locais às quais se pudesse juntar. Anderson foi-se tornando cada vez mais crítico desses mesmos grupos e, no ano seguinte, começou a participar no grupo de notícias alt.religion.islam. Em Setembro de 2004, foi condenado por tentar fornecer informação à Al-Qaeda e apanhou prisão perpétua.

Segal diz-me que a Internet tem permitido que jovens rebeldes passem de um grupo radical para outro como preferirem – da mesma forma que adolescentes típicos experimentam personas diferentes.

Barry Levin, director do Centro de Estudos de Ódio e Extremismo da Universidade Estadual da Califórnia, em San Bernardino, aponta um caso bem mais recente de alguém que se converteu do neo-nazismo para o salafismo. Em Fevereiro, a polícia alemã prendeu um homem que se identificava como "Sascha L.", acusado de tentar atrair polícias e soldados para uma armadilha com explosivos. As autoridades disseram que encontraram vídeos antigos no YouTube, onde Sascha falava sobre a ameaça crescente dos muçulmanos. Aparentemente, passou para o lado do islão radical em 2014.

Geralmente, estes casos bizarros envolvem jovens, o que Levin diz ser crucial. Quando as pessoas saem de casa pela primeira vez, procuram uma identidade. Algumas pessoas com problemas psicológicos podem acabar por ser atraídas pelo radicalismo. Levin recorda um antigo amigo que se tornou cristão renascido e mudou completamente de vida – um exemplo de alguém que encontrou uma ideologia radical "elevada".

"Habitualmente, pessoas saudáveis não abraçam o radicalismo", considera Levin. E conclui: "A diferença entre alguém se juntar a um grupo extremista no passado e agora, com a Internet, é que hoje podes colocar várias características anti-sociais na equação, o que pode não ter uma consistência ideológica, mas tem consistência psicológica. As pessoas juntam-se a filosofias para, de certa maneira, se sentirem confortáveis, mesmo que essas filosofias sejam tóxicas".