Entretenimento

Fiz uma aula de ginástica só pra falar com Ivan Drago, o supervilão de Rocky

Eu queria ver o que aconteceu com o russo depois que ele matou Apollo Creed.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
5.12.18
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Foto: via Warner Bros.

Ivan Drago matou Apollo Creed e ainda odeio ele por causa disso. Ivan Drago – que Hollywood tenta convencer todo mundo que é só o ator parrudo loiro chamado Dolph Lundgren, mas não é – não merece um segundo de paz pro resto de sua vida maldita.

Em Rocky IV de 1985, um documentário sobre as relações entre EUA e Rússia no meio da Guerra Fria, Drago simplesmente assassina Apollo Creed numa luta amistosa (*1) e ninguém faz nada. Ele não encara nenhuma consequência por suas ações; na verdade, ganha outra chance de matar quando Rocky viaja para a Rússia pra lutar com ele no dia de Natal ( Rocky IV é um filme de Natal, tente me convencer do contrário). De algum jeito, porém, Rocky supera um homem 15 centímetros mais alto que ele e cheio esteroides depois de 15 rounds de tijolada na cabeça, e a Rússia inteira aplaude de pé.

Como já deu pra notar, tenho um carinho especial pelos filmes Rocky, Rocky II, Rocky III, Rocky IV, Rocky Balboa, Creed e o lançamento recente Creed II. O sentimento geral é: esses são os filmes mais importantes já feitos. Vamos a um rápido resumo.

Rocky é um simpático vencedor do Oscar com um coração de ouro e uma esquerda de ferro que enfrenta o campeão mundial enquanto tira os óculos de uma funcionária de pet shop e se apaixona por ela.

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Rocky II mostra ele no fundo do poço antes de atingir as alturas: depois que um machucado no olho acaba com a carreira dele no boxe, ele arranja um trampo numa fábrica e começa uma família, aí – e ainda não entendo como e olha que já vi esse filme umas 15 vezes e eles nunca deixam realmente claro – ele ignora o machucado e vai lutar mesmo assim.

Rocky III: morte, racismo, sensualidade.

Rocky IV: já falei.

Rocky V: não aconteceu, não existe.

Rocky Balboa: a queda do campeão para um papel triste de um pai com muita coisa na cabeça.

Creed: um remix do Soundcloud do primeiro filme que consegue ser tão bom quanto o original.

Creed II: Creed II é como se Rocky II e Rocky IV tivessem um filho, mas realmente cuidassem dele em vez de o batizar de “Robert” e nunca ensinar ele a lutar. Nele, Ivan Drago está de volta, desgraçado e treinando um moleque monstrão para lutar com o filho do homem que ele matou, e ainda morro de medo dele.

Para confrontar esse medo, fiz uma aula de ginástica num porão de um hotel chique de Londres, na Inglaterra. Isso porque, como parte da coisa toda pra promover Creed II, Ivan Drago vai aparecer nos últimos cinco minutos da aula sei lá por quê.

Durante a aula, estou praticamente morrendo tentando acompanhar os influencer de fitness aqui numa sessão “divertida” de HIIT me esforçando para não vomitar. Não sei qual é o plano porque não estou conseguindo respirar. Estou completamente, e até sensualmente, encharcado de suor. Se o Ivan Drago aparecer agora ele ia dar aquela risadinha em russo, apontar pra mim e dizer “ele é fraco” no meio de todos esses caras bombados com 200k seguidores no Instagram. “Ele não tem coordenação para escalar uma montanha. Mate ele”, ele diz, aí aparece a máquina da morte romena de 1,93 metro Florian Munteanu, um dos protagonistas desse novo filme, que vem correndo na minha direção e me mata com um soco, estilo Apollo, e eu – olha, perdi aqui o fio da meada aqui porque o Ivan Drago não vai chegar tão cedo pra me zoar, então termino uns alongamentos de ioga e vou até a outra sala para participar de uma entrevista coletiva.

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Se você nunca viu uma pessoa de Hollywood de perto, aqui vão algumas observações de alguém que já viu: dentes brilhantes, pele perfeita, mais folículos capilares do que você pode imaginar, vestido dos pés à cabeça com as melhores marcas de roupas que você nunca ouviu falar, quanto mais pode ter – é muito interessante ver um humano assim. Florian chega na mesa tão bem barbeado que parece que tem alguém na outra sala com uma lâmina de barbear pronta pra raspar qualquer pontinha de barba. Drago tem antebraços marcados com veias como raízes de uma árvore perfeita: dezenas de veias, centenas de veias, veias duras e robustas resultado de anos puxando ferro. Parece mesmo que uma veia do braço de Drago é mais forte que meu corpo inteiro. Estou perplexo.

E quero dizer: todos os filmes do Rocky eram meus favoritos quando eu era criança. As VHSs de Rocky I até IV definiram a minha infância. Rocky V não tanto. Aí saiu Balboa quando eu era adulto e achei OK; achei legal que o Rocky ainda estava por aí, depois teve um intervalo e saiu Creed e me apaixonei de novo pela coisa toda: o boxe, os treinos, um romance, espécimes perfeitos tendo encontros fofos em bares da Filadélfia, a dinâmica complicada de pai e filho, homens fazendo joinha um pro outro através de janelas, as crianças correndo atrás do campeão, as cenas de luta, os momentos de prender a respiração quando Rocky cai e você não sabe se ele vai levantar – claro que vai, ele precisa, a câmera fica girando, o som vai diminuindo – e aí o som da multidão volta e sim, sim, uma luva agarra a corda, o juiz não termina a contagem, Rocky conseguiu, Rocky venceu. Aquele Drago era o vilão mais assustador da história do cinema, pra mim, mais assustador que o Darth Vader, mais assustador que a cara derretida em Os Caçadores da Arca Perdida, mais assustador que o qualquer coisa.

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E aqui, nessa sala, cercado de influencers perguntando pro Dolph Lundgren qual a rotina de exercícios que ele mais gosta, de repente não me sinto tão preparado pra fazer minhas perguntas – “FORAM OITO FILMES DO ROCKY COM IV SENDO O MELHOR E V SENDO O PIOR, DOS OUTROS SEIS FILMES DO ROCKY INCLUINDO CREED II, QUAL O SEU RANQUEAMENTO?” – porque meio que não importa. Perguntar o que Rocky significa num sentido mais amplo é inteiramente irrelevante. Se você adora os filmes do Rocky – uma franquia surpreendentemente longa sobre um trabalhador ítalo-americano que fica tomando soco na cara e é todo bonzinho a menos que esteja no ringue, onde ele é o filho da puta mais poderoso do mundo, que é uma coisa com que muita gente vai se identificar, mesmo um pamonha fracote britânico como eu – não importa qual a posição em que Ivan Drago acha que Creed II deveria ficar na lista de melhores de todos os tempos (sexto lugar). Rocky é uma questão pessoal pra você. É o que você quer que ele seja.

Bom, aí formamos uma fila para tirar fotos. A maioria do pessoal escolhe a encarada ou a posição das luvas levantadas, mas tenho algo mais específico em mente. Pergunto a Drago, digo, ao ator que o interpretou, Dolph Lundgren, se podemos posar pra foto tipo aquela cena do toque de luvas em Rocky IV, quando Drago – impassível – levanta as mãos monstruosas para o Creed tocar, o primeiro momento do medo se mostrando na cara do Creed enquanto ele percebe que ele está fodido.

Essa é a foto. Fiz uma aula inteira de ginástica pra isso. Confrontei o homem que definiu meus medos de infância. Ficou uma bela merda.

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(Foto via Warner Bros.)

Matéria originalmente publicada pela VICE Reino Unido.

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