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Fotos de mulheres radicais na Nova Iorque dos anos 70 e 80

Marcia Resnick captou o espírito selvagem e feminista de ícones como Joan Jett e Debbie Harry, num tempo em que o olhar masculino pairava sobre a arte.

Por Miss Rosen
12 Abril 2018, 6:14pm

Esquerda: Anya Phillips no Max's Kansas City. Direita: Damita Richter a posar com uma arma de brincar. © Marcia Resnick.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

A fotógrafa nascida no bairro de Brooklyn, Nova Iorque, Marcia Resnick, tem vindo a documentar as comunidades artísticas da cidade norte-americana há mais de meio século. Quando ainda andava no liceu, nos anos 1960, gostava de se misturar com hippies envelhecidos em clubes de Greenwich Village como o Café Au Go Go e Café Wha? e, nos anos 70, morou num prédio de Tribeca onde tinha vizinhos como Laurie Anderson.

Nessa década, que certamente foi a mais selvagem da cidade, Resnick passava a maioria das noites em lugares como o CBGB, Max's Kansas City e Mudd Club. Começou também a fotografar os “bad boys” da cena artística, pois queria ver como homens poderosos como Jean-Michel Basquiat, Iggy Pop e William S. Burroughs reagiam quando a mesa virava e uma mulher estava atrás da câmara, sujeitando-os ao olhar feminino.

A fotógrafa também se encantou com as mulheres com quem morava, trabalhava e saía e que também estavam a abanar a cena. Apesar de menos conhecida que a sua série Bad Boys – que mais tarde foi publicada no livro Punks, Poets e Provocateurs, NYC Bad Boys 1977-1982 (Insight Editions, 2015) –, a série Wild Women, de Resnick, capta o espírito revolucionário e o poder criativo de artistas como Joan Jett, Debbie Harry e Susan Sontag.

Wild Women é um corpo de trabalho raramente visto, que encarna o ethos DIY da era e a VICE encontrou-se recentemente com Resnick para falar sobre como foi documentar as suas colegas e como o feminismo sacudiu os anos 70 e 80.

Esquerda: Debbie Harry num quarto de hotel. Direita: Debbie Harry a brincar com vegetais depois de um concerto. © Marcia Resnick

VICE: Como é que te acabaste por interessar por arte e fotografia?
Marcia Resnick: Sempre adorei arte. Quando tinha cinco anos, o meu pai colocava os meus desenhos na montra da sua loja de impressão em Brighton Beach. Um cliente gostou e levou os desenhos para uma exposição do Brooklyn Children's Museum. Foi a minha primeira exposição de arte.

Fiz dois anos na NYU, depois transferi-me para a Cooper Union, onde me deixei cativar pela fotografia. Frequentei o Instituto de Artes da Califórnia, onde estudei “Arte Pós-Estúdio”, com John Baldessari, tive Robert Heinecken como mentor na UCLA e Ben Lifson, um “fotógrafo à séria”, foi o meu supervisor de graduação.

Em 1973, recebi o meu mestrado de Fotografia na CalArts, durante as primeiras ondas do movimento feminista. As faculdades estavam a tentar contratar mais mulheres para equilibrar as equipas. Quando o Queens College me ofereceu um trabalho, aceitei. Atravessei o país de carro, a tirar fotos pelo caminho. Quando cheguei, tinha decorado o automóvel com o nome de todos os meus namorados no capot. As palavras “Marcia the Masher” estavam escritas na parte lateral da viatura.

Lydia Lunch de quatro. © Marcia Resnick

Como era Nova Iorque quando regressaste?
Nova Iorque era uma cidade perigosa e à beira da falência – mas barata e cheia de possibilidades. Encontrei um sítio perto de Bowery e Houston Street e mudei-me para lá com a minha colega de quarto da Cooper Union, Pooh Kaye, uma artista e bailarina. Pagávamos 70 dólares de renda cada uma. O meu salário era de 100 dólares por semana para dar duas aulas de quatro horas de fotografia, uma vez por semana.

O Soho, que ficava ali pertinho, era o centro do mundo das artes. Pooh e eu frequentávamos vernissages, bares artísticos e festas em lofts de artistas. Mickey Ruskin era dono do Max's Kansas City, frequentado por Warhol e as suas estrelas, artistas “blue-chip” e celebridades do rock. Pooh limpava a casa de Mickey, portanto tínhamos entrada livre.

Esquerda: Joan Jett numa casa-de-banho. Direita: Laurie Anderson com o seu violino. © Marcia Resnick

Como é que acabaste a viver num prédio cheio de artistas?
Encontrei um prédio em Canal Street, entre as ruas Washington e West, numa vizinhança conhecida como Tribeca. Cada andar era divido em lofts de 185 metros quadrados. Os dois primeiros andares eram um centro de metadona público. Os lofts nos outros quatro andares estavam abandonados e meio por acabar.

A Pooh morava no outro loft do meu andar e construímos uma casa-de-banho e uma cozinha para as duas. O meu loft tinha 14 janelas. Construí uma enorme sala escura, que fechava três janelas. Durante o Inverno, dormia num saco-cama na sala escura, porque o resto do loft ficava absolutamente gelado. Não havia forma de aquecer um espaço daqueles com os ventos gelados a virem do rio.

Depois de ver Laurie Anderson fazer uma performance sobre como o seu loft tinha sido consumido por um incêndio, convidei-a para se mudar para o meu prédio e foi assim que acabou por se transformar na minha vizinha do andar de cima. De vez em quando, um ou outro paciente do centro de metadona muito drogado entrava sem querer nos nossos lofts, mas a dada altura o centro acabou por sair dali para para outro sítio.

Como era a vida nocturna nessa época?
Pintores faziam filmes. Escritores faziam arte performática. Escultores faziam instalações. Os artistas colaboravam entre si. Todas as noites saía para ouvir música no CBGB, no Max's e no Mudd Club, que era o meu favorito. Era um bar artístico, com bandas a tocar até altas horas da noite, exposições de arte, peças, desfiles da Betsey Johnson e performances como Rock n' Roll Funeral Ball, que tinha manequins com agulhas enfiadas nos braços. Celebridades como Joe Strummer, David Bowie, Marianne Faithful, Nico, Grace Jones e Diana Ross estavam sempre entre o público.

Para lidar com a culpa que sentia por passar tanto tempo em clubes, convenci-me que as minhas expedições fotográficas nocturnas eram a minha arte. Passar pela multidão para chegar aos bastidores dos concertos tornou-se uma actividade necessária. Nos bastidores tentava simular o visual de um retrato de estúdio. Sempre que possível, combinava um encontro para outra hora e lugar.

Patti Astor numa festa. © Marcia Resnick

Quais foram alguns dos projectos em que trabalhaste nos anos 70?
Em 1975, com ajuda de bolsas do governo, auto-publiquei três livros de arte conceptual: Landscape, See e Tahitian Eve. Em 1978, publiquei Re-visions (The Coach House Press), um livro autobiográfico com fotos cómicas encenadas.

Depois da introspecção de Re-visions, dei uma reviravolta ao meu trabalho conceptual. Queria explorar um mundo fora do meu e passei para outro tópico, que me confundia... a espécie masculina. A minha série Bad Boys nasceu de uma fascinação com a dinâmica de mulheres a fotografarem homens.

Pat Place com um dragão de brinquedo. © Marcia Resnick

O que te inspirou para criar Wild Women?
Enquanto trabalhava na série Bad Boys, não conseguia deixar de trabalhar num projecto paralelo chamado Wild Women. A maioria das bandas punk eram formadas por homens, mas certas mulheres fascinantes embarcaram nos seus próprios projectos de arte, música, literatura e cinema.

Patti Smith e Debbie Harry dos Blondie tornaram-se, eventualmente, bastante comerciais. Laurie Anderson chegou a número dois das tabelas de vendas do Reino Unido com o seu single electrónico de vanguarda “O Superman”, para sua própria grande surpresa. Até àquele momento, a sua arte performática multimédia era conhecida exclusivamente no mundo artístico de Nova Iorque.

Lisa Lyon, numa pose de culturista. © Marcia Resnick

Lisa Lyons, por outro lado, foi uma pioneira que venceu o primeiro Campeonato Profissional de Culturismo Feminino. Ela vivia um estilo de vida sexo, drogas e rock n' roll. Depois de a conhecer, tornámo-nos imediatamente amigas. Só vestíamos preto, curtíamos a vida nocturna da baixa de Manhattan e fomos apelidadas de “As Irmãs Estranhas”, pelo fotógrafo Marcus Leatherdale.

Quais foram algumas das coisas mais radicais que tu e as mulheres dessa época fizeram na altura?
Enquanto as mulheres se consciencializavam de que o ponto de vista masculino, branco e ocidental inconscientemente era aceite como o ponto de vista do mundo das artes, elas entenderam que lhes cabia mudar a situação e criar um campo de actuação mais justo.

Carly Simon no Hurrah. © Marcia Resnick

Quando estava na CalArts, Linda Benglis, que foi a artista convidada durante um semestre, travou amizade comigo. A sua arte e o seu estilo foram uma influência tremenda. Fotografei-a com o seu novo corte de cabelo curto, penteado para trás, à frente do seu Porshe amarelo. Depois de ela voltar para Nova Iorque, quando lhe recusaram espaço editorial no Artforum, Benglis pagou uma publicidade de página inteira, só uma foto dela nua, de óculos escuros, masturbando-se com um vibrador duplo enorme. Foi o “Que se Foda” definitivo ao mundo das artes.

Bebe Buell e a sua filha de três anos, Liv Tyler. © Marcia Resnick

Trabalhar no meu livro Re-visions, que vai ser republicado em 2019 (pela Patrick Frey Editions, Suíça), foi um exercício para aprender sobre mim própria e sobre todas as mulheres. Isso preparou-me para ser sensível em relação a mulheres independentes, conscientes e criativas a trabalharem num mundo “de homens”.

Todas as mulheres que me senti compelida a fotografar ensinaram-me algo sobre a sua experiência. Cada uma das mulheres artistas, escritoras, músicas, bailarinas, designers e pioneiras sexuais que fotografei tinham um talento e uma visão que as tornavam um género único.


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