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Pessoas monogâmicas estão menos satisfeitas do que as poliamorosas

É um estudo - claro! -, que também comparou relações de swingers e entre pessoas em relacionamentos abertos. O poliamor parece levar uma ligeira vantagem.

Por Justin Lehmiller, PhD; Traduzido por Madalena Maltez
11 Abril 2018, 4:31pm

Crédito: Irina Efremova/Stocksy

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

Quem é que tem a vida sexual mais satisfatória: pessoas em relacionamentos monogâmicos, swingers ou poliamorosos? De acordo com alguns estudos, existe uma crença generalizada de que os monogâmicos fazem mais – e melhor – sexo. E porquê? O estereótipo das pessoas numa relação não-monogâmica consensual é de que têm relacionamentos considerados "deficientes". Presume-se que o motivo de terem múltiplos parceiros prende-se com o facto de não estarem satisfeitas ou já não sentirem atracção pelo parceiro original.

Será que essas crenças correspondem à realidade? De acordo com uma nova série de estudos publicados no Journal of Social and Personal Relationships, nem por isso. Na verdade, os monógamos são mesmo aqueles que não parecem lá muito felizes com os seus relacionamentos.

Uma equipa de investigação da Universidade do Michigan, nos EUA, liderada por Terry Conley, realizou dois estudos em que se comparam satisfação sexual, frequência de orgasmos, actividade sexual recente e satisfação geral, em pessoas com relacionamentos monogâmicos e não-monogâmicos consensuais. Além de comparar os dois grupos em geral, os investigadores também compararam três tipos específicos de não-monogamia consensual - a prática do swing, o poliamor e os relacionamentos abertos – com a monogamia, de forma a determinar se o “tipo” de não-monogamia tinha alguma influência.


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Os dois estudos encontraram resultados bastante semelhantes, contudo, os participantes foram recrutados de modos diferentes em cada caso. No primeiro estudo, as pessoas em relacionamentos não-monogâmicos consensuais foram recrutadas em grupos da Internet interessados em relacionamentos não-monogâmicos. No segundo estudo, os não-monogâmicos não foram especificamente visados, a fim de se obter uma amostra mais diversa e representativa. Por isso, focar-me-ei primeiramente na descrição dos resultados do segundo estudo.

No total, 1.177 pessoas em relacionamentos monogâmicos e 510 pessoas em não-monogâmicos participaram no estudo, dos quais 52 por cento eram poliamorosos, 30 por cento estavam em relacionamentos abertos e 18 por cento eram praticantes de swing. Os participantes tinham uma média de idades de 35 anos e a maioria era branca.

Nas comparações gerais, tanto os parceiros monogâmicos como os não-monogâmicos, consensualmente reportaram estar satisfeitos com as suas relações; no entanto, aqueles em relacionamentos não-monogâmicos consensuais estavam sexualmente mais satisfeitos. Os participantes não-monogâmicos consensuais também eram mais propensos a chegar ao orgasmo na maioria dos seus encontros sexuais (84 por cento × 78 por cento). Além disso, também eram mais propensos a reportar terem feito sexo com o seu parceiro principal naquele dia ou no dia anterior (52 por cento × 37 por cento).

Em resumo, mesmo que os não-monogâmicos consensuais não estejam necessariamente mais contentes com os seus relacionamentos no geral, parecem fazer sexo mais frequentemente e de maneira mais satisfatória.

Entre os poliamorosos – aqueles que concordam em ter várias relações amorosas e/ou sexuais ao mesmo tempo – há maior satisfação sexual e maior satisfação com os seus relacionamentos no geral do que entre os monogâmicos. Os poliamorosos não foram mais propensos a ter relatado um orgasmo da última vez em que fizeram sexo do que os monogâmicos, mas foram mais propensos a responder terem feito sexo dentro nos últimos dois dias (48 por cento × 37 por cento).

Entre os swingers – pessoas que têm um parceiro principal, mas que permitem relações sexuais fora desse relacionamento, geralmente na forma de troca de parceiros com outros casais – registou-se a maior satisfação a nível sexual, maior propensão a terem tido orgasmos da última vez em que fizeram sexo (92 por cento × 78 por cento) e muito mais propensão a terem feito sexo no dia anterior ou mesmo no dia da pesquisa, em comparação com os monogâmicos (79 por cento × 37 por cento). Ao contrário dos poliamorosos, contudo, os swingers não estavam mais satisfeitos com os seus relacionamentos no geral em relação aos monogâmicos.

Por fim, entre as pessoas com relacionamentos abertos – aqueles que têm um parceiro principal, mas também têm regras que permitem certos tipos de envolvimento sexual fora desse relacionamento –, as suas vidas sexuais não eram em nada diferentes das dos monogâmicos. Por outras palavras, não havia diferenças na satisfação sexual, na frequência de orgasmos, ou no sexo recente. A única diferença foi que as pessoas em relações abertas estavam menos satisfeitas com os seus relacionamentos de modo geral.

Então, porque é que os poliamorosos e os swingers parecem ter vidas sexuais melhores do que os monogâmicos? Não podemos afirmar com certezas e devemos ser cautelosos sobre as conclusões até que os dados sejam replicados numa amostra realmente quantitativa.

Mas, entretanto, uma possibilidade é a de que ter vários parceiros proporciona um certo nível de excitação ou entusiasmo, que é levado para o relacionamento principal. Isso faz sentido, tendo em consideração um outro estudo que revela que a novidade e a variedade são algumas das chaves para acender a paixão sexual. Por outro lado, talvez as pessoas que praticam a não-monogamia consensual sejam, simplesmente, mais habilidosas sexualmente, ou mais inclinadas a verbalizar as coisas que lhes dão prazer.

Quanto aos motivos na base para os benefícios parecerem não se estender ao relacionamento aberto, um deles parece ser a possibilidade de que os swingers e os poliamorosos tenham uma comunicação sexual mais aberta. De facto, as pessoas em relacionamentos abertos costumam ter uma política do tipo “não perguntes, não respondas”. Por isso, talvez a combinação de vários parceiros e a comunicação aberta seja a chave para compreender estes dados.

Como sempre, mais estudos são necessários, no entanto estes resultados são importantes, porque desafiam o estereótipo disseminado sobre a superioridade da monogamia, assim como também sugerem que nem todas as formas de não-monogamia consensual são igualmente satisfatórias.


Justin Lehmiller é um investigador no Instituto The Kinsey e criador do blog Sex and Psychology. Está prestes a lançar um livro chamado "Tell Me What You Want: The Science of Sexual Desire and How It Can Help You Improve Your Sex Life". Segue-o no Twitter: @JustinLehmiller.

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