Cultura

O filme "Sorry to bother you" é uma obra-prima do afro-punk

A figurinista Deirdra Elizabeth Govan insere história política – e brincos enormes com a palavra MURDER – nos looks de uma futura distopia capitalista.

Por Hannah Ongley
24 Julho 2018, 10:58am

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D USA.

O filme que marca a estreia como realizador do artista Boots Riley, é exactamente o que poderias esperar vindo do rapper que passou anos a abordar questões políticas e sociais enquanto frontman da banda The Coup. Sorry to Bother You passa-se na cidade californiana de Oakland, num futuro não muito distante, em que personagens negros falam com “vozes brancas” e trabalham numa empresa de telemarketing, liderados por um CEO abominável (Armie Hammer) que se veste como Julian Assange sob os efeitos de Ayahuasca.

A figurinista do filme, Deirdra Elizabeth Govan, frequentava a prestigiada escola de moda Pratt e Parsons no começo dos anos 90, quando ouviu pela primeira vez Boots a cuspir letras revolucionárias sobre capitalismo e desigualdade entre classes. Os seus incríveis figurinos para Sorry to Bother You foram muito mais inspirados por aqueles anos de faculdade, do que por qualquer critério já estabelecido do género "ficção científica distópica". Lakeith Stanfield e Tessa Thompson, que interpretam, respectivamente, o recém contratado operador de telemarketing Cassius Green e a sua despreocupada namorada artista, Detroit, são tão punk como são hip-hop.


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Detroit brilha com os seus casacos extravagantes de riscas coloridas, com o cabelo encaracolado igualmente colorido e brincos enormes que carregam as sinistras mensagens: MURDER MURDER MURDER / KILL KILL KILL. Cassius parece mais um "filhinho da mamã" e, neste caso, a sua mãe é obcecada por coletes de malha ao xadrez e gravatas roubadas do guarda-roupa do seu irmão mais novo – eventualmente complementado com uma bandana branca manchada com o seu próprio sangue.

A figurinista entrou em Sorry to Bother You depois de trabalhar com a produtora Nina Yang Bongiovi no filme da Netflix Roxanne Roxanne, sobre a campeã adolescente de batalhas de rap, Roxanne Shanté. “Ela mostrou-me o guião e eu apaixonei-me absurdamente,” conta Govan à i-D. E acrescenta: “Amei o facto de ter pessoas negras e mestiças a fazerem um realismo mágico e a levarem isso a um outro nível”. Falámos com a designer sobre como foi dar vida ao perturbado e surrealista mundo de Boots.

i-D: Porque é que o elemento do realismo mágico foi tão imediatamente atraente para ti?
Deirdra Elizabeth Govan: Os personagens são pessoas que frequentaram a escola de design comigo [em Parsons e Pratt]. As pessoas faziam experiências com os seus próprios estilos individuais, brincavam com as roupas, brincavam com os looks. Algo que eu curti muito ao tratar o design deste filme foi que tinha a possibilidade de aportar ideias e elas não estarem fora do padrão. Estavam em sintonia com os personagens.

Parece que a mãe de Cassius o vestiu – ele não faz parte daquela multidão artística. Tem camisolas velhas, calças cáqui, t-shirts com mangas ¾, divertidas gravatas coloridas que parecem vintage – são vintage na verdade. Detroit, enquanto artista, é a responsável pelo próprio estilo. Ela é muito fiel ao seu espírito como boa artista que é. Os brincos fazem parte do seu look, não poderiam roubar o look. Tens que encontrar um equilíbrio.

Aqueles brincos são completamente desafiantes. Desenhaste-os tu própria?
Os brincos são mencionados no guião. Na cabeça de Boots, estava esta ideia de uma mulher que era artista e tinha estes brincos. Como figurinistas, o nosso trabalho é trazer para a mesa ideias de como podemos transmitir a mensagem. Fomos a vários artesãos para criar as peças. Chamámos um designer gráfico e pedi-lhe que desenhasse alguns brincos, depois levei-os para que fossem fabricados. Tudo sobre os brincos é um casamento entre grandes ideias e a minha capacidade de captar essas ideias, refiná-las e trazer algo muito poderoso que faça sentido para os personagens.

Uma das outras peças memoráveis de Detroit é a t-shirt com os dizeres “The Future is Female Ejaculation”. E já é meio famosa no Instagram.
[Risos] Sim. É de uma loja de Nova Iorque, chamada Otherwild. Eles têm muitas t-shirts bastante gráficas e memoráveis. Mostraram-me algumas e eu achei-as super apropriadas para a personagem. Realmente condiziam com o visual de Detroit e com o que queríamos retratar. E foi isso. Foi apenas uma grande sorte, de certo modo, encontrar algo que fosse tão perfeito e apropriado. Com Tessa foi só festa e amores. Eu e ela somos muito criativas e adoramos fazer experiências com roupas. Ela tem uma óptima noção de estilo.

Tessa já tem um estilo meio selvagem na vida real. Tal como Lakeith. Conta-me sobre como foi criar figurinos para Armie Hammer, geralmente conhecido pelos fatos de treino da Adidas.
Passámos por muitas ideias sobre como queríamos que o Steve Lift se parecesse. Baseámo-nos em pessoas que conhecemos. Superficialmente, ele era Steve Jobs, Julian Assange… Mas, em vez de ser uma grande mente a trabalhar para o bem, criou uma sensibilidade abominável sobre si mesmo. A sua persona era apenas sobre direito e uso de outras culturas. Tem kaftans, saias, e elementos equestres.

Portanto, concluímos que, já que conhecemos estas pessoas, vamos fazer algo diferente. Conversámos sobre um cabelo a la Julian Assange, com os brancos, mas decidimos ir contra uma coisa tão directamente relacionada com Assange. Por isso, fizemos algo diferente, pintámos-lhe a barba e demos-lhe um olho azul e um olho verde. Portanto, toda a evolução do seu estilo foi o facto de ele use apropriar de outras culturas. Foi um processo de muitas fases e algo que Armie não tinha antes. Foi bastante divertido.

Conte-me mais sobre a escola de arte em Brooklin no início dos anos 90. Como é que ela te moldou enquanto designer?
Essa foi umas das coisas emocionantes de trabalhar com Boots. Eu conhecia os The Coup na faculdade, por isso, para mim, foi bastante familiar. Andei na escola com um gajo que se vestia como a Detroit, andei na escola com um gajo que tinha um visual interessante, que experimentava inserir looks do hip-hop em looks punk. Fui capaz de usar essas informações e essas fontes para me inspirar.

Estudei design de moda, sabendo que iria para ao design de figurino, por isso voltei ao design de moda antes de estudar arquitectura e design. Acredito na visão holística de se contar uma história. Narrativas são a minha paixão – amo contar histórias através de roupas, através de espaços. Frequentar a Parsons e Pratt ensinou-me muito a olhar para as coisas de diversas maneiras e a solucionar problemas. Acho que, como designers, temos de solucionar problemas. Design é design, mas ao fim e ao cabo, eu gosto é de criar mundos. Adoro criá-los através de espaços, roupas, formas e todos esses detalhes.

Vi no teu site a peça de arte experimental que criaste sobre prisões em massa. Sorry to Bother You também parece um mundo bastante imersivo.
Acredito que o ambiente tenha ajudado bastante nesse aspecto. Eu podia conversar com o designer de produção – éramos bastante próximos em termos de como queríamos que os nossos toques visuais casassem e funcionassem bem juntos. Era a mesma coisa com o director de fotografia. Foi um verdadeiro relacionamento criativo que nós os três formámos, para termos a certeza de que nenhum dos nossos trabalhos estava fora do eixo. Acho que os meus conhecimentos sobre design de interiores e arquitectura ajudaram no meu entendimento do que necessitava fazer como figurinista por causa da minha educação e da minha profissão.

Em que medida é que o facto de viajares muito influencia o que levas para os filmes que se passam especificamente na América?
Imensamente. Estou feliz que tenhas feito essa pergunta, porque viajar é tudo para mim. Pessoalmente, não acredito que seria capaz de contar as histórias que conto se não tivesse viajado. Acho que já visitei cerca de 27 países e a minha capacidade de observar, a minha capacidade de analisar por outras perspectivas, de ver culturas e então transmití-las como designer, ajudou-me infinitamente.

Fiz uma sociedade no Tibete e acabei por ficar na China e no Tibete durante três meses. Viajar pela região e visitar o palácio do Dalai Lama, ver as pinturas, a tapeçaria e as cores… Viver em França, a ir e vir, durante sete anos também me influenciou bastante, especialmente na forma como vejo a moda. Tento sair do país o máximo que posso – não porque quero sair, mas porque tenho o desejo de explorar e ampliar a minha mente. Torno-me uma designer melhor quando tenho a oportunidade de o fazer.

Já conhecias Oakland antes de trabalhares em Sorry to Bother You?
Tenho alguns familiares em São Francisco, portanto conhecia a história de Oakland e os movimentos políticos de Oakland, as manifestações de Oakland – muitas coisas que tive conhecimento politicamente e historicamente tornaram-me capaz de levar aquela linguagem para o ecrã. Especialmente em termos de movimentos artísticos e gentrificação. Estava a acontecer aqui mesmo em Nova Iorque, em Brooklyn, no Harlem. E em muitas outras cidades dos Estados Unidos.

Aristas e pessoas com dinheiro podem entrar e mudar a dinâmica de uma vizinhança e, consequentemente, afectar a cultura – às vezes positivamente, às vezes negativamente. Oakland é rica na sua história, mas também no que está a acontecer agora, com toda a mudança na estrutura económica de compras e de quem vive em qual bairro. É fascinante, porque podes ir a algumas lojas que são muito diferentes de uma "lojinha de esquina". Aproveitei cada recurso que poderia usar como figurinista, como as lojas vintage e a Haight Street, para que pudesse contar uma história real no ecrã. Só queria ser verdadeira.

“Sorry to Bother You” está nas salas norte-americanas desde 7 de Julho, mas não há previsão de estreia em Portugal.


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