Drogas

Como a Albânia se transformou no primeiro Narco-Estado da Europa

Uma geração de jovens albaneses foi apanhada entre as políticas do crime organizado, o desemprego e o dinheiro rápido do tráfico de drogas.

Por Monty Reed
09 Junho 2019, 11:18pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

É Janeiro e estou num subúrbio decadente de Tirana, capital da Albânia, onde encontrei dois traficantes de cocaína locais que acabaram de chegar de uma viagem de tráfico para a Alemanha. Como muitos gangs de jovens traficantes na Albânia, Artan e Luli passaram da erva para a cocaína, porque dá mais dinheiro e é mais fácil de conseguir. Dizem que fazem cerca de 20 mil euros a contrabandear um quilo de pó para países europeus mais ricos, onde o mercado da cocaína se está a expandir.

Entre as típicas histórias másculas que envolvem soqueiras e tacos de basebol, discutem sobre relógios Rolex, carros velozes e raparigas bonitas. “Como podes ver”, diz Artan, apontando para a rua inundada e que nunca viu obras desde que eles se lembram, “se queres sair ou conseguir alguma coisa por aqui, tens que fazer a jornada paraa Alemanha, Itália ou Inglaterra. Cocaína é um trabalho como qualquer outro”.


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Desde que a crise financeira nos anos 1990 levou a uma destituição generalizada e aos caos civil, as novas gerações de albaneses viram-se presas numa uma rede de pobreza e corrupção. Para alguns, o tráfico de drogas oferece uma rota de fuga dos bairros de lata que se espalham pelos arredores de Tirana. Mas, o tráfico aqui não é novidade; é um comércio que tem raízes profundas na nação. Apesar de ser um país da NATO, prestes a juntar-se à União Europeia, a Albânia transformou-se no primeiro Narco-Estado da Europa.

Segundo a definição do Fundo Monetário Internacional, Narco-Estado é um estado “onde todas as instituições legítimas foram penetradas pelo poder e dinheiro do tráfico de drogas ilegais”. Como a Venezuela, Guiné-Bissau e Afeganistão, a Albânia está enfiada até ao pescoço em dinheiro de drogas.

Em 2018, o Departamento de Estado Americano descreveu a Albânia como lar de “corrupção desenfreada, instituições legais e governamentais fracas e um pouco controlo de fronteiras”, com tráfico de drogas, sonegação de impostos, contrabando e contrabando humano indicados como os crimes mais lucrativos do país. As drogas são aqui um grande negócio.

Este pequeno país montanhoso - antes comunista - na costa do Adriático é o maior produtor de canábis outdoor ilegal da Europa. Em 2017, a polícia na Albânia apreendeu 68 toneladas de erva, com um valor de rua de cerca de 600 milhões de euros. Mas, é a cocaína que está a elevar a Albânia ao estatuto de Narco-Estado. Na última década, como já anteriormente revelado pela VICE, gangs albaneses como o Hellbanianz tornaram-se grandes figuras no lucrativo comércio de cocaína no Reino Unido e no resto da Europa. Grupos que já fizeram o seu nome a vender cocaína altamente pura a preços competitivos e têm vindo a contribuir para o aumento da oferta e pureza da cocaína na Europa desde 2012.

Contrabandistas albaneses estabeleceram redes de fornecimento da América do Sul até aos portos da Europa que mais recebem cocaína na Bélgica e Holanda. Em Fevereiro do ano passado, a polícia apreendeu 613 quilos de cocaína escondidos num carregamento de bananas da Colômbia no porto albanês de Durres. Simultaneamente, houve um aumento de supostos criminosos de origem albanesa mortos na América do Sul. Em 2017, Remzi Azemi, um albanês e suposto traficante de cocaína, foi morto num assassinato ao estilo dos cartéis, enquanto viajava com a família num carro blindado em Guayaqil, Equador. Um ano antes, Ilir Hidr, outro albanês suspeito de envolvimento no tráfico de drogas, foi assassinado na mesma cidade.

A Albânia é um caso único na Europa, porque os seus patrões da droga não são foras-da-lei renegados. Em vez disso, são próximos de pessoas no governo do país e, muitas vezes, estão em conluio com as mesmas autoridades que os deveriam perseguir.

O dinheiro do tráfico é uma parte essencial do sistema democrático albanês, porque a melhor forma de assegurar o voto das pessoas é pagar-lhes em dinheiro vivo e o melhor gerador de dinheiro é o comércio de estupefacientes. Um estudo financiado pela UE, de 2016 a 2019, descobriu que 20,7 por cento dos albaneses já tinham recebido ofertas de dinheiro ou favores em troca de votos. Em Janeiro, foi revelado que gangs ligados à venda de cocaína conseguiram interferir nas eleições comprando votos. Afrim Krasniqi, chefe do Instituto de Estudos Políticos da Albânia, diz mesmo que o papel dos grupos criminosos na campanha das eleições de 2017 foi maior que o papel dos partidos políticos. “Hoje, há uma impressão geral de que ninguém vai ganhar as eleições sem o apoio desses grupos”, realça.

Protestors run from tear gas in Tirana, Albania during February protests calling for the resignation of the prime minister over corruption allegations.
Manifestantes fogem do gás lacrimogónio em Tirana, Albânia, nos protestos de Fevereiro em que pediam a renúncia do primeiro-ministro por acusações de corrupção. Foto: GENT SHKULLAKU/AFP/Getty Images

Como o comércio de drogas está muito emaranhado no poder, unidades da inteligência britânica foram mobilizadas para Tirana para monitorizar os traficantes. Um membro britânico dessas equipas revela à VICE que têm evidências claras de inteligência partilhada que chega directamente aos traficantes pela própria polícia albanesa. Os britânicos estão a trabalhar com equipas dos EUA, Holanda e Itália, que decidiram envolver-se depois de descobrirem que informação que partilhavam com as autoridades albanesas acabava nas mãos erradas.

Os últimos dois ministros do Interior do primeiro-ministro albanês, Edi Rama, envolveram-se em escândalos de ligação com o tráfico. O primeiro, Saimir Tahiri, deve ir a julgamento ainda este ano por acusações de tráfico de drogas e corrupção. O nome de Tahiri foi mencionado numa escuta telefónica da polícia italiana em ligação a subornos, tráfico de canábis e contrabando de espingardas Kalashnikov. Tahiri nega todas as acusações. Foi substituído por Fatmir Xhafaj, cujo curto período como ministro do Interior acabou no ano passado, depois de o seu meio-irmão, Agron, ter sido condenado a sete anos de prisão por tráfico em Itália. Apesar de não haver evidências de que Xhafaj estaria directamente envolvido nos crimes do irmão, a pressão política doméstica e internacional provavelmente levaram Rama a demitir o seu ministro.

Em 2017, Ermal Hoxha apanhou 10 anos de cadeia pelo envolvimento numa operação para traficar 120 quilos de cocaína da América Latina para a Europa Ocidental. Mas, Ermal não foi subiu os degraus do crime a partir de um bairro da lata albanês; ele é neto do notório antigo ditador comunista da Albânia Enver Hoxha, que esteve no poder durante 41 anos, até à sua morte em 1985.


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Mas, nenhum homem ilustra melhor a proximidade da elite albanesa às maiores figuras do tráfico, ou a história de como a nação acabou como o primeiro Narco-Estado da Europa, que Klement Balili, um proprietário de hotéis de luxo, ex-funcionário público e chefe do comércio ilegal de drogas, descrito no seu mandato de prisão grego como o “Pablo Escobar dos Balcãs”. Um dossier de 10 mil páginas compilado pelo governo grego e consultado pela VICE, descreve o seu império transnacional de narcóticos como uma rede meticulosamente organizada, com um valor de mais de mil milhões de euros, construído sobre canábis e cocaína e canalizado para países como Itália, Grécia, Alemanha e Reino Unido.

Balili construiu o seu império no ambiente sem lei da Albânia pós-colapso económico dos anos 1990, causado pela queda de grandes esquemas de pirâmide apoiados pelo governo. entre mil a dois mil milhões de euros desapareceram da noite para o dia e famílias comuns perderam todas as suas economias. Segundo um relatório de 2016 da Open Society Foundation, uma mistura de alto desemprego e salários baixos fez com que os gangs albaneses se expandissem loucamente desde então.

Oficialmente, os negócios de Balili eram transportes, lazer, pesca e segurança. Em 2014, foi indicado como director regional de transportes da cidade costeira de Saranda, um conhecido ponto de tráfico de drogas. Na última década, Balili construiu vários hotéis de luxo na costa do Adriático na Albânia. Em 2015, Ilir Meta, actual presidente albanês, cortou a fita na inauguração do hotel de cinco estrelas de Balili, o Santa Quaranta. Com Meta e Balili na inauguração estavam o então ministro das finanças, Arben Ahmetaj e o parlamentar do Partido Socialista, Koco Kokëdhima.

O próprio Balili é directo sobre os seus laços com um dos principais partidos políticos da Albânia, o Movimento Socialista para Integração, ou LSI. Numa entrevista no começo do ano, Balili explicou que a sua indicação como Director de Transportes na cidade de Saranda surgiu em troca de doações financeiras que ele e a sua família fizeram ao LSI. O sobrinho de Balili é presidente da câmara pelo LSI na cidade de Delvina. Balili já deixou claro que se interessa muito pela campanha do sobrinho.

A polícia grega está atrás de Balili há uma década. Mas, sempre que parecia que as autoridades faziam algum progresso, encontravam um obstáculo nas autoridades albanesas. Em Maio de 2016, a polícia grega prendeu 12 membros do gang de Balili e apreendeu quase 700 quilos de erva, resultado de uma operação de vigilância de dois anos em colaboração com a DEA norte-americana. A polícia grega emitiu um mandato de detenção para Balili, mas a polícia albanesa recusou-se a reconhecer que o tinham recebido. Quando as autoridades finalmente reconheceram o mandato, ele tinha “desaparecido”, segundo a polícia albanesa.

Três meses depois da emissão do mandado de prisão para Balili, ele foi fotografado numa festa no seu iate com um alto oficial da polícia na costa albanesa. Esta não foi uma ocorrência única: na época, o rosto sorridente de Balili aparecia regularmente no fundo de gravações de telemóvel e fotos tiradas em eventos sociais da elite política da Albânia.


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De acordo com oficiais norte-americanos e gregos, a proximidade de Balili com a base do poder político é a chave para o seu sucesso como grande contrabandista de drogas. Num pronunciamento contundente em 2016, o embaixador norte-americano na Albânia, Donald Lu, disse: “Políticos da direita e da esquerda ouvem os interesses poderosos de empresários corruptos, criminosos e até traficantes de drogas. De que outra forma podemos explicar que o intocável traficante Klement Balili continue livre?”. Num discurso de 2018, Lu disse que o maior fracasso do governo albanês durante o seu mandato de quatro anos foi a incapacidade de prender Balili, que descreveu como “um poderoso líder do crime organizado, com fortes conexões políticas”.

Em Janeiro último, a polícia albanesa acabou por, finalmente, prender Balili. Alguns viram a sua prisão e julgamento mais como um exercício de relações-públicas do que como uma punição. O governo albanês vangloriou-se da prisão como um grande feito, para impressionar observadores internacionais. Mas, na realidade, ele ditou os seus próprios termos. O Ministério do Interior e o Gabinete da Promotoria para Crimes Graves foram notificados da chegada de Balili, com antecedência, pela sua equipa legal. Ele entregou-se ao diretor-geral da polícia albanesa. Por causa de uma mudança constitucional do ano passado, não foi extraditado para a Grécia e foi julgado na Albânia.

Em Fevereiro, o Tribunal de Crimes Graves aceitou o pedido de Balili de um “julgamento abreviado”, que não só garantiu que a sua sentença fosse cortada para um terço, mas também que não abrisse a boca sobre o que sabia da elite política albanesa. A 7 de Maio, Balili foi sentenciado a 10 anos por tráfico de drogas, participação em grupo criminoso e lavagem de dinheiro. O seu advogado já disse que vai recorrer Vários albaneses influentes já viram acusações ou condenações por crimes de corrupção desaparecerem misteriosamente durante o recurso. Balili pode acabar absolvido, ou receber uma pena menor.

Vários empresário que trabalharam com Balili em projectos de construção, incluindo o Santa Quaranta, expressaram simpatia por ele. “Não sei o que Klement fez, ou se o que dizem é verdade... mas Klement trouxe dinheiro para a nossa comunidade”, salienta uma pessoa que pediu para permanecer anónima por medo de Balili. E acrescenta: “Ele tinha muitos projectos de construção e trabalhámos com ele muitos anos. O dinheiro foi pago, a comunidade respeitava-o, ele era um empresário, não um Padrinho”.

Mas, outro jovem construtor não concorda. “Ele pagava quando queria e, quando não queria, não havia nada que o fizesse pagar”, assegura à VICE. E adianta: “Ele é dono da polícia, dos tribunais, dos gabinetes de impostos... se ele não tivesse pago uma conta e eu lhe mencionasse isso, não quero sequer pensar no que teria acontecido. Ele conhece e controla tudo e todos. Ter-me-ia esmagado como uma beata de cigarro”.

À primeira vista, Tirana é uma cidade em crescimento, com uma cultura viva e alegre de cafés e uma vida nocturna agitada. Há muito dinheiro a ser usado para embelezar os arredores dos dois hotéis internacionais, onde diplomatas, empresários estrangeiros e políticos se encontram para comer petiscos, usar o Tinder e falar de negócios. Apesar de concentrar a maioria da população albanesa, os pobres habitam os subúrbios poluídos da capital, onde as casas não têm electricidade, água canalizada e janelas de vidro.

A zona central de Tirana, Blokku (“o Bloco”), reservada exclusivamente aoficiais do Partido Comunista até ao colapso do regime em 1992, é agora um playground da elite albanesa. No Blokku, os teus vizinhos são políticos, juízes ou tipos que sabem como vender cocaína. Mercedes-Benz circulam pelas ruas de bares iluminados como tubarões-tigre. Nesses bares, parlamentares bebem champanhe enquanto vêem vídeos do PornHub nos seus iPhones e ouvem Dua Lipa e Notorius B.I.G. Estes novos "figurões" são tagarelas, animados e, muitas vezes, estão a apenas um negócio da falência. Apesar das taxas de homicídio não chegarem nem de perto às registadas na América do Sul e Central, há alguém que pode sacar de uma pistola num aniversário de 25 anos e disparar para o ar, simplesmente porque pode.

A masked Albanian police officer searches a clandestine cocaine refining laboratory in 2015.
Um polícia albanês durante uma rusga a um laboratório de tratamento de cocaína na localidade de Xibrake, perto de Elbasan, 15 de Janeiro de 2015. Foto: AFP/Getty Images

Mas, o sucesso dos gangs de contrabando de drogas albanesas teve um custo para os cidadãos do país, que foram abandonados e deixados a afundar ou tentarem nadar no lamaçal. Numa sondagem de 2018 da Gallup, adultos albaneses expressaram o quarto desejo mais forte de emigrar – só superados pelo Haiti, Libéria e Serra Leoa. Os jovens encaram a corrupção pela primeira vez no liceu, na forma de suborno a professores para conseguirem boas notas. Depois vem a universidade, onde a entrada depende de pagamentos por baixo da mesa ou um amigo num alto cargo disposto a defender os seus interesses no seu partido político.

Rudina Hajdari, líder da oposição no parlamento albanês e Presidente do Comité de Integração Europeia, diz à VICE: “Os jovens albaneses sentem-se enganados pelo governo. Temos problemas sísmicos com corrupção. Quando as drogas entraram na paisagem, havia tanto dinheiro a fluir, que perturbou a cotação de moedas internacionais. O dinheiro dita as decisões no nosso país e, como esse dinheiro é fornecido por cartéis de droga – para políticos individuais e para todos os partidos –, qualquer pessoa que lute contra a corrupção enfrenta grandes obstáculos”.

Os albaneses estão à espera para ver se a UE começa a falar sobre a entrada do país no grupo em Junho, o que significa que deixarão de precisar de vistos para viajar pela União Europeia. França e Holanda olham agora para os gangs albaneses como uma ameaça tão séria que estão a tentar suspender as viagens sem visto para albaneses. O governo holandês baseou o seu pedido de suspensão na possibilidade de existir “um aumento substancial de actividades criminosas, levadas a cabo pela Máfia Albanesa na Holanda e que essas organizações vão abusar da possibilidade de viajar pela Europa sem visto... expandindo ainda mais a sua rede de tráfico”.

O primeiro-ministro Rama, ex-jogador de basquete que consegui o seu mandato em 2013 com uma campanha anti-corrupção de linha-dura, foi aplaudido pela comunidade internacional quando esmagou uma conhecido localidade de cultivo de canábis chamada Lazarat. Ainda assim, tem tido dificuldades para se livrar de acusações de fraude e corrupção, resultando em protestos violentos contra o governo em Tirana, com coquetéis molotov arremessados ao gabinete de Rama semana passada. Os seus detractores dizem que ele deveria renunciar, para que a Albânia se junte à União Europeia. O líder do Partido Democrático da oposição, Lulzim Basha, já disse: “Estamos aqui com uma missão, libertar a Albânia do crime e da corrupção, para tornar a Albânia num país semelhante aos do resto da Europa”.

Aí reside a tensão para a Europa: o conceito de Narco-Estado sempre pareceu muito distante para os europeus, que tendem a considerar os países corruptos que produzem as suas drogas como um problema dos outros. Mas, a posição central da Albânia na indústria de drogas leva-lhes o problema para perto de casa, precisamente no momento em que os albaneses estavam à espera de se ligarem mais ao motor económico da União Europeia. Essa é a coisa mais trágica sobre um Narco-Estado: apoiar a elite da nação com fundos de actividades criminosas, tem o seu maior impacto não em terras distantes, mas nas oportunidades para o seu próprio povo.


Alfredo Affazi colaborou neste artigo com informações recolhidas em Londres e Tirana. Segue o Monty e o Alfredo no Twitter.

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