O Festival Percurso 2017 foi um grande baile black
Foto: Gabriela Mo

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O Festival Percurso 2017 foi um grande baile black

Com shows de Mano Brown, Sandália de Prata e Dugueto Shabazz, evento levou o clima dos bailes blacks das antigas para o Campo Limpo, zona sul de SP, no último domingo (9).

Em meados dos anos 1970 e 1980, na iminência da chegada do hip hop no Brasil, o que agitava as festas negras tanto na periferia quanto na região central de São Paulo eram o funk e o samba-rock. Tendo como trilha sonora artistas como James Brown, Marvin Gaye, Quincy Jones, Michael Jackson, Tim Maia e Tranza Negra, esses bailes blacks foram, além de um espaço de curtição, uma das formas que a juventude negra brasileira encontrou assimilar a cultura black power estadunidense e, ao mesmo tempo, se expressar e fortalecer sua identidade. Foi justamente tentando essa força e orgulho negro celebrados por esses bailes que o Festival Percurso montou o lineup da sua quarta edição, que aconteceu no último domingo (9), na praça do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo.

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Foto: Gabriela Mo

"Os grandes bailes blacks na zona sul de São Paulo nos anos 1970 eram uma grande forma de reafirmação da comunidade negra daquela época", disse Thiago Vinícius, um dos organizadores do evento. "Fazendo uma pesquisa, vimos que era um tema com potencial pra explorar e convidar os jovens da comunidade a participar". Por isso, para headliner da edição 2017 eles trouxeram Mano Brown, como o show do Boogie Naipe, primeiro disco solo do rapper paulistano. "Além de a sonoridade desse último trabalho dele recuperar toda o clima funk e soul dos bailes, o que casa com o tema do [festival] Percurso desse ano, o Brown é da Zona Sul, o que faz com que role uma identificação muito maior do artista com o público."

Mano Brown. Foto: Gabriela Mo

E de fato essa identificação do rapper com o festival foi bem clara durante o show. Com a família na plateia, ao lado do seu parceiro Lino Krizz e a banda que sempre o acompanha nos shows do Boogie Naipe, Brown se referiu várias vezes ao público como os "guerreiros da Sul" e, entre uma música e outra, disse: "Aqui eu tô me sentindo em casa". No mais, ele repetiu os rituais que faz em quase todo show: pediu um whisky e sentou no "bar" pra dar uma fumada ao lado do Seu Jorge, que apareceu para fazer uma participação nas faixas "Dance, Dance, Dance" e "Louis Lane", e, antes de "Flor do Gueto", chamou cinco casais para subirem e dançarem em cima do palco.

Seu Jorge. Foto: Gabriela Mo

Quem abriu o show pro Brown foi o paulistano Dugueto Shabazz, rapper e escritor nascido no Jardim Jaqueline, na zona oeste de São Paulo, mas que frequenta a região da Zona Sul desde pequeno. Além de apresentar seus sons principais, como "Vamos Pra Palmares", Dugueto, que é tido como o primeiro vencedor de Slam no Brasil, ainda promoveu um grande "Fora, Temer", durante seu show. "Cultura é um bagulho que devia ser tipo cesta básica do ser humano. Ter que lutar muito para que espaços culturais como esse aconteçam pelo menos uma vez no ano é errado. Isso aqui devia ter sempre", disse durante a apresentação.

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Foto: Gabriela Mo

O Festival Percurso 2017 ainda contou com show do grupo paulistano de samba-rock Sandália de Prata, que apresentou faixas do seu último trabalho, o disco Maloqueiro e Elegante (2016), além de sucessos que fazem parte do repertório da banda, como "Gildete" e "Sapato de Ouro", do disco Samba Pesado (2009). Na parte da tarde do festival, se apresentaram atrações locais, como o sacerdote do candomblé e músico Mestre Aderbal Ashogun, o grupo Ajayô Samba do Monte, o
Ualdo & Coletivo Samba Rock, além da apresentação do Musical Muzimba, de Akins Kintê. E entre uma atração no palco, os DJs Dandan, Marco (ambos parças de palco do Criolo) e Nyack (que acompanha o Emicida), da festa Discopédia, colocavam desde um 50 Cent até um Rappa pra galera continuar curtindo um som enquanto esperava pelo próximo show.

Baltazar Honório, mestre de cerimônia do Festival Percurso. Foto: Gabriela Mo

Os mestres de cerimônia do evento foram a apresentadora do programa Manos & Minas, da TV Cultura, Roberta Estrela D'Alva, o artista de stand-up "Jobs" Marcos e Baltazar Honório, morador do bairro e organizador de longa data de vários eventos culturais que já rolaram na Praça do Campo Limpo. "Eu apresentava umas festas aqui nessa praça do Campo Limpo desde os anos 90. A gente fazendo tudo sozinho, montando palco, equipamento. Tudo pra gente se divertir e fomentar cultura nossa mesmo", explicou Baltazar. "Mas, naquela época, além do fato do evento ter uma dimensão muito menor, a prefeitura não deixava tocar rap. Eles nunca ajudaram em nada, financeiramente, mas mesmo assim ainda queriam mandar na gente. Então, tocavam mais grupos de axé e samba. Foi só com o tempo, ao longo desses 20 anos, que nós fomos conseguindo montar oficinas de hip hop e, hoje, podemos ver o rap ganhar a proporção e o respeito que ganhou."

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Para Baltazar, que acompanha o festival desde a sua primeira edição, em 2014, o Percurso é muito importante como meio de manter a comunidade resistindo e, principalmente, no controle dos eventos culturais. "Isso aqui não é politicagem. A gente faz as coisas para a gente e pela gente. Então, por isso que é importante ter sempre gente da comunidade, como eu e o Thiago, encabeçando o evento porque a gente conhece quem é daqui e [nós] sabemos das nossas necessidades", explicou o mestre de cerimônia do evento.

Renata Prado, da festa Batekoo SP. Foto: Gabriela Mo

Além dos shows musicais, que começaram na parte da tarde, o festival também contou, na parte da manhã, com atrações culturais como atividades da Casa de Cultura do Campo Limpo, dança de leão e dragão chinês da Associação Taboão da Serra (ATS) e o Maracatu Ouro do Congo do Espaço Cita. E, durante o dia inteiro, várias barraquinhas da Feira de Economia Solidária se espalharam pela praça. "A feira é o carro-chefe do evento. O lema do Percurso é 'Juventude Periférica: gerando renda, trabalho e desenvolvimento local', o que significa que a nossa visão de geração de renda está ligada ao desenvolvimento comunitário", falou Thiago Vinícius. "Muitas vezes, na economia formal, não há espaço suficiente para nós da periferia. A economia feita pela gente mesmo é uma maneira que encontramos de nos sustentar", disse o organizador, que ainda explicou que, neste ano, o evento contou com menos ajuda da prefeitura de São Paulo do que nas edições passadas. "Em 2016, a prefeitura disponibilizou 160 barracas para a feira. Nesse ano, a atual gestão dispôs só 20 barracas pra gente. O SESC, por exemplo, ajudou muito mais financeiramente, com relação os artistas, do que a prefeitura. E 70% dos recursos para montar o Festival inteiro vieram da própria comunidade. É triste assistir a esse puta descaso por parte do governo a esse tipo de iniciativa, mas não podemos desistir de fazer por causa disso."

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Foto: Gabriela Mo

Promovido pela Agência Solano Trindade desde 2014, o Festival Percurso chegou à sua quarta edição, tendo levado, em média, 10 mil pessoas durante as mais de 12 horas de evento. "O Festival está cada vez mais cumprindo o que é um objetivo desde o início: pegar as 'pontes' existentes em São Paulo e usá-las para conectar às pessoas, não para separá-las. Eu vi muita gente do Centro no evento e achei legal", concluiu Thiago. "É importante que a periferia seja esse espaço de reflexão da cidade."

Veja mais fotos do Festival Percurso 2017:

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MC Soffia. Foto: Gabriela Mo

Sharylaine, uma das pioneiras do rap nacional e primeira rapper a montar um grupo só de mulheres, o Rap Girls. Foto: Gabriela Mo