VICEhttps://www.vice.com/ptRSS feed for https://www.vice.comptThu, 18 Oct 2018 11:07:52 +0000<![CDATA[Fotos raras que mostram o quotidiano do Partido Black Panthers nos anos 60 e 70]]>https://www.vice.com/pt/article/3km44b/fotos-raras-que-mostram-o-quotidiano-do-partido-black-panthers-nos-anos-60-e-70Thu, 18 Oct 2018 11:07:52 +0000Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D França.

Era 1967. Stephen Shames tinha apenas 20 anos quando conheceu Bobby Seale, o fundador do Partido Black Panthers nos Estados Unidos, que lhe pediu para documentar as actividades diárias do movimento e o apresentou aos seus membros mais influentes: Huey P. Newton, Angela Davis, Kathleen e Eldridge Cleaver, Fred Hampton e Stokely Carmichael.

Ao longo de sete anos, Shames foi o fotógrafo oficial da organização política. Ao contrário de outros fotógrafos que também documentaram os "Panteras" - como Ruth-Marion Baruch, ou Pirkle Jones - Shames conseguiu mergulhar na intimidade daquela que era considerada pelo director do FBI na época, John Edgar Hoover, “a maior ameaça à segurança interna dos EUA”.

Agora as fotografias de Shames estão em exposição em Lille, França, como parte do evento Power to The People, que decorre na Maison Folie de Moulins, em Paris. A i-D França encontrou-se com ele para discutir resistência, a importância de registos fotográficos e a mãe de 2Pac.

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© Stephen Shames cortesia da Steven Kasher Gallery

i-D: Como é que, numa primeira instância, entraste em contacto com os Black Panthers?

Stephen Shames: Em Abril de 1967, teve lugar uma marcha contra a Guerra do Vietname. Como estudante da UC Berkeley, fui ao evento e conheci Bobby Seale. Ele gostou das fotos que tirei naquele dia, tornámo-nos amigos e, depois, deixou-me passar mais tempo com os "Panteras Negras". Foi como um mentor para mim, por assim dizer. Ele era o líder da organização na época, portanto apresentou-me a toda a gente. Na época, não via a coisa necessariamente desta forma, mas eu era a única pessoa de fora do Partido que tinha permissão para entrar no seu mundo.

Claro que, hoje, qualquer um pode meter as mãos em documentos públicos que apresentam os Black Panthers em contexto de manifestações ou algo assim, mas na altura, ninguém tinha acesso às vidas íntimas dos vários membros da organização. Durante sete anos, passei a maior parte do meu tempo a documentar os "Panteras", a imortalizar o seu quotidiano, como se comportavam com as esposas e filhos quando chegavam a casa.

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© Stephen Shames. Cortesia Steven Kasher Gallery

Sentias que estavas a viver algo histórico, ou querias apenas tirar fotos de pessoas com quem te importavas?

Quero deixar claro que tinha acabado de fazer 20 anos quando descobri o Partido, portanto não tinha um objectivo específico e não era suficientemente inteligente para pensar na minha abordagem de maneira mais intelectual. A ideia era principalmente ser apenas parte do movimento. Não achava que essas fotos seriam um dia expostas em museus...

Pensava em mim como um revolucionário, cujo objectivo era mostrar os Black Panthers a partir de dentro, não simplesmente a documentar as suas lutas, ou a intenção de pegar em armas. Na época, como ainda é o caso hoje, quase toda a comunicação social se focava nesse aspecto e procurava sistematicamente a polémica. Mas, ao contrário dessa comunicação social, eu queria fotografar o que se passava no dia-a-dia, revelar o que acontecia nos bastidores e fornecer um retrato mais completo dos "Panteras". Eles eram, certamente, revolucionários muito comprometidos, mas isso não os tornava menos pessoas reais e viviam a sua vida em família como toda a gente.


Vê o primeiro episódio de "Odiarás o Teu Vizinho"


Qual era o interesse dos "Panteras" em te deixarem fotografar o quotidiano ou as suas reuniões?

Não eram um grupo de protesto, mas um partido político que se tornou consciente de que os EUA eram um mundo onde tudo dependia da comunicação. Entendiam que a imagem era essencial para a sua reputação e para a promoção das suas ideias. Em retrospectiva, percebi que isso iluminava a natureza vanguardista do Partido.

Na época, eles organizavam grandes reuniões para distribuir comida, fornecendo uma grande quantidade de alimentos de qualidade para famílias e crianças. Isso era parte dos seus princípios básicos, eles acreditavam que não podias estudar de estômago vazio... É interessante realçar que, quando o presidente Johnson finalmente implementou o mesmo programa que os "Panteras" já desenvolviam, os alimentos distribuídos pela agência do governo eram de qualidade muito mais baixa e algumas pessoas até comparavam o queijo com cartão branco.

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© Stephen Shames. Cortesia Steven Kasher Gallery

Referiste o retrato prejudicial que os media faziam do Partido Black Panthers. E no que diz respeito ao FBI, que tentou basicamente destruir a organização?

Não quero usar a carta do racismo, mas é óbvio que foi feito de tudo para apresentar uma imagem negativa dos "Panteras", retratando-os como um grupo violento, potencialmente perigoso para o bem-estar da sociedade. Também é óbvio que a imagem de um homem negro armado sempre chocou mais o público que a de um homem branco a fazer a mesma coisa. O mais bizarro é que os Black Panthers só exigiam uma coisa - igualdade. E, para o conseguirem, levantavam-se às 4 da manhã, preparavam o pequeno-almoço para as crianças do bairro, publicavam um jornal e pensavam num plano específico para guiar a sua luta. É preciso lembrar que Bobby Seale fez uma campanha para Mayor de Oakland, ficou em segundo lugar e conseguiu mais de 40 por cento dos votos. Ele era um homem muito inteligente, que sabia como gerir a organização para permitir que o Poder Negro triunfasse.

Desviaste-te um pouco da minha pergunta...

Sim, desculpa [risos]. Os "Panteras", como todas as pessoas e movimentos que tentaram gerar uma mudança social real, sempre criaram ondas de descontentamento e desconfiança. Vê o que aconteceu com Martin Luther King: defendia a paz e, mesmo assim, as pessoas odiavam-no. Hoje, é uma lenda, mas, na época, as pessoas recusavam-se a ouvir os seus discursos. Alguns queriam matá-lo e acabaram por conseguir.

Os "Panteras" tiveram o mesmo destino: figuras de liderança, como Fred Hampton, foram mortas e o FBI criou o COINTELPRO, um programa que visava neutralizar grupos políticos entendidos como ameaças para a segurança nacional. Como sabes, não era incomum "Panteras" serem mortos em confrontos com a polícia e não era sem razão que tinham acomodações separadas para os filhos. Faziam-no para que as crianças também não acabassem vítimas dos muitos ataques às suas casas levados a cabo pelo FBI. Isso também fazia parte de se ser membro do Partido: estar sob ameaça constante das autoridades e dos seus ataques racistas.

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© Stephen Shames. Cortesia Steven Kasher Gallery

No início falaste sobre a tua amizade com Bobby Seale. O que podes dizer sobre Huey P. Newton e Angela Davis, que também conheceste?

Não conheci bem Angela Davis, fotografei-a algumas vezes, mas ela só esteve filiada no Partido durante seis meses. Depois disso, juntou-se ao Partido Comunista Americano. Com Huey, por outro lado, passei um pouco mais de tempo. Era muito talentoso, inteligente e carismático. Provavelmente, havia uma razão para ter assumido o controlo do Partido com Bobby Seale. A força deles era rodearem-se de pessoas muito inteligentes para verem a sua causa vencer: Stokely Carmichael, George Jackson, ou Fred Hampton. Se não tivesse sido morto pelo FBI, acho que estaria até hoje sob os holofotes.

O Partido Black Panthers tinha uma visão muito progressista, ao ponto de dar grandes responsabilidades às mulheres, numa época em que a desigualdade entre os sexos era a norma...

Não posso dizer que as mulheres tinham igualdade, mas isso tem a ver com o contexto social global da época. Por outro lado, é verdade que as mulheres tinham papéis muito importantes no Partido. Como disseste, os "Panteras" foram um dos movimentos mais progressistas dos EUA, particularmente no que diz respeito aos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQ. Não era uma posição fácil de promover na época e, na verdade, ainda hoje não é. Tens que pensar que muita da população negra americana frequenta a igreja e continua muito conservadora. Mas, tornou-se claro que mulheres como Kathleen Cleaver ou Ericka Huggins tinham carisma suficiente para se afirmarem lado a lado com os homens do movimento.

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© Stephen Shames. Cortesia Steven Kasher Gallery

Afeni Shakur também lá estava lá, a mãe de 2pac.

Só me encontrei com ela uma vez. Estávamos em estados diferentes. Mas, ela era uma mulher muito comprometida e muito próxima de um grande amigo meu, Jamal Joseph, também um ex-membro dos "Panteras".

Alguma vez quiseste deixar a câmara de lado e assumir um papel mais directo na luta?

Sabes, o que tentei fazer fora da fotografia sempre teve menos impacto, na minha opinião, que as imagens que captei. Fiz parte da campanha de Bobby Seales para Mayor de Oakland, marchei contra a Guerra do Vietname, fui membro do Berkeley Barb, um jornal alternativo, mas as fotos que fiz são muito mais úteis para a consciencialização. No final, foi o que permaneceu.

Em 2018, temos a impressão que as coisas não mudaram assim tanto para a população afro-americana.

E é verdade. Muitas das questões levantadas na época pelos "Panteras" ainda existem hoje. Bobby Seale pode ter dito que sitcoms negras ajudaram a comunidade negra a ser aceite pelo público generalista, mas o desemprego afro-americano continua duas vezes mais altos que entre as pessoas brancas e uma em cada quatro crianças negras ainda vive abaixo da linha da pobreza. E não é como se a presidência de Donald Trump fosse mudar isso. Os Black Panthers costumavam dizer que não devias ouvir ninguém com mais de 30 anos e acho que Trump é um óptimo exemplo de como eles estavam certos. O que ele tem estabelecido, o que ele diz nos seus discursos, só alimenta o ódio no país.

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© Stephen Shames. Cortesia Steven Kasher Gallery
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© Stephen Shames. Cortesia Steven Kasher Gallery

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<![CDATA[Viagem às origens do MD... no interior de um vulcão]]>https://www.vice.com/pt/article/kzj9nw/viagem-as-origens-do-md-no-interior-de-um-vulcaoThu, 18 Oct 2018 08:53:36 +0000Em 2009, o químico residente da VICE e incondicional antropólogo do mundo das drogas, Hamilton Morris, lançou uma série online, Hamilton's Pharmacopeia, onde explorou as inúmeras formas encontradas por seres humanos de todo o Planeta para apanharem mocas e começou ele próprio a testar esses mesmos métodos. Agora, a lendária série chega à VICELAND e no Canal Odisseia podes acompanhar as investigações sobre a história, a química e o impacto social das substâncias mais extraordinárias do Mundo na comodidade do teu sofá.

Num dos dois episódios de hoje de Hamilton's Pharmacopeia no Canal Odisseia, Hamilton encontra-se no Deserto do Nevada com o famoso químico de LSD, Casey Hardison, e ambos embarcam numa road trip para visitarem Darrel Lemaire, o herói anónimo da história das drogas psicadélicas.

HAMILTON'S PHARMACOPEIA, todas as quintas-feiras, a partir das 23h30. Uma série VICELAND em exclusivo no Canal Odisseia.



E, já sabes, de segunda a sexta-feira, só tens de sintonizar a tua televisão no Odisseia para poderes ver, entre outras, séries como Gaycation, nomeada a dois Emmys e apresentada pela actriz Ellen Page e pelo seu melhor amigo, Ian Daniel, em que ambos empreendem uma viagem pessoal pelas culturas LGBTQ à volta do Mundo, Abandoned, com o lendário skater Rick McCrank, Jungletown, num mergulho a fundo na selva do Panamá para descobrir os desafios de construir uma cidade sustentável no meio do nada, ou Epicly Later'd, em que Patrick O'Dell explora o passado e as aventuras actuais dos maiores nomes do skate de sempre, como Bam Margera, Spike Jonze, Harmony Korine, Chad Muska ou Heath Kirchart.

Como na VICE Portugal não queremos que te falte nada, aqui tens os primeiros episódios de cada uma das séries estreadas até ao momento. Fica atento às próximas novidades.


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<![CDATA[A legalização da canábis no Canadá em fotos]]>https://www.vice.com/pt/article/yw9jgw/a-legalizacao-da-canabis-no-canada-em-fotosThu, 18 Oct 2018 08:13:05 +0000Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma VICE News Canadá.

Ao longo dos últimos anos, o mercado foi-se preparando e no momento em que soaram as doze badaladas do dia 17 de Outubro de 2018, o Canadá estava mais do que pronto para acolher a legalização total da canábis.

O Canadá é agora o maior país do Mundo e legalizar a erva e isso coloca-o debaixo do olhar atento de muitas outras nações cujas políticas relacionadas com drogas estão a ser discutidas.

Aqui podes ficar a saber (em inglês) tudo o que diz respeito à legalização da canábis no Canadá e abaixo podes ver algumas imagens do dia histórico.

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O CEO da Canopy Growth, Bruce Linton (à esquerda) posa com o recibo da primeira venda legal de canábis para uso recreativo no Canadá. A compra foi feita por Nikki Rose e Ian Power, na loja Tweed, em Water Street, St. John's, Terra Nova e Labrador. 17 de Outubro, quarta-feira, 2018. (Paul Day/The Canadian Press)
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Pessoas a fumarem erva nas ruas de Toronto antes do amanhecer, no dia 17 de Outubro de 2018. (Chris Young/The Canadian Press via AP)
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Uma escultura de canábis pendurada no tecto, enquanto uma banda toca na festa de contagem regressiva da Leafly, em Toronto, 16 de Outubro. (Chris Young/The Canadian Press)
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Steve Sandford e Kristen Bowers beijam-se numa cabine fotográfica, durante o evento de celebração da legalização da erva, "Wake and Bake", em Toronto. (Christopher Katsarov/The Canadian Press)
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Um cliente a sair da loja de canábis Nova Scotia Liquor Corporation, em Halifax. Os moradores locais podem comprar erva nas 12 lojas da Nova Scotia Liquor Corporation espalhadas por toda a província e pela internet. (Andrew Vaughan/The Canadian Press)

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<![CDATA[Como meti versões falsas de mim próprio a darem entrevistas para o Mundo ]]>https://www.vice.com/pt/article/598ep5/como-meti-versoes-falsas-de-mim-proprio-a-darem-entrevistas-para-todo-o-mundoWed, 17 Oct 2018 14:36:12 +0000 Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.

Vivemos numa era em que as pessoas se moldam a si próprias online, mostrando ao Mundo uma versão idealizada delas mesmas. Portanto, porque é que não podemos fazer o mesmo na vida real?

Na onda de entrevistas que se seguiu ao documentário em que mostrava como transformou um barraco no restaurante número um de Londres no TripAdvisor e de se ter feito passar por um estilista de topo na Semana da Moda de Paris, o jornalista da VICE, Oobah Butler, decidiu recrutar sósias de si próprio e mandar essas versões falsas da sua pessoa a entrevistas internacionais, de rádio e de televisão, numa tentativa de melhorar a sua marca.

Será que conseguiu?


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<![CDATA[Este escritor prevê uma onda de serial killers em 2035]]>https://www.vice.com/pt/article/wjkakb/este-escritor-preve-uma-onda-de-serial-killers-em-2035Wed, 17 Oct 2018 13:52:12 +0000Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Há pouco menos de 39 anos, num motel barato do estado de Nova Iorque, nos EUA, Peter Vronsky encontrou um homem conhecido como "Times Square Torso Ripper". Foi um encontro rápido, mas mudou a vida de Vronsky. Depois de cruzar caminho com um assassino conhecido por deixar apenas o torso das vítimas para trás, Vronsky dedicou-se a estudar homens como ele.

Nos anos que se seguiram ao encontro, Vronsky, agora um historiador, investigador e professor da Universidade de Toronto, no Canadá, escreveu vários livros sobre o tema, incluindo Serial Killers: The Method and Madness of Monsters. O seu novo trabalho, Sons of Cain, tenta abordar o que cria assassinos em série, o que gera pessoas como eles, que similaridades têm com as pessoas comuns e há quanto tempo estão aqui?


Vê: "De assassino psicótico a pintor"


Vronsky passou vários anos a pesquisar para o livro e pelo menos quatro a escrevê-lo. Na obra, argumenta que, graças às guerras no Médio Oriente e à crise financeira de 2008, em mai sou menos duas décadas enfrentaremos um surto de serial killers. Mais perturbador ainda, o autor também diz que, no mais fundo do nosso ser – na área em que armazenas todas as coisas más –, em cada um de nós existe um potencial assassino em série.

A VICE ligou a Peter Vronsky para falar sobre essa possível onda de assassinatos em série, as ligações entre obesidade e serial killers e sobre os nossos "assassinos interiores".

VICE: Porque é que decidiste passar a vida a investigar serial killers?

Vronsky: Em 1979, trabalhava como assistente de produção e viajava por Nova Iorque a entregar filmes. Acabei por ficar retido durante uma dessas viagens e tive que encontrar um sítio barato para ficar, pelo que fui para um hotel conhecido por ser frequentado por prostitutas. Enquanto tentava fazer o meu check in, um indivíduo no quarto acima do meu assassinou duas mulheres, cortou-lhes as cabeças, pegou fogo aos corpos e fugiu da cena.

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Estava no hall a tentar subir. Fiquei irritado, porque alguém estava a segurar o elevador lá em cima – acho que ele estava a segurar as portas para ter certeza de que o fogo se estava a espalhar. Quando finalmente desceu, olhou para mim com um olhar sinistro. Era Richard Cottingham, o "Times Square Torso Killer" (Cottingham matou “oficialmente” seis pessoas, mas dizia que tinha matado centenas. A alcunha surgiu porque desmembrava os corpos e só deixava os torsos na cena do crime). Ele levava um saco, onde estavam as cabeças. Passou por mim, foi um encontro de 10 segundos. Parecia um tipo normal, só depois descobri quem ele era. Daquele momento em diante, fiquei muito interessado em descobrir de onde vêm estes monstros.

Falas muito sobre a “Era Dourada” dos serial killers. O que é isso exactamente?

Foi o período entre 1970 e 1999, quando surgiu o termo serial killer. Pensa na era em que Ted Bundy, John Wayne Gacy e Jeffrey Dahmer eram famosos na sociedade. Quando isso estava no auge da cultura popular. Estatisticamente, essa foi uma época em que 82 por cento dos assassinos em série americanos do século XX apareceram. Eu e outros, chamamos-lhe ironicamente de "era dourada do assassinato em série".

Po que motivos isso aconteceu tudo nesse período?

Esse é o mistério que eu estava a tentar resolver. Muitas vezes a explicação tem a ver com a forma como a sociedade era quando aqueles homicídios em série ocorreram. Mas, cheguei a uma outra ideia. Serial killers, estatisticamente, matam a sua primeira vítima aos 28 anos, mas, às vezes, as suas fantasias começam a desenvolver-se quando eles têm apenas cinco anos. Geralmente, varia entre os cinco e os 14 anos. Por isso comecei a pensar que, como com Ted Bundy, John Wayne Gacy e todos esses gajos, tens que voltar atrás no tempo, para a época em eles eram crianças.

Então, comecei a ver que essa "Era Dourada" dos serial killers era formada por pessoas que cresceram, principalmente, entre os anos 1940/1950. Tive em conta o momento que estavam a viver, o tipo de cultura em que estavam a ser criados e quem eram os seus pais. Na altura em que estavam a crescer, ocorreram dois grandes eventos – a Grande Depressão, que dizimou uma geração de homens que deviam ser aqueles que ganhavam o pão na família e a Segunda Guerra Mundial, que traumatizou muitos pais e devastou muitas famílias. Pensamos na Segunda Guerra como uma 'guerra boa', mas não foi e ela deixou muitos homens com problemas. Também havia essa mudança cultural, em que revistas celebravam o que as feministas viriam a chamar, com razão, de cultura da violação. Há parecenças desses factores com outros períodos, por exemplo os homicídios em série do final do século XIX – a era de Jack o Estripador e um pouco antes. Há muita coisa semelhante.

E o que achas que vai acontecer no futuro?

Recentemente, parece haver um declínio nos homicídios e, paralelamente, também um declínio dos homicídios em série. Mas depois, pensas na "Guerra ao Terror", onde não só pais lutaram, mas mães também. Também tivemos a crise financeira de 2008, que devastou milhões de famílias nos EUA. As pessoas perderam as suas casas, há uma geração de crianças a crescer em quartos de motel, basicamente. Essa geração de trabalhadores perdeu o seu orgulho e a capacidade de sustentar as suas famílias.

O que me preocupa é que estamos a encarar uma geração de crianças que vão atingir os 28 anos daqui a 20 ou 15 anos e vamos ver um aumento de homicídios em série, juntamente com outros problemas sociais. O processo em que alguém se torna um assassino em série não é automático, mas sabemos que problemas de comportamento em adultos geralmente são resultado de traumas de infância. Sejam serial killers, ladrões ou consumidores de drogas, famílias problemáticas produzem crianças problemáticas e crianças problemáticas tornam-se adultos problemáticos.

Há alguma forma de combater isso?

Bem, essa é uma pergunta utópica, não? Quem me dera que pudéssemos viver numa sociedade que cuida das suas crianças. A forma de impedir o surgimento de serial killers, claro, é reduzir o número de crianças traumatizadas.

Outra ideia do livro é que os humanos são programados para serem assassinos e que desaprendemos esse traço através da nossa criação. Como chegaste a essa ideia?

Isso veio das minhas experiências quando criança, acho eu. Por alguma razão, lembro-me de coisas de quando era muito novo. Lembro-me das outras crianças serem muito selvagens, mordiam, enfiavam o dedo nos olhos dos outros, agarravam-se e arranhavam-se umas às outras. As crianças são meio animalescas, por isso começou a fazer sentido para mim que, como espécie, os homo-sapiens estão aqui há 300 mil anos, mas vivemos a maior parte desse período num estado animal, em que tínhamos de sobreviver a caçar e a colectar.

Tínhamos que sobreviver através das quatro necessidades básicas: fugir, lutar, comer e procriar. Se assim não fosse, a nossa espécie não teria sobrevivido. Aproximadamente há 15 mil anos atrás, começámos a desenvolver a agricultura, a viver em grupos e cidades. Agora, temos que viver uns com os outros, os nossos instintos violentos precisam de ser inibidos. O que acho que acontece com os serial killers é que eles não são socializados corretamente, então esses instintos são subdesenvolvidos ou não são suficientemente inibidos.

Basicamente, o meu argumento é que, quando somos crianças, temos esses instintos animais primitivos de “Quero isto agora” e bons pais, infâncias felizes, estabilidade do nosso ambiente, todas essas coisas afastam-nos desses instintos e ensinam-nos a inibi-los. Os que ficam para trás tornam-se os jogadores violentos da nossa sociedade. Não são necessariamente serial killers, mas são pessoas que usam a violência além do necessário para auto-preservação. Nesse sentido, todos nós somos uma espécie de serial killers desfeitos.

Se pudesses fazer as pessoas retirarem uma aprendizagem do teu livro, o que seria?

Saberem que os serial killers somos nós. Encontrámos o inimigo e somos nós. Eles vêm da nossa sociedade. Eles vêm do nosso mundo. Eles são os nossos vizinhos. Os nossos professores. Os nossos maridos. As nossas mulheres. Eles sempre estiveram connosco parcialmente, porque tivemos que ser uma espécie de serial killer para sobrevivermos enquanto espécie. Comparo assassinatos em série com a obesidade. Obesidade é um artecfato da nossa sobrevivência, porque é a nossa habilidade de armazenar gordura para tempos de escassez de alimento. Agora, no mundo ocidental, a capacidade de armazenar gordura tornou-se algo destrutivo. É isso que é o assassinato em série hoje. Algo que era naturalmente necessário para nós mas que, na nossa sociedade moderna, é destrutivo.

A entrevista foi editada e condensada para maior clareza.


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<![CDATA[Actrizes porno explicam como são os seus orgasmos quando estão a trabalhar]]>https://www.vice.com/pt/article/xw9mjq/actrizes-porno-explicam-como-sao-os-seus-orgasmos-quando-estao-a-trabalharWed, 17 Oct 2018 11:10:27 +0000Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Se nos guiássemos pelos gemidos que ouvimos por parte das mulheres no porno (nos homens os ruídos de prazer parece que não se usam muito), muitas de nós podíamos pensar que, ou estamos a perder alguma coisa que desconhecemos, ou as actrizes estão a exagerar na actuação.

Parece que sem gemido não há prazer, que sem squirt não há um bom orgasmo, que sem refluxo não há um bom broche, entre muitos outros arquétipos machistas que a industria da pornografia nos incutiu - às vezes sem sequer nos apercebermos. Ainda assim, há cada vez mais actrizes que, apesar de terem cedido a tais demandas impostas por determinadas produtoras, estão a tomar o controlo sobre este tipo de condutas e apostam por uma pornografia mais feminista, na qual não só se tenha em conta a imagem da mulher, mas que seja também um porno dirigido às mulheres, mais real e espontâneo.


Vê: "Apolonia Lapiedra, a maior estrela porno espanhola da actualidade"


É óbvio que nós, a maioria dos jovens, recebemos uma educação sexual bastante precária e que nos baseamos no que vemos na pornografia com todas as consequências que isso implica. Por isso é que é tão importante que esta separação exista, que sejamos nós, mulheres, a tomar consciência disso e que expliquemos a outras mulheres que, na realidade, nem tudo é como o que vemos no ecrã, nem o que alguns esperam que seja.

Silvia Rubí, 31 anos

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"As experiências com as quais mais desfrutei no meu trabalho foram aquelas em que me foi permitido explorar um pouco mais sobre a minha própria sexualidade. Como por exemplo, uma vez num festival erótico em Portugal, em estávamos três actrizes aborrecidas e nos metemos no backstage a masturbarmo-nos sem descanso.

Em frente às câmaras, obviamente, os meus orgasmos não são sempre iguais, depende principalmente do tipo de gravação e técnicas de filmagem que se utilizem. No geral, quanto mais técnica é a filmagem, menos desfruto, porque se perde espontaneidade. Por exemplo, nos vídeos de realidade virtual, como são complicados de filmar, não consigo aproveitar da mesma maneira que em cenas em que dão mais liberdade às performers. No porno quanto mais desfrute a mulher, melhor.

Finjo sempre que sei que não vou chegar ao orgasmo; afinal estou a gravar ficção. Mas, fingir na vida real é uma autêntica parvoíce".

Pamela Sánchez, 27 anos

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Fotografia por Veggie Fotos, cortesia Pamela Sánchez

"Sei controlar a ejaculação feminina, o chamado squirt, mas o orgasmo não consigo controlar. Com o meu namorado não costumo fingir se não tiver nenhum orgasmo. Simplesmente, digo-lhe, porque a comunicação é fundamental. Pessoalmente, gosto de me ouvir bem alto, porque desfruto mais do orgasmo.

Nas filmagens é diferente. Antes de gravar preparo-me entre uma hora e meia e três horas antes de começarmos. Bebo muita água, para não me desidratar e não ter dores pélvicas. E, para poder desfrutar do orgasmo de que vai acompanhado o squirt, preciso de estar muito tranquila e relaxada. Há que saber controlar muito bem o esfíncter e relaxar o pavimento pélvico.

Durante algumas filmagens tive orgasmos tão fortes depois de um squirt que tive de parar a gravação, porque estava quase a cair no chão porque as minhas pernas fraquejaram".

Lady Nala, 21 anos

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"Os meus orgasmos no trabalho dependem de se estou a trabalhar para mim (também sou produtora) ou para outros. Quando gravo com e para amigos é muito mais fácil, o sexo é divertido por si e desfruto muito da sessão, mas quando não conheces a equipa com quem vais trabalhar até ao próprio dia ou ao dia anterior às filmagens, é sempre mais complicado. Por sorte, normalmente costumo gostar sempre, mesmo que não haja um climax final. Mas, é imprescindível fingir o orgasmo caso não o tenhas, porque é trabalho.

Aliás, já tive que fingir alguns orgasmos, porque para a mim a situação ou a cena não era nada tesuda. Mas, percebo que o facto de fingir orgasmos no porno possa fazer com que as pessoas achem que o sexo tem que ser uma festa sem parar, quando não é assim. Às vezes acontecem coisas e é preciso parar, mudar de posição, ir fazer xixi ou dar um peido. Mil coisas, que não saem nos filmes, porque não são "bonitas". Gemer, por outro lado, ajuda-me a envolver-me no prazer. Não se trata de fingir, mas sim de aumentar a intensidade do sexo com sons intensos".

No porno feminista, se é que existe, não se procura o orgasmo como tal. Procura-se um prazer mais real, reproduzir o sexo sem preconceitos ou estigmas sociais. Algo que é complicado e quase impossível de conseguir, tendo em conta que a sociedade é machista e estamos em plena desconstrução. No mainstream não é assim".

Ivy de Luna, 23 anos

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"Sei que nem todas as minhas colegas de profissão podem dizer o mesmo e estou consciente do meu privilégio. Posso afirmar que não houve nenhuma cena em que tenha sentido que não estava a gostar, ainda que várias das minhas cenas não cheguem ao orgasmo. Com o trabalho sexual dei-me conta de que sim, pode ser necessário fingir um orgasmo, seja porque o guião dessa cena requer um orgasmo, ou porque o tempo é demasiado curto para lá chegar naturalmente.

Antes de trabalhar em sexo, ninguém me tinha contado que é muito difícil chegar ao orgasmo unicamente com a penetração de um pénis na vagina, por isso pensava que eu é que era estranha. Nesse contexto, a minha decisão de deixar de fingir orgasmos se algum dia voltasse a ir para a cama com um homem, foi uma libertação. O 'orgasmocentrismo' social não pode ser tido como óbvio, estamos a lutar para mudar isso, mas é uma realidade a ter em conta. O problema não é que se exagerem os orgasmos no porno, mas sim a falta de educação sexual que recebemos desde pequenos. Não se pode responsabilizar as trabalhadoras sexuais pelo que é uma responsabilidade colectiva.

Há uma parte performativa e cultural em qualquer relação sexual, seja à frente ou atrás das câmaras. Nós, mulheres cisgénero, por alguma regra não explícita, temos que parecer normativamente atraentes (levantar o peito, que não se vejam as estrias...) e os homens cisgénero devem retratar uma hiper-masculinidade. Quando trabalhava ao balcão de uma loja de roupa também havia uma parte performática, mas ninguém me vinha perguntar "Mas, estás cómoda com o cliente? Foi forçado que lhe tenhas dito que a camisola lhe realçava a cara?".

Anneke Necro, 31 años

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Fotografia por Raúl Bateman

Muitas vezes na pornografia fingem-se orgasmos, ou exageram-se, porque não se pode esquecer que se está a trabalhar e é preciso atingir resultados. Obviamente, que não é igual ao que acontece quando estás a ter uma relação em tua casa com alguém que conheces. Afinal, somos performers e há exigências de guião.

No mainstream trabalha-se de uma forma em que se considera que nós, actrizes, quanto mais exagerarmos os orgasmos melhor. No porno feminista, por exemplo, isto não é assim e procura-se mais que a coisa seja natural. Sei de actrizes que falsificam muitas vezes o squirt com xixi. Bebem dois litros de água e, no momento em que lhes indicam que é o momento de se virem, mijam.

Muitas vezes, na pornografia, representam-se posições que são muito incómodas e nas que dificilmente se pode chegar ao orgasmo. A clássica reverse cowgirl é terrível. Destrói-me as costas e as pernas. Depois tentas em casa e apercebes-te de que é uma autêntica merda. Já me aconteceu, nas minhas relações pessoais, pedirem-me esta posição e a verdade é que não gosto. Mas, no porno usa-se muito, porque fica bem esteticamente.

Tenho consciência de que, mais do que expectativas irrealistas, o que isto gera são umas normas de comportamento, uns papéis nas relações heterossexuais, nos quais se a mulher não monta um grande espetáculo parece que não está a gostar. Neste sentido, criam-se umas relações de poder nas quais já não importa se as mulheres chegam ao orgasmo ou não e isso é um erro, porque temos que exigir o nosso próprio prazer nas relações.


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<![CDATA[A estranha e brutal ligação entre baralhos de cartas e tatuagens de cadeia russas]]>https://www.vice.com/pt/article/a3pyqj/a-estranha-e-brutal-ligacao-entre-baralhos-de-cartas-e-tatuagens-de-cadeia-russasWed, 17 Oct 2018 10:14:37 +0000Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Enquanto pesquisava para o seu papel no filme Eastern Promises, Viggo Mortensen ofereceu ao realizador David Cronenberg um livro em vários volumes: Russian Criminal Tattoos, uma colecção de tatuagens de cadeia. Mortensen estudou as páginas da obra, porque sabia que, ao interpretar um gangster em ascensão no submundo dos imigrantes russos em Londres, as tatuagens do seu personagem contavam a sua história – por que crimes cumpriu pena, que tipo de criminoso era, que lutas venceu ou perdeu. Tattoos de cadeia russas são, afinal, como uma língua secreta.

Numa das cenas mais memoráveis do filme, quando Nikolai participa numa reunião numa sauna, um associado curdo aponta que Semyon, o chefe mais velho da máfia russa, geralmente “recomenda uma sauna para reuniões de negócio, porque podes ver que tatuagens um homem tem”. Quando dois assassinos tentam matar Nikolai, ele enfrenta-os completamente nu e ver todas as imagens na sua pele aumenta o impacto do assassinato fracassado. Mortensen insistiu em ficar nu; ele fez a sua pesquisa sobre as tatuagens.


Vê: "O brutal ritual de tatuagem que tem por base a dor"


Agora, o pessoal por detrás do material de pesquisa de Mortensen lançou um novo livro de fotos: Russian Criminal Tattoos and Playing Cards, por Arkady Bronnikov. Como o título promete, a obra explora a história íntima e sobreposta de tatuagens e baralhos de cartas nas prisões da era soviética. Mas, as fotos também fornecem um vislumbre sobre uma cultura perdida e sobre como era a vida atrás das grades na URSS. Ali, um simples jogo de cartas podia responsabilizar-te pela morte de alguém – ou custar-te um olho.

A VICE encontrou-se com Damon Murray, um dos fundadores da FUEL, a editora que lançou os livros sobre tatuagens, para saber mais sobre a relação entre esses desenhos e os baralhos, como estes eram feitos, o que estava em jogo se fosses um criminoso russo a apostar dentro da cadeia e porque é que essa cultura desapareceu.

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VICE: Como e porque é que esses baralhos de cartas eram feitos?

Damon Murray: Tanto jogar às cartas, como fazer cartas, nas prisões soviéticas e na “zona”, como eram conhecidos os campos de trabalhos forçados, era proibido. Se uma carta (ou pior, um baralho inteiro) fosse descoberto, a pena era severa. Estar envolvido num jogo de cartas era equivalente a desafiar a administração, consumir álcool ou injectar drogas e, geralmente, era punido com seis meses na solitária. No entanto, essas penas não dissuadiam os prisioneiros de apostarem através de jogos de cartas.

As cartas em si tinham de ser feitas secretamente a partir do zero. Esse processo trabalhoso e habilidoso começava com a colagem de duas folhas de papel com cola feita com pão mastigado, passada por linho. Essas folhas coladas eram achatadas com vidro até secarem, depois cortadas com o tamanho certo.

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O passo seguinte era o stencil. Essa era a primeira oportunidade de as marcar, para que pudessem ser “lidas” pelo dono. O dono decidia o tipo de stencil e tinta que queria. Fuligem era geralmente usada como preto e uma mistura de sangue e cola de pão para o vermelho (o sangue era preferido, porque secava e ficava mais escuro que outras tintas de prisão).

A intenção aqui era tornar o mais difícil possível que o oponente entendesse as cartas. Além disso, podia ser acrescentada textura à tinta, para o dono saber o valor das cartas antes de as distribuir. Depois disso, a parte de trás também era marcada com stencil. Quando o baralho estava totalmente seco, as cartas eram espalhadas e os cantos afiados com um pedaço de vidro. Isso dava a cada carta uma nova área para pintar nos cantos, onde mais marcas – quase imperceptíveis – podiam ser feitas a pedido do dono.

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O que é que estava realmente em jogo? O que é que as pessoas apostavam?

Geralmente, as apostas e o método de pagamento eram combinados antes do jogo. Chá ou cigarros podiam ser apostados, mas também dedos, orelhas, olhos, ou até a vida de outro preso – ou a vida do próprio jogador. Criminosos apostavam partes do corpo em jogos de cartas para demonstrarem a sua força de espírito, coragem e crueldade. Quando o recluso perdia a aposta, fosse qual fosse, o item tinha que ser entregue imediatamente. Se se negasse, seria rotulado como um suka (“puta”) e era esfaqueado.

Num caso em particular, um criminoso que apostou e perdeu a mão esquerda num jogo de cartas não conseguia ganhar coragem para cortar a mão e tentou fugir. As autoridades conseguiram capturá-lo e transferiram-no para outro campo, mas o seu destino estava selado. Na sua ausência, tinha sido sentenciado pela skhodka (“uma reunião de ladrões legítimos”). Os criminosos descobriram para onde tinha sido enviado e arranjaram uma forma para que a sentença fosse cumprida lá.

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E o que é que essas tatuagens significavam para os russos presos – fidelidade a um gang, contavam uma história, marcavam eventos da sua vida? Tudo isto?

As tatuagens deste livro basicamente já não existem nesta forma. Quer dizer, elas não carregam o mesmo significado, porque as punições que as tornavam “valiosas” já não são dadas. Na era soviética, o corpo tatuado de um ladrão mostrava o seu status dentro do mundo dos ladrões. As tatuagens de um vor v zakone [“ladrão na lei” ou “ladrão legítimo”] funcionavam da mesma forma que um uniforme coberto de regalias, condecorações e medalhas do seu posto e distinção. No calão dos ladrões, o conjunto tradicional de tatuagens era conhecido como frak s ordenami (“um casaco com decorações”). Essas tatuagens transmitiam informações secretas simbólicas, que à primeira vista podem parecer familiares para toda a gente – uma mulher nua, um demónio, uma vela acesa e assim por diante.

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Essas imagens encarnam o registo de serviços de um ladrão, a sua biografia. Detalhavam as suas conquistas e fracassos, as suas promoções e despromoções. Contavam a “verdade” sobre aquele recluso, se preferires. Eram o seu passaporte e ficha policial, a chave para a sua sobrevivência. Assim que um preso comum entrava na população prisional da zona, percebia imediatamente que os ladrões estavam no comando. Depois, tentava copiar as suas tatuagens e maneirismos para escalar na hierarquia. Por protecção, tinha de se mostrar excepcional, experiente, corajoso e calejado.

A pergunta feita pelos ladrões legítimos para qualquer recém-chegado era: “Você mereceu essas tatuagens?” Se as tatuagens não refletisse o ranque dele, o prisioneiro era obrigado a removê-las com uma faca, lixa, caco de vidro ou um pedaço de tijolo. Aí ele era espancado, estuprado ou morto. No mundo dos ladrões, um homem sem tatuagens não tinha status social.

Nessa densa estrutura simbólica, o que é que as cartas acrescentavam?

Grupos de reclusos pertenciam a diferentes masti (“naipes”) e essas cartas eram símbolos representados nas suas respectivas tatuagens. As cartas mais nobres eram o rei de paus e espadas. Os principais símbolos de um ladrão legítimo eram naipes de paus ou espadas. Em contraste, os naipes vermelhos eram menos nobres. Informadores pertenciam ao naipe “sociável”, representado por ouros, enquanto o símbolo de copas transformava o seu portador numa “mulher” no estabelecimento prisional. Esses dois símbolos eram aplicados à força, tirando todo o status ao portador, levando à violência. Esses naipes serviam para aplicar o poder dos ladrões, funcionando como um aviso para o resto da população carcerária. Se outros reclusos eram associados com os símbolos, o seu próprio status seria “rebaixado”.

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Imagens alegóricas eram usadas dentro da linguagem das tatuagens para passar uma mensagem sobre o portador. Por exemplo, imagens de copulação eram tatuadas no corpo de um ladrão que não conseguiu pagar a sua dívida nas cartas. Essas tatuagens eram uma punição. Enquanto isso, um ladrão que era habilidoso com cartas podia ter os símbolos de paus, espadas, ouros e copas tatuados nos nós dos dedos. Em russo, as primeiras letras de cada naipe significavam a frase Kodga Vyidu Budu Chelovekom (“Serei um homem quando sair”), confirmando a intenção do portador de continuar num caminho criminal.

Como é que Bronnikov, um especialista em crime que pertenceu ao Ministério de Assuntos Internos soviético e é o autor do livro, juntou tantas fotos de tatuagens de cadeia?

Parte do seu trabalho passava por visitar estabelecimentos priisionais nas regiões dos Urais e Sibéria. Foi lá que entrevistou, juntou informações e tirou as fotos dos condenados e das suas tatuagens, juntando um dos arquivos mais abrangentes sobre o fenómeno. Esse material era de uso exclusivo da polícia, para entender a linguagens dessas tatuagens e funcionar como uma ajuda para prender criminosos nas ruas.

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Mas, estas cartas, por outro lado, não são da colecção de Bronnikov, foram adquiridas pela FUEL na última década. Como eram confiscadas e destruídas pelas autoridades das prisões, os baralhos originais são difíceis de conseguir e, muitas vezes, estão incompletos. Os originais geralmente são caracterizados pelo tamanho pequeno, da grossura de um maço de cigarros Prima. Esses maços eram normalmente usados para guardar as cartas, porque eram a camuflagem perfeita.

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A cultura das tatuagens e cartas nas prisões russas mudou depois da queda da União Soviética, ou ainda é algo que acontece por lá?

Para responder a essa questão, temos de voltar à década de 1950, quando o código dos ladrões (o conjunto de regras pelo qual eles viviam) era mais rigoroso. Na época, a punição para usar uma tatuagem que não mereceste era espancamento, violação ou até a morte. No final dos anos 1960, essas retribuições cruéis voltaram-se contra os ladrões legítimos. Havia tantos prisioneiros humilhados (que tiveram o seu estatuto diminuído por violação) que as autoridades os usavam como arma contra os ladrões legítimos, que eram atirados para celas cheias das suas vítimas.

Eventualmente, um conselho de ladrões aprovou a regra “sem punições com o pénis”, que proibia membros do seu grupo de rebaixar (ou seja, violar) prisioneiros por essas coisas. Isso levou a uma queda na tensão e desaparecimento gradual de punições pelo uso de tatuagens. As tatuagens acabaram por passar para as prisões juvenis, onde os reclusos se cobriam com todos os desenhos e inscrições, incluindo tatuagens que eram marca registada dos ladrões. Percebendo que era impossível aplicar as suas leis em jovens que os admiravam, os ladrões desistiram – permitindo uma liberdade no que às tatuagens diz respeito.

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Com a chegada da Perestroika (a “reestruturação” liderada pelo governo soviético de Mikhail Gorbachev), abriram muitos estúdios de tatuagens em toda a Rússia e o número de detidos tatuados cresceu substancialmente. As drogas também tiveram um efeito nas tradições de tatuagens nas prisões, permitindo que reclusos que lidavam com esse comércio lucrativo comprassem qualquer tatuagem que quisessem.

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Os criminosos russos contemporâneos têm muito menos possibilidade de serem tatuados. Onde antes essas marcas serviam como um sinal de que o portador pertencia a uma casta de ladrões e obedecia ao código dos ladrões, hoje elas funcionam como um método de identificação para as forças da lei e um obstáculo no mundo dos negócios, a verdadeira ambição dos criminosos russos modernos. Com tantos estúdios de tatuagem profissional, é cada vez mais raro ver as tatuagens de cadeia originais. As tatuagens dos criminosos russos de hoje, provavelmente, são feitas em estúdios profissionais e carregam um significado pessoal, não de um código que pode ser entendido por outras pessoas.

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<![CDATA[A VICE entrevista: Fernando Haddad]]>https://www.vice.com/pt/article/598aed/a-vice-entrevista-fernando-haddadWed, 17 Oct 2018 08:25:08 +0000Este artigo e vídeo foram originalmente publicados na VICE Brasil. O texto foi parcialmente adaptado ao português europeu.

O candidato à presidência do Brasil, Fernando Haddad (PT), responde às questões sobre aborto, drogas, Venezuela, conservadorismo, Lula, fake news e democracia levantadas pela VICE. Fala também sobre Jair Bolsonaro (PSL), o seu opositor na segunda volta da corrida eleitoral rumo ao mais alto cargo executivo do país.

Vê o vídeo acima ou lê a entrevista abaixo.

VICE: Nestas eleições de 2018 no Brasil, temos visto uma polarização política muito grande. Os candidatos de direita tentaram ou inflamaram ainda mais essa questão do ódio com relação de parte da população ao PT. Tudo isso culminou em violência física e verbal, que vimos com mais intensidade nos últimos dias. Queria perguntar-te de que forma uma provável eleição sua poderia acalmar os ânimos e não deixar esse clima de animosidade maior?

Fernando Haddad: Olha, sinceramente eu acho que vou ter que exercer a minha profissão de professor no seguinte sentido: ter a humildade para aprender coisas, que senão, não tens o que ensinar. Ter a generosidade de dialogar. A minha profissão é fundada no diálogo, na interação humana. E, sobretudo, na interação do diferente. Com quem sabe mais, com quem sabe menos, com quem pensa diferente. E eu penso que, se nós conseguirmos criar um ambiente mais harmonioso e com mais diálogo para procurar saídas colectivamente, vamos sair mais fortes dessa crise do que estávamos quando entrámos. A democracia pode sair mais forte. Se nós passarmos essa prova que é a ameaça de Bolsonaro. Bolsonaro é uma ameaça à democracia. É uma ameaça à harmonia. E eu penso que, se superarmos essa prova que nos foi colocada, podemos sair muito melhor. Mais fortes, mais robustos, com um projecto mais generoso para o país.

"Bolsonaro é uma ameaça à democracia"

Essa escalada de violência assusta-te?

Assusta, porque há gente a ser morta, não é? Há gente a ser agredida. Uma menina teve a suástica entalhada a canivete no próprio corpo. Hoje, uma igreja católica amanheceu "pichada" com a suástica. O Moa da Bahia foi assassinado com 12 facadas. Imagina em que estado de espírito está uma pessoa para atacar, por uma questão de voto, alguém com 12 facadas. Nós tivemos o nosso carro bloqueado em Brasília com gente a gritar contra a Igreja Católica. Diziam que a Igreja Católica é a igreja comunista, igreja gay. Coisas absurdas a acontecer. Eu, pessoalmente, no WhatsApp, sou ofendido, caluniado, todos os dias. Já me tornei promotor de incesto, proprietário de um Ferrari, proprietário de um relógio de 500 mil reais. Coisas destas são ditas com muita naturalidade. Esse não é o caminho da paz.

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O candidato à presidência do Brasil, Fernando Haddad (PT), e a jornalista Débora Lopes, da VICE. Foto: Larissa Zaidan/VICE

A imprensa está a cumprir o seu papel nestas eleições?
Olha, eu vou-te dar a opinião da provedora do leitor da Folha [de S.Paulo] de hoje. Não. A imprensa está a naturalizar as opiniões do meu adversário, que já chamou o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns de "vagabundo e picareta", que já disse que o problema da ditadura foi que ela torturou mas não matou, de dizer que uma colega não merecia ser violada por ele, de dizer que o filho não casaria jamais com uma afro-descendente, porque foi educado e não vive num meio promíscuo. É dessa pessoa que estamos a falar. Agora querem expô-lo como se fosse uma pessoa como outra qualquer e não é uma pessoa como outra qualquer. E já deixou isso claro. Ele próprio. Quer dizer, se ele não se escondeu durante esses 28 anos em que não fez nada a não ser agredir, porque é que a imprensa está a esconder?

O povo brasileiro votar em Bolsonaro faz das pessoas um reflexo dessa postura de ódio?

Eu não acredito que seja. Acho que há um núcleo duro, no máximo de 20 por cento. E tudo o resto resolvemos com informação. Portanto, o nosso desafio nos próximos dias é informar, informar e informar. Combater fake news, combater mentiras. O nosso propósito é esse. É passar as duas próximas semanas a dialogar permanentemente com a sociedade.

"A imprensa está a naturalizar as opiniões do meu adversário"

Sobre essa questão das fake news, um texto que circulou muito no WhatsApp - que foi uma ferramenta interessante nessas eleições e sobretudo entre anti-petistas - era que se fosses eleito, o presidente Lula iria ser libertado. Queria perguntar: vais dar indulto a Lula? Existe alguma possibilidade?

Na minha opinião, quem deve soltar o presidente Lula é a justiça, através do recurso que ele apresentou. É um direito dele recorrer e ter a sentença revista. A sentença que o condenou, revista. E não sou eu que estou a dizer. Centenas de juristas, inclusive do exterior, que se debruçaram sobre o processo, concluíram absoluta falta de provas para condenar. Qualquer cidadão. Não é um presidente da república. Qualquer cidadão. Portanto, acredito que nas instâncias superiores, a sentença deva ser revista, por absoluta falta de provas.

"Não conheço ninguém que saiba cuidar mais das pessoas do que Lula"

E se Lula estiver solto, poderá ter algum papel no seu governo?

Olha, o Lula vai ter uma participação na vida nacional. Está a ter hoje uma participação na vida nacional. Eu repito sempre: o presidente Lula, na minha opinião, foi o melhor presidente da República. Deixou o maior legado de contribuição, aquilo que era o maior problema nacional, que era a desigualdade. Combateu como ninguém a desigualdade, oferecendo oportunidades às pessoas. Esse legado não vai ser apagado. E eu mantenho um bom diálogo com toda a gente, mas não conheço ninguém que saiba cuidar mais das pessoas do que Lula. Ele tem cuidado com as pessoas. É muito importante lembrar essa sua característica principal. Ele gosta de cuidar de gente.

Haddad, nessas eleições vimos também uma surpreendente ascensão da extrema-direita. O PSL, partido de Jair Bolsonaro, foi o segundo partido com mais cadeiras na Câmara, depois do PT. Vemos também a permanência de bancadas que actuam pelos próprios interesses, como a bancada da bala, do boi e da bíblia. A minha pergunta é: é possível governar por entre esse caos ideológico?

Olha, é. Vai ser necessária muita habilidade para isso e muito diálogo. Não há outra forma de compor. Mas, serão maiorias por projecto. Não vão ser maiorias estáveis. Portanto, nós vamos ter que fazer a reforma tributária? Vamos ter que fazer. Nós vamos conseguir os votos necessários com base na qualidade do projecto. Não vai ser automático o apoio das bancadas a qualquer governo, na minha opinião.

Antes e durante essas eleições, vimos representantes do MBL e apoiantes de Bolsonaro reclamarem sobre a doutrinação de esquerda nas escolas. Eles defendem o [movimento] Escola sem Partido, que, entre outras coisas, faz uma patrulha para seleccionar livros que não "andem de mãos dadas" com o marxismo, socialismo e comunismo. Enquanto professor, como vês isso?

Olha, uma completa ignorância do que acontece nas escolas. As editoras que fornecem os livros didácticos às escolas públicas são as mais respeitáveis do país. E são rigorosamente as mesmas que fornecem os livros às escolas particulares. Rigorosamente as mesmas. Não vou aqui fazer publicidade, mas qualquer pessoa pode consultar. Além disso, a escolha não é do Ministério da Educação. O Ministério da Educação elabora um catálogo e a escolha é do corpo docente da escola. Portanto, o Ministério da Educação não censura a escolha dos professores. Terceiro: ignora a qualidade do nosso corpo de docentes.

As nossas professoras são muito responsáveis. Sabes que mais de 80 por cento da classe é composta por mulheres? E são muito responsáveis e zelosas pelo que acontece na sala de aula. Sobretudo no que diz respeito a valores. Valor da democracia, da liberdade, respeito à diferença, respeito à liberdade religiosa. Tudo isso é muito cultivado na escola. Portanto, é uma ignorância em relação aos professores do Brasil. É uma ignorância em relação à qualidade das editoras que fornecem também as escolas particulares. É uma ignorância em relação ao processo de fazer chegar ao nível didáctico com a escola. E quando há uma falha, a própria comunidade... Porque os pais acompanham a educação dos filhos, então, quando acontece uma falha, o pai ou a professora ou a directora faz o alerta. E, depois, as coisas recompõem-se. E isso é muito raro acontecer. Mas, acontece. E quando acontece, existe o que chamamos de controlo social, não é o controlo estatal. É a própria comunidade escolar a proteger as crianças naturalmente. Que é o papel do pai acompanhar a educação dos filhos e a professora está lá na sala de aula e sabe o que está a acontecer. É quase desrespeitoso em relação a essa bela profissão que é a de professora desse país.

"O modelo de governo da Venezuela não pode servir de exemplo para o Brasil"

Ainda nessa onda do que os apoiantes e eleitores de Bolsonaro usam para te atacar, está a questão da Venezuela. Dizem que, tanto Lula, como Haddad e Dilma querem transformar o Brasil na Venezuela, "Cubazuela", são vários nomes. Esse boato também cresceu à medida que as pessoas sentiam falta de um posicionamento teu sobre Nicolás Maduro. Recentemente estive na Venezuela a acompanhar a questão dos refugiados em Boa Vista e vemos que a situação ali está lamentável. As pessoas estão a morrer à fome. Queria perguntar, até para deixar isto mais claro: qual é a tua opinião sobre o que está a acontecer lá e também sobre o governo de Maduro?

O que está a acontecer na Venezuela é grave. A crise econémica é medonha. O desentendimento das forças políticas atingiu um patamar inusitado, de maneira que o modelo de governo da Venezuela não pode servir de exemplo para o Brasil. Outra coisa é querer declarar guerra à Venezuela. Outra coisa é querer colocar uma base militar norte-americana aqui no Brasil, cujo único objectivo é explorar o petróleo e não zelar pelo bem estar da região. Nós não podemos transformar a América do Sul num Médio Oriente por causa do petróleo. Portanto, temos que ter muito cuidado com isso. Desde o período Fernando Henrique [Cardoso] que a Venezuela vive em instabilidade. E qual foi o papel da chancelaria brasileira? Da diplomacia brasileira? Criar um colchão de protecção da democracia venezuelana, criando condições para que eles saiam da crise institucional. E isso vem desde o tempo de Fernando Henrique Cardoso. Então, a nossa postura? A crise existe, ela é grave. Ela coloca em risco as instituições. Não há entendimento. O papel do Brasil como líder da região é mobilizar ONU, OEA, os vizinhos todos da Venezuela para criar as condições de superação e não ameaçar a Venezuela. Inclusive com uma base militar norte-americana em território brasileiro. Coisa que nunca aconteceu e não precisa de acontecer.

Aproveitando essa questão norte-americana, Trump disse recentemente que a relação comercial do Brasil com os Estados Unidos é um pouco injusta. Queria saber se te sentarias com Trump para conversar sobre acordos comerciais e qual a prioridade do Brasil numa relação Brasil x Estados Unidos?

Olha, na verdade nós temos que ter… O Brasil é demasiado grande para adoptar uma política externa. Na verdade, é um guarda-chuva de relações que nós temos que cultivar para melhor. Então, para o Brasil é muito importante o Mercosul. Para o Brasil é muito importante a América do Sul. Os BRICS são muito importantes para o Brasil. A relação com a União Europeia está em risco. Várias lideranças europeias já disseram: "Se Bolsonaro for eleito, esquece o acordo Mercosul e a Europeu. Vamos adiar". Em função dos riscos que ele representa para o continente. E a relação com os norte-americanos também é boa. Sempre foi boa.

A China cresceu na parceria comercial com o Brasil? Cresceu. Mas, por características da industrialização chinesa e da necessidade que eles têm dos produtos produzidos aqui. Sobretudo, alimentares. Eles alimentam 1,4 mil milhões de pessoas. Portanto, precisam do Brasil, que tem o melhor contexto para produção de alimentos no Mundo. Então, tudo isto tem que ser muito pensado. Agora, nós não podemos entrar na onda de quem não quer o bem do continente. Nós aqui não precisamos. Estamos há 140 anos sem guerra. Tudo o que a gente não precisa é de uma confusão com um vizinho. Lembrando que o Mundo olha para cá com simpatia e tal, mas o petróleo que foi descoberto no Brasil e as reservas, que são as maiores do mundo na Venezuela, vão fazer com que a cobiça venha também para cá. A cobiça do Mundo em relação às nossas riquezas. Por isso, é altura de termos clareza sobre o nosso tamanho e não importar conflitos que não são nossos. E ajudar conflitos que são nossos e precisam da liderança do Brasil para serem equacionados.

Vou agora abordar dois assuntos que são muito importantes para o nosso público, que é o pessoal mais jovem. O primeiro é o aborto. A Dilma era favorável ao aborto, mas não conseguiu levar esse tema com sucesso. Queria saber como um eventual governo teu abordaria essa questão.

Olha, eu vou responder muito sinceramente. Acho que é muito difícil o executivo, o Poder Executivo, ter protagonismo nesse debate. Muito difícil do ponto de vista institucional. Nós temos que compreender que é um tema muito complexo, que divide opiniões, que lida com paixões e valores que nós temos que compreender. E esse debate tem que acontecer com a sociedade, com o Congresso Nacional, com o Supremo Tribunal Federal, uma vez que envolve direitos individuais. É um contexto muito mais amplo que um presidente achar que vai resolver uma questão como essa, tão complexa. Não vai acontecer. O que cabe ao Executivo? Nós temos que zelar para que essa questão, enquanto está a ser discutida, seja tratada como questão de saúde pública. Porque as pessoas morrem. Morrem. E temos de ter uma política, educar as nossas jovens e os nossos jovens em relação ao seu próprio corpo, falar das consequências da gravidez precoce, falar das consequências das doenças sexualmente transmissíveis, educar as pessoas para que elas efectivamente consigam planear as suas próprias vidas, não é. Planear uma gravidez no momento certo da vida, quando a pessoa achar adequado. Portanto, a política pública tem que ser toda voltada do Executivo para a saúde e educação.

E está a faltar isso. Está a faltar educação, esclarecimento, educação. Os nossos jovens não estão a ser expostos ao conhecimento científico que os ajude a compreender como lidar com o próprio corpo. O mesmo vale em relação às drogas lícitas e ilícitas. Às vezes falamos só das ilícitas, mas o efeito do álcool sobre o organismo, o sedentarismo, o consumo de alimentos pouco saudáveis. Nós temos que lidar mais com isso. Tornar isso parte do dia-a-dia do currículo escolar. Com mais educação. E cuidar de quem se tornou consumidor de droga, de quem às vezes praticou o aborto e está à beira da morte por falta de assistência. Temos que ter uma outra visão um pouco mais generosa, mais abrangente. E o debate vai acontecer na sociedade, já acontece.

É que parece cada vez mais difícil. Temos o que eles chamam de "kit gay", de ideologia de género. Com o Congresso a ficar ou a permanecer conservador, é difícil conseguirmos avançar nessas agendas.

Sim, mas são eleitos pelo povo… essas pessoas. Vais… Não há outra fórmula. É aprofundar o debate. É fazer a ciência chegar à escola, aprimorar os nossos mecanismos de comunicação, é cultivar valores. Isso é um processo. Não é uma eleição presidencial que vai… Até porque quatro anos depois, vai estar lá outro presidente. Ou oito anos depois. Portanto, não pode ser dessa forma. Tem que ser uma coisa muito mais robusta do ponto de vista institucional, para que as decisões sejam tomadas com maturidade. O envolvimento social tem que ser muito maior. Isso começa educando. Educando as pessoas e cuidando daquilo que saiu dos eixos. Há alguém com a saúde prejudicada, com risco de vida, nós temos que acolher essa pessoa no sistema de saúde.

Ia também abordar as questões das drogas. O teu plano de governo menciona experiências internacionais. Imagino, por exemplo, que podemos pensar no Uruguai em relação à canábis. Qual que é a possibilidade de um provável governo teu também abordar esse tema, de regulamentar, de descriminalizar?

Já existe a lei de 2006 que está a ser julgada agora nas cortes superiores, que eu penso que vai ser um avanço em relação a isso. Sempre fiz uma grande distinção entre o grande traficante, aquele que efectivamente está a enriquecer e que raramente mora na comunidade, em geral mora em apartamentos de luxo muito bem localizados e o consumidor, que muitas vezes é vítima de um processo de aliciamento. Sabemos como essas coisas acontecem. Portanto, temos que saber diferenciar e a lei de 2006 era uma hipótese, infelizmente foi mal usada e, agora, a jurisprudência, que é a interpretação da lei, vai ser consolidada. Acho que temos aí uma oportunidade de avançar.

Um dos argumentos do discurso anti-petista é essa questão do controlo social dos media. Eu li o teu plano de governo, mas queria que me explicasses um pouco. As pessoas ficam meio apreensivas. O que é, afinal, esse plano de controlo... "Novo marco regulatório da comunicação social electrónica"?

É, basicamente, o que acontece em França, Inglaterra e Estados Unidos. Esses países são o berço da democracia ocidental e têm determinadas leis que impedem concentração de propriedade. Por exemplo, praticamente todos os estados brasileiros têm uma família que detém a TV, a rádio e o jornal de maior circulação daquela região. Isso, num mundo desenvolvido, é proibido. Porquê? Para que as pessoas sejam expostas a uma pluralidade de informações maior.

Uma família não pode deter tudo de um determinado estado. E sabemos que no Brasil é assim. Todo o estado tem uma família que detém tudo. Em geral associada ao poder político. Esse tipo de coisas não é saudável para a democracia e, por isso, é que é proibido nos países de tradição liberal. Portanto, basicamente, é disso que estamos a falar. Há uma outra coisa importante. Esses grupos de comunicação no Brasil entraram com uma acção judicial no Supremo para retirar do ar os sites em língua portuguesa mantidos por agências internacionais. Por exemplo, não sei se é o caso da VICE. Certamente é.

Certamente.

Mas, o El País, vocês próprios, a BBC Brasil, a Deutsche Welle Brasil, todos esses sites, na visão dessas famílias, deveriam ser proscritos, proibidos no Brasil. E nós entendemos que tem que existir uma lei que diga que não, que esses sites são bem-vindos, são em língua portuguesa, são sites noticiosos de excelente qualidade. Aliás, uma qualidade superior aos nossos jornais, no meu entendimento. E deveriam ser mantidos. Não poderiam ser proibidos. Portanto, são leis como essa, que garantem mais pluralismo, que nós estamos a defender. Sobretudo essa acção junto do Supremo preocupa-me muito, porque o Brasil seria talvez o único país do mundo a proibir um El País, uma VICE, uma BBC de publicar em língua portuguesa notícias sobre o Brasil. Seria, na minha opinião, um escândalo internacional. E, talvez, o Brasil fosse visto aos olhos da comunidade internacional como um país que, definitivamente, abraçou uma espécie de ditadura simulada de comunicação.

"Não à ditadura. Não à tortura. Não à cultura da violação. Não à promoção da violência."

Bem, o nosso tempo é curto e, para fechar, queria fazer uma pergunta mais rápida, que é: qual é o futuro que vislumbras para o Brasil com Haddad presidente, ou com Bolsonaro presidente?

Com Bolsonaro não vislumbro futuro. Nenhum. E, comigo, tenho dito uma coisa que o meu pai aprendeu do meu avô. Que uma pessoa tem que acordar e saber para onde ir. Querendo dizer o seguinte: se acordas e não tens um emprego, não tens uma matrícula na universidade, escola técnica, não levas o teu filho para a creche... Acordas e não tens para onde ir, o país está com problemas. Não é só aquele indivíduo que está com problemas. E, hoje, muitos brasileiros acordam e não têm um destino. Então, para mim, trabalho e educação são duas coisas que deveriam nortear qualquer governo. Garantir oportunidade de trabalho e de educação para todos.

Foi isso que eu fiz como prefeito, como ministro, foi isso que procurei fazer, ampliar as possibilidades porque… Outra coisa que aprendi com os meus pais. Deus deu talento a toda a gente. Mas, cabe-nos a nós criar as oportunidades para que esse talento apareça. Se sufocarmos as pessoas, o talento não vai florescer. Todo a gente tem um talento. Vamos descobrir o talento de cada um, porque depois todos vão poder desenvolver-se. Se nós nos apegarmos a isso, que todos têm que ter uma oportunidade de trabalho e uma oportunidade de educação, acho que não há crise possível para este país. E outra é abraçar com força a liberdade e a democracia. Não à ditadura. Não à tortura. Não à cultura da violação. Não à promoção da violência. Por isso é que eu acho que o meu adversário não tem futuro nenhum. Porque ele só promove os piores valores para uma sociedade que se pretende desenvolvida.


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<![CDATA[Quem são as pessoas da comunidade LGBTQ eleitas no Brasil]]>https://www.vice.com/pt/article/wj97zy/quem-sao-as-pessoas-da-comunidade-lgbtq-eleitas-no-brasilTue, 16 Oct 2018 16:00:27 +0000 Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Depois da primeira volta das eleições 2018, paira sobre a nação brasileira uma névoa de incerteza sobre quem vai comandar o país até à decisão da segunda volta entre os candidatos à presidência Fernando Haddad (PT-SP) e Jair Bolsonaro (PSL-RJ). Ainda assim, há aquela dúvida gigantesca da perplexidade dos futuros parlamentares no Legislativo, uma vez que o Congresso Nacional se está a tornar cada vez mais conservador, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP).

Ao contrário desse cenário aparentemente de retrocesso, o Brasil conquistou pequenos avanços no que toca a diversidade. Por exemplo, este ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou a mudança para o nome social de pessoas T no título de eleitor, exactamente no mesmo ano em que mais candidatos LGBTQ concorreram às eleições. Um aumento de quase 386 por cento comparado com as últimas eleições estaduais e federais de 2016, como informa a ONG Aliança Nacional LGBTI+.

O único alívio que se pode dar ao eleitor brasileiro agora é saber que ainda há quem lute pela diversidade e minorias nas casas legislativas. Vê abaixo quem são as pessoas da comunidade LGBTQ que irão representar a comunidade nas Câmaras estatais, Federal e Senado nos próximos quatro anos.

Deputados Estatais

Erica Malunguinho (PSOL-SP) - criadora do centro cultural Aparelha Luiza, que celebra a cultura afro-brasileira da cidade de São Paulo, Erica irá estrear-se como deputada trans na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP). Natural de Pernambuco, irá representar as pessoas LGBTQ negras, principalmente a comunidade Trans.

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Erika Hilton. Foto via Instagram

Erika Hilton (PSOL-SP) - a deputada trans natural de Itu, em São Paulo, foi eleita pela primeira vez na assembleia paulista e fará parte da Bancada Ativista, composta por políticos ligados às agendas de diversidade, feminismo e movimento negro.

Fábio Felix (PSOL-DF) - o assistente social é o primeiro LGBTQ representante de Brasília a ser eleito como deputado no Distrito Federal.

Isa Penna (PSOL-SP) - ex-vereadora de São Paulo, Isa é bissexual e feminista e vai representar as mulheres e a comunidade LGBTQ na ALESP.

Leci Brandão (PSOL-SP) - reeleita para um terceiro mandato, a cantora carioca Leci Brandão actua na ALESP com temas ligadao à Lei Maria da Penha, população periférica, negra e LGBTQ.

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Robeyoncé. Foto via Instagram

Robeyoncé Lima (PSOL-PE) - primeira advogada trans, das regiões Norte e Nordeste, a usar o nome social na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a actuar no STF, Robeyoncé foi eleita deputada no estado de Pernambuco.

Deputados Federais

Jean Wyllis (PSOL-SP) - representante da comunidade LGBTQ na Câmara Federal desde 2011, o jornalista e professor universitário natural da Bahia irá para o seu terceiro mandato em representação do Rio de Janeiro.

Talíria Petrone (PSOL-RJ) - ex-vereadora de Niterói, a professora de História Talíria é lésbica e foi eleita pelo Rio de Janeiro para representar oa comunidade LGBTQ na Câmara Federal.

Senadores

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Fabiano Contarato. Foto via Instagram

Fabiano Contarato (REDE-ES) - representante do estado do Espírito Santo, o professor universitário de Direito já foi delegado e Corregedor Geral do estado capixaba. Fabiano é o primeiro LGBTQ a assumir um cargo de senador no Congresso Nacional.


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<![CDATA[Um dos estagiários de "Jungletown" revela o melhor e o pior de Kalu Yala]]>https://www.vice.com/pt/article/ez3d9m/um-dos-estagiarios-de-jungletown-revela-o-melhor-e-o-pior-de-kalu-yalaTue, 16 Oct 2018 15:00:12 +0000 Nesta série VICELAND, transmitida em exclusivo no Canal Odisseia, acompanhamos a jornada de um empreendedor norte-americano, Jimmy Stice, na tentativa de construir uma cidade sustentável no coração da selva do Panamá.

O projecto atraiu dezenas de jovens, que o seguiram até esta localização remota, ansiosos para ajudarem a tornar o sonho em realidade. Mas, quando as coisas começam a ficar mais complicadas em Kalu Yala, os voluntários questionam se não terão cometido um erro. Abaixo podes ler uma entrevista a um dos estagiários do projecto, Jake Fee, originalmente publicada na VICE USA.

JUNGLETOWN, vai para o ar todas as terças-feiras, às 23h30, em exclusivo no Canal Odisseia. E, como na VICE Portugal não queremos que te falte nada, aqui tens os primeiros episódios de cada uma das séries estreadas até ao momento. Fica atento às próximas novidades.


Na aldeia sustentável panamiana de Kalu Yala, há coisas boas, coisas más e quase nada no intermédio. No episódio desta semana de Jungletown, série VICELAND que documenta o processo de criação de Kalu Yala como comunidade, os estagiários organizam uma mini revolta que traz à superfície variadas dúvidas e exige respostas a questões como "Somos pioneiros ou colonizadores?" e "Para onde é que o nosso dinheiro está a ir?". Enquanto um membro do staff tenta acalmar as preocupações dos estagiários, a tensão subjacente em Kalu Yala é inegável e muitos decidem abandonar o projecto - alguns, todavia, apesar das ameaças, acabam por ficar, incluindo Jake Fee, o estagiário da área de Design Thinking.

"É muito entusiasmante estar no sitio errado na hora certa", diz à VICE numa conversa por telefone, a partir da sua cidade natal, Mankato, no Minnesota. No momento desta entrevista, Fee estava a terminar o curso de Estudos Organizacionais Aplicados, na Minnesota State University, que acabou por utilizar mais ou menos como uma oportunidade para viajar pelo Mundo. "Foi tipo um movimento de yoga que fiz," explica. E acrescenta: "Mas, estou a gostar de estar em casa, com a missão de manter em segredo todas as loucuras que fiz na selva".


Vê o primeiro episódio de "Jungletown"


Abaixo, Fee conta-nos mais sobre os seus dias em Kalu Yala e o que pensa sobre o projecto agora que está de volta a casa.

VICE: O que é que te inspirou a ires para Kalu Yala?

Jake Fee: Fiz cada semestre da faculdade num país diferente - ando a juntar vários programas de intercâmbio até me licenciar [risos]. Quando andava a remoer o que devia fazer num dos semestres, apareceu-me no Facebook um anúncio de Kalu Yala e pensei "Uau, parece fixe. Mas, é muito caro". Contei aos meus pais e eles ofereceram-se para me ajudar a pagar a mensalidade, o que foi óptimo.

Kalu Yala atraiu-me em vários aspectos - mas, obviamente, a história de Kalu Yala é a história do excesso de marketing e uma concretização estranha dessas promessas, por isso fizeram um bom trabalho em aliciar-me. Não teria feito outra coisa nesse semestre e, se tivesse que repetir, faria tudo exactamente igual. No entanto, é interessante pensar na forma como me aliciaram e aquilo com que depois me deparei. O marketing era sobre um sitio que ainda não existia, mas que eu estaria a ajudar a criar.

O que achas da diversidade em Kalu Yala?

Acho engraçado ler comentários no YouTube, porque consigo imaginar as pessoas a dizerem "isto é 'privilégio branco' no seu melhor" - mas, não há ninguém mais ciente disso do que os hippies que lá apareceram. Foi decepcionante, ainda assim, que não tivéssemos trabalhado mais com os locais - pelo menos para mim. Pensa nos alunos - são uma catrefada de caras brancas, com situações financeiras parecidas e um nível de educação parecido. Talvez seja o grupo mais qualificado para ali estar, mas diversidade de qualquer tipo contribui para a eficiência de uma situação.

Antes de ir, um dos meus pais perguntou-me "Vais ter que aperfeiçoar o teu espanhol?" e eu respondi "Meu Deus, claro que sim - vou, provavelmente, trabalhar com os locais. Eles vão-me ensinar o que sabem e eu vou ensinar-lhes o que sei". Pensei que este sítio no Panamá precisava de uma aldeia como exemplo e que estávamos ali para construir algo bonito, mas Kalu Yala é, basicamente, uma injecção de cultura ocidental na selva. É perigoso mandar estas espécies invasivas assim e esperar que tudo corra bem.



A dada altura de um episódio, dizes que estás pronto para te ires embora. O que te fez ficar?

Ainda não estou certo de como me sinto em relação a muito do que aconteceu. Foi bonito, problemático, suspeito, glorioso, arbitrário, específico, ambicioso - foi um pouco de tudo. Tive momentos em que estava pronto para me ir embora, mas percebi que preferia morrer do que fugir de uma situação que tinha tanto para me ensinar sobre o que não fazer. Ir embora nunca esteve de facto nos meus planos.

Adorei o que aprendi em Kalu Yala e não trocaria isso por nada - como não construir uma cidade, como não gerir uma quinta, como ser diverso. Sentir-me-ia muito culpado se me fosse embora e perdesse esta oportunidade de ver um exemplo desta estranha, rara comunidade pop-up a acontecer na selva do Panamá. Falei sobre ir embora, porque me senti muito enganado e desiludido, mas esse sentimento em si foi-me muito valioso e acho que não teria aguentado tanto se não fosse por ele.

O que é que aprendeste com o teu período em Kalu Yala?

Tenho em mim todas estas experiências e não sei se alguma vez serei capaz de as ir buscar de forma independente [a Kalu Yala]. O facto de que uma catrefada de gente aleatória, com muito pouca orientação, consiga criar algo tão complexo, coeso e bonito é incrível. Foi maravilhoso saber que os humanos têm este tipo de poder. Ter esta experiência, com as mãos na massa, é algo que nunca me vai abandonar e cujo conhecimento prático me irá ser útil em várias situações.



As coisas merdosas são, provavelmente, parte de uma lista mais longa. O problema de liderança do fundador de Kalu Yala, Jimmy Stice, é o de não saber estar presente e ouvir. É um bom manager, mas como líder não é muito eficiente. Não me inspira. Houve momentos em que ele dizia tipo "Não te preocupes, eu pago isso," ou "Toma lá um hambúrguer, não te preocupes com o resto", o que é óptimo, mas ao mesmo tempo é tipo "Jimmy, eu paguei-te cinco mil euros - esse hambúrguer é oferta minha".

Também tinha a expectativa absoluta de compreender a história política daquilo em que nos estávamos a meter, enquanto estudantes. Não quero entrar de rompante no fim da Revolução Francesa a perguntar "Alguém quer bolo?". É preciso saberes a narrativa daquilo a que te juntas. Não haver protocolos de segurança também foi importante. Se não tens mais nada, precisas de ter protocolos de segurança. O facto de não existirem foi muito irresponsável.

Esse tipo de inconsistências eram tão gritantes para mim e para outras pessoas, mas acho que não seria agora tão fervoroso se não tivesse estado em Kalu Yala e não tivesse descoberto o quão fodido é quando não tens este tipo de coisas em ordem. Cada dia tinha altos e baixos - "adoro este sítio e morreria por estas pessoas," ou "uau, isto está tudo fodido, quem me dera que este sitio se desfizesse em cinzas". Num piscar de olhos tinha acabado, mas eu senti que estive lá 100 anos.


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