Educação Ocupada

Mesmo com a presença da PM, estudantes afirmam que não irão desocupar o Centro Paula Souza

As reivindicações pela merenda continuam mesmo com a presença ostensiva da Polícia Militar no Centro Paula Souza. Tribunal de Justiça considera a entrada da PM ilegal.

por Débora Lopes
02 Maio 2016, 7:50pm

"Como estudar com fome?", questiona uma cartolina presa ao vidro do Centro Paula Souza, na região central da cidade de São Paulo, ocupado por estudantes que reivindicam merenda para escolas técnicas desde a última quinta (28). Na manhã desta segunda (2), a Polícia Militar adentrou o local para cumprir um pedido de reintegração de posse emitido pela Justiça. O secretário de segurança pública do Estado, Alexandre de Moraes, estava presente no momento. Os estudantes, entretanto, afirmam que não pretendem desocupar o lugar.

A PM, no entanto, entrou no local ilegalmente, afirma o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). O juiz da Central de Mandados, Luis Fonseca Pires, deu 72 horas para a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) explicar se foi responsável por "adiantar" o cumprimento da medida judicial. "Um país que se anuncia sob a ordem do Direito deve respeitar os parâmetros definidos pelo sistema jurídico e não pela vontade casuística e personalíssima de agentes que se encontram no Poder", declarou o magistrado.

No local, os estudantes já haviam antecipado a informação reiterada pelo TJSP. "O que eles [policiais] são obrigados a fazer, pela lei, é enviar o mandado pra gente. Normalmente, eles dão 24h pra gente desocupar", pontuou uma estudante.

De acordo com o documento que pede a reintegração de posse, "o prédio não é utilizado para aulas, mas para sede administrativa de rede educacional, o que pode causar desproporcionais prejuízos à atuação do Estado, bastando para tanto considerar o atraso no processamento da folha de pagamentos e a possibilidade de dano aos arquivos". Autarquia do Governo do Estado, o local administra Etecs (Escola Estadual do Estado de São Paulo) e Fatecs (Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo).

Estudante próxima ao cordão policial no Centro Paula Souza. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Em apoio, estudantes da Escola Estadual Fernão Dias Paes, na região de Pinheiros, ocuparam a própria escola na madrugada do domingo (30). Em post no Facebook, eles dizem se solidarizar também "contra a máfia e a falta da merenda". No ano passado, o lugar se tornou símbolo dos protestos e das ocupações dos secundaristas que pediam a revogação da reorganização escolar proposta pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB), que sucumbiu aos protestos e recuou. Ainda assim, foi acusado de fechar mais de mil classes no início deste ano. Por telefone, a Secretaria da Educação afirmou que, até o momento, professores, funcionários e alunos podem entrar e sair do local normalmente.

Escola Estadual Fernão Dias Paes ocupada novamente. Foto: André Lucas/ C.H.O.C Documental

Ao saber da ocupação do Fernão Dias, Alckmin retomou sua frase de efeito sobre ocupações estudantis: "É nítido que é um movimento político". Para o governador, "eles não invadem escolas do PT. É uma invasão seletiva".

A Etesp (Escola Técnica Estadual de São Paulo), uma das principais escolas técnicas da cidade localizada na região da Luz, também foi ocupada na manhã desta segunda.

Até então, a ocupação no Centro Paula Souza permitia somente a entrada de seguranças terceirizados sob justificativa de que poderiam ser prejudicados caso faltassem ao trabalho. Nesta manhã, a PM permitiu que os funcionários do local pudessem entrar para trabalhar.

Remédios que, segundo os estudantes, estão sob a guarda da PM. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Segundo os estudantes que ocupam o Centro Paula Souza, os policiais da Tropa de Braço estão obstruindo a passagem para a cozinha, para os sanitários e para os remédios. A VICE presenciou um religioso relatando que tentou negociar com a polícia para que os jovens tivessem acesso aos medicamentos, mas que o comandante da PM só o faria caso os estudantes recuassem um pouco no salão central – onde polícia, imprensa e alunos dividem espaço.

Casal de alunos se beija em frente ao cordão policial. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Uma estudante que está na ocupação relata que a polícia chegou por volta das 9h. "Eles quebraram o cadeado que havíamos colocado no portão e entraram", relatou. Nesse momento, os estudantes teriam tentado resistir à entrada dos PMs e se colocado diante do portão. "Só que eles empurraram tão forte que eles mesmos acabaram quebrando o portão do Paula Souza. Foi o maior absurdo de todos", indignou-se a aluna.

O portão do Centro Paula Souza que, segundo os estudantes, foi forçado e quebrado pelos policiais. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Ela afirma que em nenhum momento a polícia tentou estabelecer diálogo com os estudantes. "A PM não negociou com a gente, não informou que ia entrar, não fez nenhuma medida pra tentar garantir a nossa segurança. Fizeram um terror psicológico muito grande. As pessoas começaram a passar mal de medo, tremer e chorar", desabafou a estudante.

De acordo com a Polícia Militar, não houve reintegração de posse e, sim, "o restabelecimento de direitos que tinham sido cerceados". Por e-mail, a assessoria de imprensa da corporação justificou que "a Policia Militar atuou apenas para garantir a liberdade de trabalho dos funcionários do Centro Paula Souza". A assessoria, porém, não respondeu sobre a possível obstrução dos sanitários e sobre os remédios que pertenciam aos estudantes.

O professor de história (de camiseta branca) que se prontificou a improvisar uma aula pública para os estudantes. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Diante do mal estar entre alunos e PM, um professor de história se prontificou a dar uma aula pública improvisada para os jovens, sentados em círculo próximo ao cordão policial dentro do salão principal no Centro Paula Souza. Referindo-se aos policiais, ele iniciou: "antes de vê-los como inimigos, os vejam também como cidadãos brasileiros".

Para o professor, afrontá-los não diminuiria o problema. Ele foi aplaudido, mas recebeu uma enxurrada de mãos levantadas que questionavam sua fala. "Você já morou em uma periferia? Você já saiu de lá depois das 22h? Você já teve medo, já teve receio? Você já preferiu ser roubado dez vezes do que levar um enquadro de um policial às 10 da noite? Já?", questionou um aluno. "Eu acho que a polícia é nossa inimiga desde quando ela é treinada a matar jovem inocente que não está fazendo nada", proferiu uma estudante. O debate seguiu acalorado. Os policiais olhavam para todos os rostos presentes, mas prosseguiam em silêncio. O comandante da PM estava trás deles, no topo de uma escada, observando tudo com o esboço de um semi-sorriso.

Policiais do lado de dentro do Centro Paula Souza e estudantes do lado de fora. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Para Alckmin, que desde seu primeiro ano de mandato mostrou total inabilidade em dialogar com estudantes quando a reitoria da USP foi ocupada em 2011, mais uma vez os protestos dos últimos dias não fazem sentido. "Isso é feito pra mídia. Pra ser glamourizado na mídia", esbravejou durante entrevista.

Enquanto não é feito um acordo entre estudantes e PM, a ocupação segue. A estudante que responde pela comunicação dos ocupantes no Paula Souza fala com veemência: "A decisão da assembleia é de que não vamos sair. Vamos resistir até o último momento".

*Colaborou a repórter Amanda Cavalcanti

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