Mulheres Cariocas Tomaram as Ruas Novamente Contra Cunha

Reivindicando o fim da cultura do estupro, da transfobia e da putafobia, a Marcha das Vadias do Rio de Janeiro chega à quinta edição com público renovado.

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nov 16 2015, 7:26pm

Após ser remarcada por conta de chuvas, a quinta Marcha das Vadias do Rio de Janeiro aconteceu no sábado, dia 14, num desses incríveis dias de sol. A concentração foi na altura do Posto 4 de Copacabana, debaixo de umas árvores na calçada que divide as duas mãos da Av. Atlântica.

Há algumas semanas, no dia 21 de Outubro, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei 5.069/2013, de autoria do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Esse projeto proíbe a venda de pílulas do dia seguinte e impõe medidas que dificultam o acesso ao aborto por mulheres que foram vítimas de estupro. Segundo a página da Marcha das Vadias, o PL "fere princípios da dignidade humana da mulher e as coloca, mais uma vez, sob crivo da autoridade policial e do judiciário para que se comprove a nossa inocência por um crime do qual [mulheres] são vítimas". Uma semana depois, mais de três mil mulheres tomaram as ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro pedindo a saída de Cunha. Como não podia deixar de ser, o grito "Fora, Cunha" ecoou também na versão carioca da Marcha das Vadias, protesto internacional contra o assédio e a cultura do estupro que acontece na cidade desde 2011.

Enquanto as minas iam chegando e pintando cartazes e os corpos umas das outras, umas caixas tocavam um som. Até teve espaço pra "Single Ladies", da Beyoncé, mas, na maior parte do tempo, o som que rolou foi funk, como Bonde das Maravilhas, Valesca Popozuda e Mc Xuxú (que manda um beijo pras travestis).

Uma mina de Pernambuco montou um estudiozinho e fez vários cliques maneiros para o projeto Deixa ela em Paz; assim como os outros colegas na área, peguei uma caroninha e fiz meus registros também.

Quando esta mina colou, nua, um senhor alcoolizado colou e começou a falar umas merdas, porém felizmente ele foi rapidamente expurgado do ato sem grandes delongas.

Lá pra umas 15h, quando o reduto tava começando a bombar, a Indianara chegou divando em seu figurino de anjinha. Ela é uma ativista muito respeitada no Rio de Janeiro pelos anos de atuação junto a trans e prostitutas, além de estar participando desde a primeira Marcha das Vadias. Troquei uma ideia com ela sobre a renovação do movimento: "A Marcha de 2015 foi construída com a juventude: novas vadias que organizaram, levaram à frente, nos gritos, a marcha em vários momentos. Muitas estudantes universitárias e secundaristas, isso é muito bom, uma renovação que queremos que continue, até porque nós não somos eternas. Esperamos que a gente dure bastante, mas uma hora morremos. Toda vez que eu virava e via as jovens encabeçando, querendo para elas – que estão agora e já são – o futuro, e para as outras que ainda não nasceram, achei isso ótimo".

Desde os tempos da ditadura, nenhum ato politico no Rio de Janeiro é completo sem uma expressiva participação de alunos do Colégio Pedro II. Desta vez, não foi diferente: vários grupinhos de alunas do Pedro II iam chegando e abrindo o decote do uniforme para exibir frases de ordem e sutiãs coloridos. Algumas tinham vindo diretamente da aula, outras vestiram o uniforme especialmente para o ato. Houve, inclusive, uma ex-aluna que desenterrou o uniforme.

Conversei com algumas dessas minas e fiquei sabendo que existem frentes feministas dentro de quase todos os grêmios de todas as unidades do CPII; além disso, essas frentes também funcionam dentro do movimento negro do CPII, com feministas negras organizadas. Um dos coletivos tem um nome diretamente relacionado ao uniforme: Feminismo ¾.

Segundo uma das alunas da unidade do Humaitá, a única da Zona Sul, lá, se você votar no Bolsonaro ou no Cunha, você é rechaçado. Embora ela frise que em outras unidades era diferente: havia muito machismo, inclusive por parte da direção; a de Realengo, em especial, beiraria o fascismo, diz a estudante. Uma das minas soltou que no Humaitá todo mundo era de esquerda e feminista, no que foi cortada por uma colega: "Pera lá, ainda tem muito esquerdomacho lá!".

Além dos já conhecidos "Se liga, seu machista, a América Latina vai ser toda feminista" e "Pau de estuprador no liquidificador", uma das palavras de ordem novas que aprendi foi "O Pedro Paulo não vai passar, estuprador não vai nos governar". O Pedro Paulo em questão é o executivo de Coordenação de Governo da Prefeitura do Rio e provável candidato a suceder Eduardo Paes na prefeitura no ano que vem. Ele foi recentemente acusado de ter agredido sua ex-mulher.

Além da marcha em si, as minas e os coletivos envolvidos na realização dela organizam também no decorrer do ano debates e outras atividades. Colei num debate sobre prostituição na semana passada, no qual me surpreendi ao saber que a Marcha do Rio é uma das poucas que defendem abertamente a regulamentação da prostituição e o direito das transexuais.

Isso é meio surreal: afinal, a Marcha das Vadias começou com a ideia de a mulher poder se vestir como quiser sem ser assediada por isso. Criticar a prostituição ou o transexualidade dentro desse protesto soa pra mim tão surreal como dizer "eu não mereço ser estuprada; ela, sim!". Mas, enfim, este texto é sobre a Marcha das Vadias do Rio, que, nesse sentido, tava bem inclusiva e coerente.

Um grupo de travestis carregava cartazes do "Prepara Nem". Conversei com uma dela, a Lu, que me explicou: "Prepara Nem é um curso preparatório voltado para travestis e transexuais que acabou mudando a vida de muitos travestis que eram profissionais do sexo e continuam sendo profissionais do sexo. Só que, hoje em dia, [os travestis] não dependem só do profissionalismo do sexo para sobreviver. Hoje, a gente acabou conhecendo pessoas, seres humanos que acabaram devotando uma parte da vida para preocupar-se conosco, travestis; então, hoje, eu tenho o maior orgulho de fazer parte de um projeto no qual, antes de dormir, eu posso dormir tranquila e acordar agradecendo a Deus por saber que, em vez de ir pra pista para ganhar o meu para pagar diária, eu vou para a escola estudar mais um pouquinho para querer ser um pouquinho mais do que eu já sou".

Já no final do ato, encontrei minha amiga Carol Gê fazendo propaganda do seu Cookie Brilha: "Meu cookie é bom, meu cookie é delicioso e alimenta a família não tradicional brasileira. E brilha!!!". Carol apareceu recentemente no videoclipe de "Survivor", da cantora e atriz Clarice Falcão, que mostra várias minas de distintos padrões pintando a cara com batom. Elas estavam juntas; assim, aproveitei pra surrupiar um depoimento da Falcão: "Eu acho muito essencial a gente estar aqui, é muito linda essa parada: meninas juntas. E todo mundo diz que menina não é amiga uma da outra, que não tem sororidade, mas isso aqui tudo é sororidade pra caralho, está todo mundo se amando, se achando linda, se achando o máximo, e eu acho que esse é o lema da marcha. Ninguém tá olhando quem tá com uma roupa mais cara, ou mais gorda, ou mais magra, ou com peito maior, ou peito menor – tá todo mundo feliz de estar aqui, de estar empolgado em conseguir direitos. Até porque seria lindo se a gente estivesse numa curva de conquistar mais direitos, mas, não, estamos perdendo os direitos".

A marcha encerrou-se no Leme com um jogral lembrando as bandeiras defendidas pelas vadias nesses cinco anos. Segundo a PM (que acompanhou de longe, com apenas uma viatura e alguns oficiais), foram 300 pessoas, embora eu acredite que o número possa ter chegado a mil no auge da passeta. Foi um público bem diferente do que observei nos dois últimos #ForaCunha no centro da cidade. Diferentemente do centro, nenhum dos grupos feministas ligados a partidos políticos colou em Copacabana, pelo menos não com o circo armado. Me fez lembrar as primeiras marchas da maconha antes de essa marcha ser aparelhada por tudo que é partido e candidato.

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