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A última ditadura da Europa enfrenta oposição do governo exilado mais antigo do mundo

A Rada (o governo exilado) da República Democrática da Bielorrússia é uma tradição moribunda. Apesar de ter governado por menos de um ano, sobreviveu a duas guerras mundiais, 70 anos de ocupação soviética e quase um século de exílio.

por Dylan Brethour
01 Fevereiro 2016, 5:30pm

O primeiro governo da República Democrática da Bielorrússia.

Governo exilado bielorrusso, a Rada, da República Democrática da Bielorrússia (RDB), é parte de uma tradição moribunda. Depois da Segunda Guerra Mundial, governos exilados eram criaturas frequentes da Guerra Fria que desapareceram junto com a União Soviética. Hoje, só um punhado deles ainda existe – descendentes de monarcas depostos e alguns partidários determinados de estados falidos. O mais antigo deles é a Rada, que, apesar de ter governado por menos de um ano, sobreviveu a duas guerras mundiais, 70 anos de ocupação soviética e quase um século de exílio.

A Bielorrússia, até então parte do Império Russo, declarou independência em 1917 e estabeleceu a Rada como governo provisório. Antes que as eleições acontecessem, o governo foi expulso de Minsk pela invasão do Exército Vermelho em 1918. Depois disso, a Rada, no exílio, começou uma lenta caminhada pelo globo: de Kaunas para Praga, de Paris para Nova York, até chegar finalmente a seu atual quartel-general, em Toronto.

Hoje, a Rada, liderada por Ivonka Survilla, tem alianças culturais bielorrussas na Lituânia, na América e no Canadá. A mais antiga fica em Londres, onde sou recebido por um homem num terno elegante de três peças e usando óculos redondos. Mikalaj Packajeu é o secretário da Informação e vice-secretário de Relações Exteriores da Rada. Ele me guia até uma sala escura, decorada com fotografias granuladas de revolucionários falecidos e um mapa antigo da Bielorrússia. Parece uma cena tirada de 007 – O Espião que Me Amava.

Mikalaj Packajeu.

"Nunca recebemos muito apoio dos governos ocidentais", explica Packajeu. "Não muita coisa desde o empréstimo da Lituânia nos anos 20." Sendo assim, a Rada é financiada quase que inteiramente pela diáspora bielorrussa. As consequências do orçamento limitado têm sido um alcance igualmente limitado, com a presença online do governo restrita a um site tosco e alguns perfis nas redes sociais. A Associação de Bielorrussos, cujos membros apoiam a Rada, aluga as salas do piso superior do prédio em Londres para ajudar a pagar as contas. Para alguém de fora, a organização, com seus membros dispersos e saldo bancário baixo, parece à beira do colapso.

Mas caminhar no limite da extinção sempre foi parte da história da Rada. O partido sobreviveu por um triz quando foi forçado a fugir pela Europa através de duas guerras mundiais. Tenacidade diante do desastre manteve o partido acima da superfície durante sua longa e convoluta história. Só que a existência improvável da Rada em 2016 deve-se tanto ao caos político bielorrusso quanto à determinação de seus membros. Por um curto período depois da queda da URSS, parecia que a Bielorrússia poderia se democratizar. Em vez disso, Alexander Lukashenko, que subiu ao poder depois das eleições de 1994, devolveu o país a um governo no estilo neo-soviético, com propriedades estatais, eleições fraudulentas e capangas contratados.

O presidente Lukashenko e seu filho "Kolya". Foto via conta do Flickr Cancillería del Ecuador.

"Se não for uma pessoa de Lukashenko, você não é eleito nem para o conselho local", diz Packajeu. "Não há política, é uma ditadura." Essa é uma acusação ecoada por grupos como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, que denunciam as restrições às liberdades civis no país. Em 1996, Lukashenko realizou um referendo para alterar a Constituição, acabando, assim, com o limite de mandatos presidenciais. Como toda eleição na Bielorrússia, os resultados da votação foram amplamente contestados.

Lukashenko dificilmente deixará o posto. Ele até fez a seguinte promessa recentemente: "Só tenho você, povo da Bielorrússia, e vou servir até o último dos meus dias". Ele frequentemente é acompanhado nos eventos políticos por seu filho Nikolay, apelidado de "Kolya", levando a especulações de que o garoto está sendo preparado para a sucessão.

Leva algum tempo para esclarecer como a Rada, fora da Bielorrússia desde 1919, está trabalhando para derrubar Lukashenko. A missão atual do partido, conta Packajeu, é apoiar os partidos de oposição na Bielorrússia. "A Rada, no exílio, em algum ponto, reconheceu que não poderia voltar ao poder na Bielorrússia. Então, seu propósito geral... é estabelecer seu mandato em favor de um parlamento eleito com liberdade", ele explica. "Agora, o que se segue a essa proposta é que deve haver um governo apropriado na Bielorrússia. Portanto, nossa tarefa prática é apoiar e promover qualquer atividade que leve a Bielorrússia a tal governo."

O brasão da RDB.

No entanto, os partidos pró-democracia criados antes que Lukashenko chegasse ao poder foram excluídos da vida pública há 20 anos. Outros partidos continuam extra-oficialmente, incapazes de se registrar no ambiente político restritivo da Bielorrússia. "O problema, claro, é que, mesmo estando totalmente preparados para ajudar e fazendo o que podemos, a oposição atual na Bielorrússia não está em boa forma", reconheceu Packajeu. Ele foi claro sobre os desafios que a Rada enfrenta, detalhando animadamente o estado desastroso da política bielorrussa.

"Na Bielorrússia, todo mundo entende que Lukashenko tem eliminado qualquer maneira legal e, digamos, pacífica de tirá-lo do mandato – e que as pessoas provavelmente estariam arriscando suas vidas para tentar mudar o sistema político", afirma Packajeu. Mas o problema é maior que o simples custo pessoal alto da revolução. "Não há insurgência", ele continua, enquanto sua voz vai subindo de tom. "Não há ninguém para apoiar. Assim, o resultado é que as pessoas estão perdendo o interesse."

Depois de duas décadas sem mudanças políticas, não são só os eleitores que estão desiludidos. "Em certo ponto, os governos ocidentais e as ONGs... parecem ter se desapontado com a oposição na Bielorrússia", frisa Packajeu. "Anteriormente, havia um arranjo: eles apoiariam algumas atividades que indiretamente permitissem [aos partidos de oposição] dedicar seu tempo para avançar o ativismo político, porém isso parou... o apoio à oposição foi reduzido dramaticamente, aparentemente porque não há perspectiva de resultado nenhum."

Entretanto, o recente nacionalismo russo deixou Lukashenko numa posição difícil. "O urso está na sala", diz Packajeu, rindo. A Bielorrússia é economicamente dependente da Rússia, seu principal parceiro comercial. Com o Kremlin pressionando para expandir território, Lukashenko está sob pressão para permitir novas bases aéreas do Exército Russo no país. Para contrabalancear a influência russa, Lukashenko abordou a União Europeia. A UE, por sua vez, suspendeu sanções depois da última eleição relativamente sem incidentes na Bielorrússia.

Um recorte de jornal com uma foto do parlamento da RDB em 1918.

Packajeu é cético quanto à vontade de Lukashenko de permitir mudanças, assim como quanto à estabilidade geral do regime. "O problema com ditaduras é que elas parecem estáveis, mas são imprevisíveis. Quando explodem, elas realmente explodem." A melhor estratégia, ele argumenta, seria encorajar a oposição dentro da Bielorrússia, garantindo que o poder vá para as pessoas certas depois que o governo cair. Olhando em volta, para a pequena sala e sua decoração datada, é difícil imaginar que essa organização, alojada num subúrbio solitário de Londres, consiga se mostrar fundamental na destituição de um dos líderes europeus há mais tempo no poder. Decorada com imagens de líderes mortos e territórios antigos, a história certamente está presente no posto avançado da Rada em Londres. O que não está claro é seu lugar no futuro.

No momento, há pouca vontade política dentro da UE para fomentar a oposição na Bielorrússia. Um subúrbio da Europa, economicamente marginal e atrofiado pela Rússia, o país é facilmente descartado. A existência da Rada até 2016 é parte da trágica política bielorrussa, um subproduto anacrônico da última ditadura da Europa. No entanto, Packajeu continua otimista. "A Rada sobreviveu a Stalin e à União Soviética. Por mais de 70 anos, não havia sequer esperança de que a União Soviética pudesse cair. Estamos aqui há quase 100 anos. Já vimos de tudo."

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Tradução: Marina Schnoor

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