"Para Sempre Classe Média": Conversamos com a Alexandra Sobre "O Pintinho 2"

Outra vez, o quadrinho se utiliza da magia do livro impresso para conquistar e meter o dedo na ferida da classe social mais vilipendiada do Facebook.

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mar 28 2014, 8:59pm

É ótimo começar uma matéria com uma generalização emburrecedora, tipo essa: tirinha boa mesmo são as simples, aquelas no preto e branco, traço único, sem frescura e uma baita sacada nos balõezinhos. Do contrário, se enfeita muito, fico achando que o artista está se escondendo atrás do desenho, atacante que fica passando o pé em cima da bola pra disfarçar o fato de que ele está há dez jogos sem marcar.

E se tem alguém que está metendo gol adoidado nesse partidásso que é o mundo dos quadrinhos brasileiros contemporâneos é a Alexandra Moraes, autora d'O Pintinho. Há uns cinco anos a também jornalista se dedica à feitura desse rústico e sacadíssimo quadrinho, que ilustra as inúmeras desventuras e alegrias típicas da relação de uma mãe (a Galinha) e seu filho (O Pintinho) afundados até o bico no tecido social e cultural da classe média brasileira, "a mais vilipendiada do Face", analisa a própria Alexandra.

Em 2013 ela, junto com a editora indie paulistana Lote 42, lançou O Pintinho: Mais um filho de mãe brasileira, primeira edição física da tirinha. Uma compilação dos sucessos da série na internet numa edição pocket com capa vermelha cheia de charme descolado.

Como livros impressos são dotados de poderes mágicos ocultos que, uma vez utilizados como mídia para qualquer personagem/narrativa/argumento, recobrem o objeto de uma aura de importância e imortalidade, O Pintinho cresceu forte e ganhou ainda mais likes no Facebook. Lógico que essa notoriedade tornou óbvia a produção de uma continuação do primeiro livro. Tanto que, neste sábado (29), a Lote 42 lança a segunda edição d'O Pintinho. A linha-fina agora é " Para sempre classe média" e não consigo, de forma alguma, imaginar qualquer outra possibilidade de subtítulo para a obra.

O prefácio, que no primeiro livro era do Arnaldo Branco, agora foi inteligentemente redigido pelo Bruno Maron, que também lançou coisa pela Lote 42 (inclusive, já entrevistamos, etc).

O livrinho é joia, formato pocket e capa preta, rico de sofisticação. É uma coleção de tirinhas já publicadas na internet ao lado de novos, inéditos e fresquinhos quadrinhos. Inclusive, um desses desenhos nunca antes publicados na história deste país você pode ler abaixo, de lambuja.

Aproveitamos a ocasião do lançamento para trocar uma ideia muito alto-astral com a Alexandra sobre O Pintinho, comentaristas de internet, adesistas do Facebook, weltschmerz, o incrível personagem Zé Sexo e a Petrobras.

Ah, antes da entrevista, programe-se: o lançamento d'O Pintinho 2: Para sempre classe média acontece sábado a partir das 16h20 em uma festa na Rua Bahia, 1282, em Higienópolis, no centro de São Paulo.

VICE: Como surgiu O Pintinho em sua vida?
Alexandra Moraes: Um pouco por acaso, como um desenho para sustentar os poucos dialoguinhos que eu tinha vontade de escrever. Fiz uns primeiros, parei por mais de um ano, depois retomei e criei o site.

Já são quase cinco anos de Pintinho. O que mudou na forma como você pensa e cria os quadrinhos nesse tempo?
Acho que tentei ficar mais cuidadosa tanto nos desenhos quanto nas falas. Antes eu fazia o que passava pela cabeça. Agora eu perdi um pouco a espontaneidade, mas tento entregar uma coisa melhorzinha. O que espero que não mude é a consciência de que, pelo amor de deus, é uma tirinha de Paint.

Como foi a recepção do primeiro livro d'O Pintinho?
Foi muito boa. Acho incrível que minhas tias leem e se eu dissesse "oi, tia, visita meu site", acho que elas não levariam tão a sério.

Deu alguma grana para poder aumentar o pacote de TV a cabo e velocidade de internet?
Claro que não, aqui é Brasil!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

O tema da maternidade em suas tiras foi, aos poucos, dando espaço a outros assuntos. Tanto que n' O Pintinho 2 pintam vários outros personagens. Você enxerga essa mudança também?
Sim, eu acho que a maternidade foi mais uma desculpa mesmo, um lampejo. Sempre fui chata, e com a maternidade o exercício da chatice vira uma obrigação, daí casou uma coisa com a outra. Mas também nem tudo é conflito na vida doméstica, graças a Deus. No início, muito era de projeção do que eu achava que poderia passar nesse relacionamento, ser mãe de outro ser humano, certamente melhor do que eu! Acho até que as tiras ficaram menos "violentas", nesse sentido, na medida em que eu mesma consegui perceber que teria sim condição de criar uma família de uma maneira que a coisa não parecesse um curtição o tempo todo.

Por que o "Para sempre classe média" no subtítulo?
Porque as crises e os conflitos dos dois personagens, e dos outros que se seguem, são típicos dessa classe, a mais vilipendiada do Face.

O Zé Sexo é muito joia, adoro ele. Qual é o papel desse personagem dentro d'O Pintinho?
Haha, obrigada. Ele é um extremo ali nas tirinhas, em busca de um mais literal piru na mesa. Ele tem os modos expansivos e aquele ataque tipicamente modernista "ao burguês", os ataques que pararam no tempo do chapéu-coco. É um oposto, uma voz que grita em meio a tanto conformismo gráfico. Eu não sei bem para que ele serve, mas gostei de ter feito uma tira (uma das inéditas) em que ele vai comprar um ventilador e a vendedora oferece a ele um parcelamento, um carnê. É um choque de culturas.

O Pintinho é um millennial, nascido e criado na internet. Por que, então, lançar um livro impresso, essa velha e desgastada mídia? O Pintinho não ia preferir umas curtidas no Facebook?
O Facebook não tá nem aí pra nós, tem que aprender com o Orkut, que a gente amou tanto e olha o que aconteceu.

Você também tem publicado O Pintinho semanalmente na Ilustrada da Folha. Isso influenciou de alguma forma os rumos da família na tirinha?
Sim, influenciou porque me obrigou a criar uma disciplina que eu nunca tive, de fazer com uma regularidade definida, de ter que entregar, etc.

As tirinhas que são publicadas lá são, de alguma forma, diferentes das que você posta no Tumblr? O editor já rejeitou alguma tirinha que você mandou pra ele?
Não mesmo.

E a Galinha, a Mãe, tem essa visão pragmática em relação à política, cultura, etc. Seria uma possível saída à militância burrinha do jovem internauta brasileiro?
A militância burrinha não quer saída, não. E se a saída fosse uma tirinha tosca, era só fazer o programa federal Mais Paint. Sobre a visão pragmática, eu acho que é só um contraponto curioso à nossa alma muito barroca (vemos muito e fazemos muito pouco), que de certa maneira nos impede de resolver problemas de forma prática e nos permite sambar na lama.

Sinto na tônica da Galinha uma espécie de weltschmerz , um cansaço do mundo. E já que, como diz o Maron no prefácio do livro, que "a ironia da ironia da ironia também pintou" está na moda, você acha que uma atitude "pós-irônica" pode nos levar para um lugar mais saudável do que o simples falar mal e tomada de posições políticas extremas?
Não sei, esse weltschmerz é um pouco o que eu sinto mesmo. Meio brega, mas fazer o quê? Ando muito de ônibus. Não sei para onde vamos com a atitude pós-irônica. Eu só espero que lá não tenha tanta gente brigando na caixa de comentários.

Em uma das tirinhas o Pintinho diz: "seu senso prático é o caminho que vai nos conduzir ao abismo", referindo-se ao cinismo da Galinha. O contrário também se aplica? Do idealismo de Facebook também conduzir ao abismo?
Não só ao cinismo, ao senso prático mesmo. Estamos de um jeito anestesiados pelo suco orgânico que qualquer investida na vida prática parece cínica demais. O idealismo de Facebook serve para quem tá com a vida ganha ou gosta de ter uma vida social agitada, mas não sou ninguém para apostar em abismo, não.

Você inscreveria O Pintinho num edital de cultura do MinC? Colocaria um banner da Petrobras no Tumblr?
Não, prefiro continuar pagando o rotativo do cartão. O banner da Petrobras eu colocaria se recuperasse o que eu perdi com a PETR4!

Colaborou Pedro Moreira.

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