Publicidade
Esta história tem mais de 5 anos de idade.
Outros

Fernando Gabeira e Suas Ideias

Fernando Gabeira é um dos políticos mais famosos do Brasil.

por Entrevista Acer Bicudo; Foto por Marcus Veras
05 Junho 2009, 12:00am



Fernando Gabeira é um dos políticos mais famosos do Brasil e um ativista reverenciado como ex-membro do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (o MR-8), o grupo de extrema esquerda que sequestrou um embaixador estrangeiro em nome da luta contra o governo militar. Esse guerrilheiro, que também era visto nas areias de Ipanema a bordo de uma sunga de crochê, no final do ano passado quase foi eleito prefeito do Rio de Janeiro pelo Partido Verde.  

Vice: Olá. Na sua opinião, qual o maior desafio que o Brasil enfrenta hoje? Fernando 
Gabeira:
 Primeiro o de sobreviver à crise econômica internacional sem criar consequências negativas que afetem as questões sociais e ambientais. Depois, temos algumas ameaças ecológicas a resolver: a devastação da floresta amazônica, a degradação dos mananciais, a poluição nas grandes cidades, a existência de nove milhões de crianças sem saneamento básico e a contaminação de importantes áreas industriais do país.  

Há muito o que fazer mesmo. Como membro do MR-8, você se sentia mais motivado por se opor à ditadura militar ou por manter ideais comunistas? 
Minha motivação era lutar contra a ditadura no Brasil e expor a falta de liberdades essenciais no país. Eu era um existencialista, influenciado pela filosofia francesa do pós-Segunda Guerra. Acabei me tornando marxista durante a luta armada.  

Você foi exilado. Sua ideologia política mudou nesse período? 
Naquele momento, rompi com o marxismo e com a filosofia francesa.  

Como foi seu exílio? Que tipo de trabalho fez? 
Passei a maior parte do tempo na Suécia trabalhando na divisão portuguesa da Rádio Sweden. Também escrevi um filme sobre o exílio no Chile e os perigos que enfrentamos durante o golpe do Pinochet. E fui piloto de trens subterrâneos, cortei grama em cemitério e lavei louça em hospitais. O exílio é realmente uma experiência bem ampla.  

De alguma forma, você se sente orgulhoso do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick? 
Não me sinto orgulhoso. Sou contra o sequestro em si ou qualquer forma de violência política. Saí da posição de sequestrador para a de vítima.  

Como assim? 
Eu me envolvi com um grupo que fez campanha pela libertação da Íngrid Betancourt e de todos os colombianos reféns das FARC.  

Fernando Gabeira, em 1970, no Rio de Janeiro, sendo julgado pelo sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Foto AP


Você ainda se identifica com a ideologia original do MR-8? 
Minhas ideias mudaram muito, estou na política desde os 17 anos de idade, comecei como líder estudantil. Meio século muda as perspectivas de qualquer um, mesmo dos mais obstinados. E não me considero um homem de esquerda típico. Hoje converso com a esquerda e com a direita e não me sinto satisfeito com nenhuma das duas. Uma coisa muito séria aconteceu com as mentalidades políticas de hoje: elas ficaram velhas. Velhas demais.  

Não acha, no mínimo, curioso o fato de que muito do apoio a sua candidatura a prefeito do Rio de Janeiro veio de brasileiros de classe média alta? 
O apoio mais forte e expressivo foi mesmo da classe média. Mas tive mais de 49% dos votos. Se a classe média fosse tão grande, a cidade seria bem mais rica, não? O apoio que tive ficou longe de ser exclusivamente da classe média.  

Ele veio mais das classes pobres do que das ricas? 
Os pobres estão mostrando certo desdém pelos políticos de sempre—mesmo pelos populistas clássicos. Eles estão buscando mudanças.  

Bom, seu resultado nas urnas realmente mostra isso. O que vai fazer agora? 
Quero viver em paz—lendo, escrevendo, fotografando. Mas muitos dos meus amigos e jovens políticos querem que me mantenha envolvido. Há uma crise profunda afetando o país, me sinto atraído por ela e pelo desafio de administrá-la.  

Está de olho em outro cargo político? 
A situação abre uma grande possibilidade para eu concorrer a governador do Rio. Ou talvez ao Senado. Essas coisas todas aconteceram sem meu planejamento, assim como muitas outras ao longo dos meus 50 anos na vida política.

Tagged:
Vice Blog