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música

Entrevista: Ornitorrincos

Um dos mais idiossincráticos e viscerais grupos hardcore/punk do Brasil, mas que infelizmente ficou restrito a um culto minúsculo na já minúscula cena underground.

por Arthur Dantas
11 Março 2013, 3:45pm


Foto por Snapic.

O que esperar de um grupo com esse nome? O Ornitorrincos é um dos mais idiossincráticos e viscerais grupos hardcore/punk do Brasil, mas que infelizmente ficou restrito a um culto minúsculo na já minúscula cena underground. Acontece que eles começaram em 2002, pararam diversas vezes e saíram pouco de sua região. Seu vocalista, Daniel Villaverde, é uma das maiores “lendas vivas” da cena (como o Kalota, d’O Inimigo, e o Mozine, do Merda, já entrevistados aqui), um performer imprevisível e uma das maiores enciclopédias de cultura doidona do Sul do país. Como acontece com esses doidões que sacam muito dos assuntos que lhe apetecem, ele tende a ser um pouco nostálgico, como fica claro na entrevista. Isso é chato pra caralho, OK, mas todo o resto que ele fala, inclusive esse eterno entusiasmo pela produção da molecada, é muito do caralho.

Eles têm um vinil split incrível com o igualmente fantástico (e extinto) Pluto de Curitiba, com canções com nomes como “Secuestre El Encargado Del Correo Más Acerca de Usted”, “Popeye Pode Ser Vegetariano Pero Es De La Supremacia Del Marinha Del USA” e “Fortes Como Danzig, Estúpidos Como Hitler” e por aí vai. Ah sim, eles cantam em portunhol selvagem e são dados a críticas sarcásticas à moda de um MDC ou Dead Kennedys. Resumindo: tem que ser muito babaquinha pra não curtir a parada.

Eu apostaria um garrafão de cachaça de uva de Santo Antônio da Patrulha que o compacto que eles vão lançar vai ser um dos melhores lançamentos deste ano. Ah, o Daniel mandou avisar: “Estou cantando em mais duas bandas: Podia Ser Pior e Living Deads.Também estou com um projeto de banda garage 60's, e tenho um modesto e pequeno selo chamado Punch Drunks Discos pra lançar discos — sejam físicos ou virtuais — de bandas de amigos que eu admiro”.

VICE: E esse show do disco Sub [clássica coletânea de punk 80 paulistano]? Vocês escolheram tocar as músicas do Cólera ou foi a organização?
Daniel Villaverde: Organização.

Se fosse pra você escolher, qual banda escolheria?
Cólera!

Então deu certo no final... [Risos]
Sim. E fechou melhor com o estilo de som que a gente faz.

Na entrevista com Os Estudantes, eles falaram do quão incrível é a música do Cólera e de como o Rédson era um cara especial etc. Qual é o seu grande ícone do punk 80?
A primeira banda punk que escutei foi o Dead Kennedys. Lembro que caiu o vinil do Fresh Fruit For Rotten Vegetables na minha mão e eu surtei, tipo uma catarse. O encarte, o som, as letras... Escutava e imaginava os caras com um visual ultracarregado, porque as ideias eram radicais. Lembro que vi a foto deles numa Bizz [a revista extinta] e fiquei chocado. Visual camisa social pra dentro das calças e sapato! Eram pessoas comuns fazendo aquele som! Nunca fui adepto de visual por causa daquilo. A atitude estava nas ideias e não na estética ou no visual "rebelde". Fui ver os shows do Jello Biafra no Brasil e fiquei arrepiado com o quanto ele consegue passar a mesma energia com sua música mesmo depois de um tempo. Ainda é uma grande inspiração.


Foto por Wender Zazon.

É engraçado você falar da Bizz, porque muita gente se assusta quando falo que minha informação de música vinha 90% de fanzines. Achava essas revistas grandes um lixo. Raciocina: se só falavam besteira das coisas que eu conhecia bem, imagine das que não conhecia? Você é conhecido por ser uma enciclopédia da era dos fanzines e fitas demos dos anos 1980/90. Como toda essa cultura te afetou?
Imagina você morar numa cidade muito pequena e praticamente morrer de tédio na adolescência. Sei que você é do interior de Minas Gerais, então também deve ter passado por isso. Os zines e as demos foram a minha libertação. Eu morava naquela cidade, mas não vivia naquela cidade, o que é uma coisa muito diferente. E os zines e as correspondências foram os responsáveis por isso. Lembro com muito carinho daquela época de ouro que você ficava escrevendo compulsivamente cartas, às vezes umas 30 por dia, perguntando sobre a cena local dos lugares, sobre bandas etc. Muitas vezes desabafando até algum assunto pessoal com seu amigo que você nem conhecia pessoalmente! Hoje tudo me parece tão frio. Era realmente uma coisa muito calorosa tudo aquilo. Hoje você escuta uma banda no Bandcamp, acha até legal o som, mas você vai escrever pra ela? Fazer amizade com os membros? Convidar pra tocar na sua cidade? É mais fácil apertar o play e só escutar, né? Antes todos os envolvidos com a cena underground eram ativos, hoje você vê mais gente passiva do que ativa. Porque quem gostava se afundava de cabeça no negócio, até pela dificuldade de se conseguir informação. Não quero parecer um velho ranzinza, tem muita molecada fazendo coisas incríveis por aí, mas eles infelizmente não são a maioria.

Cara, você sempre foi uma referência de cultura marginal/underground no Sul. O que tem te deixado feliz nessas áreas por aí?
Que é isso, sou apenas um rapaz gaúcho do interior! Os shows aqui andavam meio caídos, se trazia uma banda de fora, o prejuízo era certo. Estamos no extremo sul, ou seja, distâncias gigantes. No passado, conseguimos organizar a vinda de várias bandas pra cá, como Cidade Cemitério, Deaf Kids, Futuro, Renegades of Punk, entre outras, que tocaram não só em Porto Alegre, mas em cidades como Estrela, Santa Cruz do Sul e Canoas. Com isso tudo, ficou mais fácil viabilizar a vinda de mais shows pra cá. Os shows estão dando um público maior, e o público, por sua vez, assiste os shows e monta suas bandas. Isso me deixa extremamente feliz. O que acontecia aqui, e vejo que no Brasil todo também, são bandas novas formadas por veteranos da cena. Qual era o sonho de um moleque revoltado nos anos 1990? Comprar uma guitarra, montar uma banda e sair gritando. Hoje você protesta contra um ditador de um país miserável usando o Twitter, sem sair de casa. O que é mais criativo? O que realmente fica? Por isso peço, por favor, molecada nova, montem bandas! Daqui a pouco o hardcore vai virar música pra animar baile da terceira idade revoltosa! [Risos]

Um amigo fala que esse “oba-oba” em torno do Off! na gringa e de outras bandas mais hardcore, seria o sinal de que hardcore/punk está caindo naquela categoria "classic rock" sabe?
O Off! eu acho incrível. O que acho ruim é que tu vê esses hipsters mistura de Iggy Pop com Santos Dumont curtindo eles. Tem uma cena "hipstercore" e parece que existe de verdade. Será que um piá desses entusiastas do Off! vai procurar escutar e conhecer os discos do Circle Jerks e Redd Kross? Tomara que sim. E acho que o hardcore está virando classic rock mesmo, o gênero já tem mais de 30 anos. Boa parte da música popular hoje (blues, jazz e até o nosso samba) era música transgressora e marginalizada em sua época. É a lei natural.


Arte por Insekto.

Você sempre foi um entusiasta dos fanzines. Notei que esse tipo de publicação está crescendo em volume e qualidade novamente. O que você acha que está fazendo a garotada sair do computador e voltar ao papel? E que zines você tem lido?
Incrível ver essa molecada fazendo isso. Eles estão dispensando a facilidade de uma ferramenta como as redes sociais e voltando ao velho e bom xerox pra divulgar suas ideias. O post do Facebook vai desaparecer dentro de alguns dias, mas o zine vai ficar. Recomendo Os Quadrinhos Mais Sujos da Face da Terra, do Cristiano Onofre, a revista Prego,  que é uma das coisas mais interessantes que surgiu nos quadrinhos nacionais nos últimos anos, o zine do nosso guitarrista Guilherme também está muito bom, chama-se Outono ou Nada. Em todos os shows vejo fanzines novos, o que é muito positivo.

Você ganhou fama organizando shows e eventos na sua cidade natal, a mítica Santo Antônio da Patrulha. Explica o que é essa cidade e conta algum causo bom dessas aventuras na sua cidade.
É uma pequena cidade de 45 mil habitantes localizada no litoral norte gaúcho, a cerca de uma hora de Porto Alegre. De 1994 a 2008, eu organizava shows por lá, fazia fanzine etc. Uma época era realmente legal morar lá, tínhamos uma turma grande de amigos que curtiam o som e tal. Acabei indo embora por falta de emprego e também sem amigos, já que todos foram embora. Rolaram shows de inúmeras bandas lá, como No Violence, Merda, Morte Asceta, Boom Boom Kid, Ordinária Hit, entre muitas outras. Praticamente todo mês rolava pelo menos um show. Uma vez organizei um festival de três dias e vieram muitas excursões de ônibus de várias cidades do interior do estado e de Porto Alegre. A pacata população local ficou com medo daquele bando de gente doida e começou a fazer fofocas — só faltava se benzer quando passava pelo pessoal. Mas quando terminou o festival, vários comerciantes próximos ao local do show vieram me agradecer porque o estoque de comida e bebida que eles tinham foi todo vendido. Quando me viam na rua me perguntavam: "Daniel, quando vai fazer essas festa de rock doido de novo?" [Risos]. Acho que o show mais divertido foi o do Merda. Lembro que era uma terça-feira e ficamos com pena de eles tocarem pra ninguém, já que era um dia de semana. Tivemos a brilhante ideia de conseguir vários litros de cachaça pra distribuir pinga gratuita pra quem pagava o ingresso. Fizemos um cartaz sensacionalista onde isso era mais divulgado do que a banda em si e lotou! E claro: todo mundo ficou muito bêbado com as deliciosas cachaças de uva, abacaxi, morango [risos].

Vamos falar de Ornitorrincos. Você escreve coisas diferentes pra cantar ou a raiva continua direcionada às mesmas coisas?
Depois dos 30 você acaba encarando uma outra maneira de ver o mundo. Um pouco daquela rebeldia de quando você era mais jovem ainda está lá, mas de uma maneira mais sutil e talvez não tão "na cara" e também direcionada a outras coisas. Nossas últimas letras falam de uma certa insegurança sobre encarar as incertezas da  vida adulta, envelhecer, empregos, dia a dia... Nada é mais como quando você era moleque, então ter uma banda depois de uma certa idade é uma boa terapia pra expressar todas essas dificuldades e algumas frustrações. Hoje acho que nossas músicas são mais direcionadas a isso, uma coisa mais pessoal mesmo. Extravasar isso usando a música é uma válvula de escape incrível, muito melhor do que ir ao psiquiatra.

Vocês estão de guitarrista novo, vão lançar disco etc. O que vem pela frente? Tem algum clássico instantâneo como “Igrejinha Übber Alles” [a música é uma tiração de onda com uma editora fascista que publica livros no Rio Grande do Sul]?
Quando começamos, tínhamos vontade de montar uma banda na linha do bom e velho hardcore americano: Germs, Black Flag, Reagan Youth, Circle Jerks... Coisas que crescemos ouvindo. No início dos 2000, era praticamente impossível achar alguém com camiseta do Black Flag em um show. Era o boom do “metal mosh sxe” e “power violence”. A vontade de montar a banda veio daí: de não ter muita banda assim no Brasil na época. As letras têm espontaneidade infantil e normalmente saem de piadas internas — o que complica alguém entendê-las, às vezes. Tem um pouco de sarcasmo sempre, porque gostamos de rir também. E outra: punk rock panfletário é um saco, né? Em breve sairá um compacto da banda, com cinco sons novos, e se tudo der certo tocaremos pelo Brasil.

Agora vou apelar pro bom e velho bairrismo gaúcho aliado ao teu conhecimento enciclopédico sobre cultura local. Qual o maior doidão do rock gaúcho: Plato Divorak ou Júpiter Maçã?
Costumo falar que uma das maiores alegrias de morar em Porto Alegre é ter o Plato por perto. O cara é uma figura folclórica e lendária. Lembro que uma vez alguém do nordeste me escreveu perguntando se o Plato existia de verdade ou era uma figura "inventada" [risos]. Às vezes ele vem aqui em casa pedir pra baixar algum disco e fala: "Canalhaaaaa, cadastra essas bandas pra mim!". Disse que não entendi o que ele queria. "Coloca no computador que elas vêm pra ti". Recomendo a todos que escutem a obra dele! Um dos meus ídolos!


Foto por Snapic.

A melhor comida tradicional gaúcha?
Churrasco de costela!

A melhor banda punk gaúcha de todos os tempos?
Pupilas Dilatadas na fase do EP Experience. Faziam um som muito diferente do que rolava no Brasil na época.

A melhor banda mod gaúcha?
Acho que não teve uma banda genuinamente mod aqui no estado, como São Paulo teve o The Charts, por exemplo. Mas posso dizer que a Lovecraft transitava por esse mundo mod. Hipnóticos também era uma banda muito boa, que acabou de voltar.

O melhor disco de MPB gaudéria?
Acho que um disco definitivo daqui é o Por Favor Sucesso, do Liverpool.

O filme gaúcho que todos deviam conhecer?
Um filme pra entender a "magrinhagem" do porto alegrense é Deu Para Ti, Anos 70". Foi um dos primeiros filmes gaúchos filmado em Super-8.

Lembrando que é um site pra todo o Brasil, explica o que é "magrinhagem" [risos].
Só quem lembra do personagem do "magro do bonfa" da Escolinha do Professor Raimundo saberá [risos]. É mais ou menos um malandro carioca se tivesse nascido aqui.

O melhor fanzine gaúcho da história?
And Chimarrão 4 All de São Leopoldo. Clássico! O Enxofre de Ijuí também era muito bom.

O disco experimental gaúcho mais importante?
O primeiro disco da SOL, que saiu pela Amplitude Discos.

Os maiores heróis da cultura underground gaúcha desconhecidos do resto do país?
Todo o mérito pra GDE, banda de Santa Maria que misturava pós-punk, industrial, fazia uma barulheira realmente apocalíptica no inicio dos anos 1990. A fita k7 No Art Pictures é uma pérola perdida do nosso underground!

Desses músicos que ficaram mais conhecidos nacionalmente, tipo Nenhum de Nós, Engenheiros do Hawaii etc., tem algo que você goste ou acha tudo ruim/chato como o resto sensato do país? [Risos]
Não curto nenhuma dessas bandas aí não! Acho que sou como o resto [risos].

Anteriormente:

Entrevista: Os Estudantes

Entrevista: Renegades of Punk

Entrevista: Merda

Entrevista: Cidade Cemitério

Entrevista: Morto Pela Escola

Entrevista: O Inimigo

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