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Como a culinária dos hipsters barbudos mudou um bairro de NY pra sempre

A atriz norte-americana Rosie Pérez fala sobre sua infância e a vida de sua família porto-riquenha em Williamsburg antes de o bairro ser transformado por baristas e açougueiros descolados.

por Equipe Munchies
14 Outubro 2016, 11:00am

Foto via usuário do Flickr warshawskis.

Esta matéria foi originalmente publicada no MUNCHIES US.

O renomado chef Mario Batali colou na cozinha experimental do MUNCHIES US para preparar pratos sob medida. Aos preparos, deu um toque porto-riquenho em homenagem a inimitável Rosie Perez, especialmente em seu prato de inspiração italiana, o Steak Milanese, que foi agressivamente temperado com adobo [condimento feito com pimenta, páprica, louro, alho, cebola, molho de soja e vinagre]. Durante o almoço, que rolava com muito vinho branco siciliano, Perez contou como era viver e comer numa Williamsburg ainda pobre quando ela criança. Suas anedotas eram honestas e hilárias, e logo depois do almoço, ela se sentou com a gente para discutir como a culinária do "movimento hipster barbudo" mudou Williamsburg para sempre.

Assista ao The Home of Hot Sauce

VICE: Como você descreveria o adobo que conhece comparado com o de Batali?
Rosie Perez: Você pode usar adobo para quase qualquer coisa na cozinha porto-riquenha. Estou falando sério. Pode perguntar para qualquer latino do Caribe. Você pode colocar isso no bife, no frango, no arroz, no feijão; em quase tudo. Adobo é uma mistura de temperos especiais, mas claro, o principal tempero é o sal. Ele também leva alho em pó, pimenta se você gostar, mas depende. Em vez de abrir alguns temperos secos, você joga tudo num triturador. Quando o Mario fez adobo para mim, fiquei surpresa. Não era o adobo da minha infância, mas era muito bom.

Quando você era criança, que tipo de opções de comida vocês tinham em Williamsburg?
Só tinha um ou dois mercados grandes. Hoje o bairro não tem mais um monte de lojas familiares especializadas. A gente costumava ir até a área polonesa para comprar salsicha. Quando era criança, eu achava isso nojento: você pedia o que queria na sua salsicha e eles faziam na hora, na sua frente. Não era uma coisa artesanal e com certeza o cara no balcão não tinha barba. Eram negócios de família, e claro que a gente conversava por uns dez minutos e perguntava "E a família?", só depois pedia a carne. A mesma coisa na peixaria e a mesma coisa na loja que vendia frango. Você comprava o frango vivo e eles cortavam o pescoço na hora. Eu via aquilo e pensava "Meu Deus!"

Minha tia me criou; ela foi uma mãe para mim. Juntas a gente cumprimentava e conversava com todos os donos das lojas, o que era ótimo. Quando fiquei um pouco mais velha, às vezes ela me mandava sozinha [às lojas] e eu conversava tanto quanto ela. Eu costumava achar um tédio toda essa conversa, mas quando fiquei mais velha virei a minha tia.

"Algumas donas de casa transformaram sua cozinha num negócio. Elas vendiam comida caseira para o pessoal que morava nos conjuntos habitacionais. Você passava no apartamento delas e pegava o jantar para a família inteira. Você não vê mais isso em Williamsburg."

Você costumava comer fora no bairro?
Como minha tia trabalhava, acabamos nos mudamos para Bushwick, onde algumas donas de casa transformaram sua cozinha num negócio. Elas vendiam comida caseira para o pessoal que morava nos conjuntos habitacionais. Você passava no apartamento delas e pegava o jantar para a família inteira. Era incrível. Você não vê mais isso aqui. A gente costumava passar na casa dessa senhora italiana e ela não deixava a gente entrar no apartamento porque éramos porto-riquenhas [risos]. A gente tinha que ficar esperando no corredor [risos]. A gente pedia o que queria e ela trazia pra gente. E a senhora da torta! Meu Deus! Ela só fazia torta e pudim de banana com Wafers Nilla!

De fabricantes de chocolate a torradores de café e açougueiros, parece que está acontecendo uma invasão da culinária artesanal barbuda em Williamsburg hoje. O que você acha disso?
Por um lado, o movimento hipster em Williamsburg é muito estranho para mim, mas por outro, eu entendo. Cresci na área quando o hip hop nasceu. Fui parte disso. As pessoas olhavam para a gente quando éramos garotos e diziam: "Meu deus, olha esses hip hoppers! Esses garotos usando calça justa e correntes", tudo isso. O que é estranho nesses barbudos é que eles agem tipo "ah, eu cultivei essa barba porque sou um cara da terra e curto granola". Não, você é parte de uma moda, mas se isso funciona pra você... Se usar camisa de flanela te faz sentir bem então vai em frente. Acho os hipsters estranhos porque a gente era adolescente quando estávamos no movimento hip hop.

"Se usar camisa de flanela te faz sentir bem, então vai em frente."

Se você passava dos 25 anos e ainda se vestia daquele jeito, as pessoas começavam a te olhar estranho. É esquisito que essa moda tenha se espalhado entre os adultos, que tentam negar que isso é uma moda. Estive no Maine recentemente, entrei num mercado, vi um bando de caras de barba e disse: "Olha todos esses hipsters!" Eles ficaram putos e disseram "querida, a gente criou esse visual, OK? A gente é assim há anos". Essa cara disse "olha só o meu pai!" (O pai dele era um cara de 60 anos que parecia um hipster.) Eu não conseguia parar de rir. É só isso que vou dizer sobre essa besteirada de granola.

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Ouvi dizer que você é uma ótima cozinheira. Com que frequência você cozinha em casa?
Praticamente todo dia.

Então qual é seu jantar normal?
Ontem eu fiz frango grelhado. Aí tirei o frango da panela e fiz um molho de cogumelos com alho. Também fiz arroz branco com repolho para o meu marido, ele adora meu frango com molho. Na noite anterior eu tinha feito macarrão com molho marinara, mas coloquei azeitonas kalamata no molho. Sei que parece meio estranho, mas fica muito bom. Aí eu fiz a receita secreta que o Mario Batali mataria alguém para conseguir: coxa de frango assada e frita. Fica muito crocante, é nojento de tão gostoso. Hoje vou fritar uns bolinhos de caranguejo para o meu marido com arroz e feijão. Gosto de misturar os pratos que preparo a não ser que eu tenha companhia.

Os tempos são outros para comprar ingredientes hoje. É muito conveniente pedir as compras pela internet da feira local e lojas com uma grande diversidade de produtos. Como você faz compras hoje?
Eu faço uma grande compra num supermercado, mas com coisas como peixe, eu preciso comprar no dia. Se é carne — que eu não como, mas meu marido come — eu compro carne fresca. Mas em se tratando de coisas como frango, arroz, comida congelada, macarrão e salada, eu compro tudo no supermercado porque vou comendo durante a semana. Não gosto mais de sair para fazer compras hoje em dia. Para comprar frutos do mar, preciso ir até o Prospect Heights no Mermaid's Fish Market, ou até Cobble Hill para comprar carne boa no Staubitz Market. Mas também posso ir até Williamsburg comprar as almôndegas de qualidade do Lorimer Market, mas com esse trânsito e o monte de gente que vai lá agora, é um puta saco.

Tem algum restaurante old scholl no bairro que está lá desde que você era criança?
Quando eu era menina, eu costumava ficar na frente do Bamonte's — que sempre esteve em Williamsburg — porque diziam que eles tinham envolvimento com a máfia. A gente queria ver os mafiosos entrando, os carros deles, os móveis lá dentro, coisas assim. Mas eles diziam "Fora daqui, seus porto-riquenhos!" [risos] Era muito emocionante ir até lá, e quando eu já era adulta, pude finalmente frequentar o lugar. Fui lá com o Quentin Tarantino e ele adorou o lugar.

O que você pediu?
Pedi linguado refogado no limão e penne à la vodca. E muito vinho tinto.

Lugares como o Bamonte's mantém o velho Williamsburg vivo. Eles ainda estão lutando contra as barbas. Do que mais você sente saudades no bairro?
Fora a comida deliciosa — porque nada supera a cozinha familiar — sinto falta do Commodore Theater que ficava na Broadway. Também sinto falta do tempo em que as pessoas se cumprimentava na rua. Sinto muita saudade disso.

Para onde você acha que foi essa vibe do bairro?
Pra baixo daquelas malditas barbas.

Tradução: Marina Schnoor

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