Estamos Vendo a Guerra Bicicletas X Carros do Jeito Errado?

Esse choque de civilizações às vezes é engraçado, porém também pode ser mortal.

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ago 13 2015, 10:30am

Porcaria de carros. Foto por Janice D'Avila.

Nas grandes cidades do mundo, o conflito bicicletas versus carros parece piorar a cada ano. O trânsito matinal é um festival de xingamentos que daria para encher uma seção de comentários da internet. Os dois meios de transporte não colidem apenas nas ruas, mas filosoficamente, colocando subúrbio contra centro, as elites liberais contra os conservadores, Davi em duas rodas versus Golias em versão caminhonete.

Esse choque de civilizações às vezes é engraçado, porém também pode ser mortal.

Agora, a treta sobre qual meio de transporte é mais eficiente para navegar na cidade chegou aos cinemas.

O documentarista Fredrik Gertten decidiu apitar sobre essa dicotomia, mas sem caracterizá-la como tal – apesar de o título do filme, Bike vs Carros, ser sobre o perigo, o desdém e o debate que embalam as avenidas do mundo, mostrando quem é o verdadeiro inimigo natural das bicicletas: governos altamente influenciados pela receita das indústrias de automóveis, combustível e construção.

Vídeo via Daily VICE.

"Não podemos culpar os indivíduos", Gertten disse à VICE, na semana passada, em Toronto, durante a estreia do filme no Canadá. "Não são as pessoas que dirigem carros, não são os ciclistas que se arriscam – é o planejamento urbano que está errado... o planejamento das cidades mata."

BvC é menos sobre brigas de rua e ambientalismo, e mais sobre a grande indústria e as grandes ideias que se perdem quando as pessoas não cortam o problema pela raiz.

"A indústria automobilística está experimentando coisas como carros que se dirigem sozinhos, coisas idiotas que eles acham que vão criar uma sociedade melhor", diz Gertten. "Mas isso não está mudando o paradigma – só o confirmando.

"A questão é que tem muita gente que não quer mudar o mundo. Acho que temos de apontar essas pessoas. A indústria automobilística não quer realmente mudar o mundo. Ela quer continuar existindo."

Gertten é da Suécia – onde as mortes de trânsito recentemente bateram recordes de queda graças à interferência do Parlamento –, embora Copenhague, Dinamarca, seja retratada como a utopia das bicicletas, com mil quilômetros de ciclovias e a seguinte média: a cada 5 pessoas, 4 possuem magrelas. Um grande contraste com Toronto, onde o ex-prefeito Rob Ford denunciou a " guerra aos carros" em seu primeiro dia no gabinete.

Fredrick Gertten encontra colegas ciclistas em frente ao Bloor Cinema, Toronto. Foto do autor.

Mas em BvC, Los Angeles e São Paulo são os lugares onde o filme mostra como os governos podem ditar a disponibilidade de infraestrutura para seus cidadãos.

O filme argumenta que o carro, um meio de transporte macro, simplesmente não está funcionando, apesar da retórica de vendas de que isso representa liberdade. Los Angeles, onde menos de 1% da população usa bicicleta para locomoção , já teve um sistema de trânsito de causar inveja ao mundo até isso ter sido supostamente comprado pela indústria do automóvel e desmanchado em favor de gigantescas vias expressas, que aparentemente criam horas e horas de congestionamento – embora alguns digam que isso é mito . BvC argumenta que o poder de lobby da indústria automobilística se tornou tão grande que pode eliminar seus competidores no trânsito rapidamente.

No filme, Raquel Rolnick, professora de planejamento urbano da Universidade de São Paulo, informa que 60% dos espaços na cidade brasileira são para ruas, vias expressas e estacionamentos; Gertten, por sua vez, adiciona mais um fator à equação: segundo ele, os carros elétricos – assim como os veículos sem motorista – vão tirar ainda mais espaço dos ciclistas e pedestres.

Enquanto isso, Joel Ewanick, ex-chefe de marketing da GM, Hyundai e Porshe, explica por que o carro "faz você se sentir melhor sobre si mesmo". Para muitos, a sensação de ter um carro ainda deriva dos comerciais das montadoras: um cara dirigindo sozinho numa estrada vazia a toda velocidade.

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Essa pode ser uma fantasia antiga para os jovens da América do Norte, que dirigem cada vez menos, mas ainda é uma questão existencial global com mais gente do que nunca presa nesse engarrafamento. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta que o número de veículos nas estradas do mundo vai dobrar para 2,5 bilhões até 2050.

"O carro surgiu como uma ferramenta de liberdade, porém não é mais isso", diz Gertten. "Se você depende de um carro para chegar a algum lugar, isso não é liberdade. Se você mora num lugar onde possa dizer 'Hoje, vou de bicicleta; amanhã, vou de ônibus; sexta, vou de carro', então isso funciona."

"A vida é complicada, e não estou apontando o dedo para quem tem carro", frisa o diretor. "A principal característica do filme é falar sobre coexistência: 'Isso não é uma guerra, é uma cidade' é a última fala do filme."

Os últimos dois títulos do diretor foram Bananas! (2009) e Big Boys Gone Bananas! (2012), que versavam sobre a empresa de alimentos Dole, que processou o diretor por difamação (a companhia acabou desistindo do caso e teve de pagar taxas legais a Gertten ).

O diretor de Bike vs Carros, Fredrick Gertten, foi de bicicleta até a estreia de seu filme no Bloor Cinema, Toronto. Foto por Martin Reis.

"Entendi que, para fazer esse filme sobre bicicletas, eu teria de me concentrar também no outro lado. Quem são os caras que não querem mudar o mundo? Sempre quis fazer um filme sobre planejamento urbano e bicicletas, porém, de repente, entendi como fazer isso. Se você fizesse um filme sobre todas as vantagens da bicicleta, seria chato. Você precisa de uma resistência."

Num dos segmentos, Gertten passa o microfone para Ewanick (o ex-chefe de marketing de três grandes montadoras), que explica que nenhum executivo da indústria é totalmente antipático ao meio ambiente, mas é da natureza deles lutar pela sobrevivência de sua indústria. É um argumento que muitos ciclistas desprezariam; o diretor, no entanto, não toma lados.

"Acho que todos nós estamos no meio disso", ele destaca. "Quem trabalha na mídia tem muitas propagandas de carros. Se é cineasta, você faz muitos comerciais de carros. Esse dinheiro está por toda parte – e é muito dinheiro. Ao mesmo tempo, vivemos uma crise global. E, se isso é perigoso, devemos fazer alguma coisa, certo? Isso não quer dizer que temos de nos livrar de todos os carros, e sim encontrar maneiras de construir cidades e criar uma vida boa para todos."

Esse é um filme de bicicletas não só para ciclistas. Enquanto defensores dos carros e das bikes perdem a paciência e o governo dá vantagem para a indústria automobilística, o documentário de Gertten faz os dois lados largarem as pedras, sentarem e assistirem ao filme.

"Quando filmes funcionam, eles te atingem no estômago", afirma Gertten, que foi jornalista por anos. "Isso pode ter um impacto emocional e fazer as pessoas pensarem: 'Caramba, tenho de mudar'."

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Tradução: Marina Schnoor

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