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O Wu-Tang Clan Fala Sobre Obama, Rap Gay e ODB

Num saguão de hotel, troquei ideia com o U-God e o Ghostface Killah sobre política, pobreza, o passado e peitos.

por Por Miguel Cullen, Fotos: Verena Stefanie Grotto
09 Setembro 2013, 4:00pm

O Wu-Tang Clan já tem 20 anos nas costas. E, diferente de outros músicos que conseguiram chegar à marca das duas décadas, eles nunca dependeram de discos de grandes sucessos reempacotados ou shows em matinês de teatro pra manter o sonho vivo. Talvez porque eles sejam o maior grupo de hip hop de todos os tempos, talvez porque não valha muito a pena lançar compilações quando se tem oito membros lançando discos novos todo ano. O Clan continua lotando shows do mesmo jeito que fazia quando o 36 Chambers foi lançado.

No começo do verão, eles completaram a volta final de sua turnê de 20 anos em Londres e dei um jeito de encontrar os caras no saguão do hotel Shepherd's Bush. Quando cheguei lá, todos os oito membros estavam presentes e sentei com o U-God e o Ghostface Killah pra falar de política, pobreza, o passado e peitos.


U-God

VICE: Vamos começar com uma pergunta pesada: O que vocês acham do Obama, global e localmente?
Ghostface Killah: O George Bush não faria as coisas que ele está fazendo. O Obama é só um fantoche — ele é uma marionete numa cadeira. A lei do casamento gay — você acha isso zoado? Quando ele sair, eles vão pôr a culpa nele: o presidente negro. Ele vai ficar conhecido como a porra do primeiro presidente negro que matou Osama e Gaddafi. Alguns desses caras eram bons; eles estavam tomando conta dos países deles. As pessoas só votaram nele porque ele é negro. Elas nem sabiam por que estavam votando nele — se ele estava certo ou errado.

O que você acha da cena do rap gay?
Não posso falar de rap gay, ou rap retardado... Tanto faz. Faça o que você faz; eu não vou ouvir. Não presto atenção, na real. Como eu disse, não é minha praia — cada um na sua. No final das contas, somos todos pessoas.

U-God, você mencionou recentemente que o ego do Kanye estava se tornando estratosférico.
U-God: É o que falo quando quero dizer fora de controle [risos]. O círculo dele provavelmente não fala nada. Tipo: “Cara, não”. Volta pra casa, mano. Volta pra casa, Kanye. Não vire um cadete espacial, cara, não tem nada lá. Vamos perder os manos. O espaço é um vácuo.


Ghostface Killah

Qual é sua opinião sobre a cena do rap gay?
Pessoalmente, não dou a mínima se você é gay. Esse é o seu negócio. Sua preferência sexual. Mas não venha aqui querendo me fazer gay — você não vai conseguir forçar isso em mim, sabe? Mas se você for legal, for talentoso e gay? A gente pode curtir, mano! Podemos beber, podemos fumar, podemos rir. Mas não tente trazer essa merda pra cá. É como peitos. Eu curto peitos. Eu curto peitos. Eu curto peitos. Eu curto dois pares, eu curto quatro pares de peitos de uma vez.

[Method Man chega e senta a alguns metros de distância no saguão.]

Ele deixou meu banheiro fedendo. Ele deixou um troço enorme no meu banheiro. Ninguém caga na porra do meu banheiro. Esse cara tá cagando na porra do meu banheiro.

[Method Man grita, “patológico” na nossa direção.]

U-God: Não, não sou. Não acredite numa palavra do que ele está dizendo — é ele o mentiroso aqui.

Method Man: Ele é um mentiroso patológico. A língua dele toma esteroides. Quando ele tinha 15 anos, ele pegava toda a mulherada da vizinhança. Playboy. Elas gostam dos olhos claros e da pela morena dele.

Muita mulher aqui em Londres?
U-God: Ele [o Method Man] pega mais mulher que todo mundo falando toda essa merda.


Method Man

OK, voltando aos negócios. Falem sobre a faixa “The Room Keeps Spinning” do disco novo, o Keynote Speaker.
Eu estava fodido. Foi uma daquelas noites quando você pensa: “Uau, o que está acontecendo?” Acho que era ecstasy ou alguma outra merda que ela tinha me dado — um negócio fodido. Quando coloquei o negócio na língua, eu não conseguia me mexer — fiquei me sentindo um vegetal. O primeiro verso é sobre minha namorada dirigindo bêbada.

Então era uma época caótica em sua vida?
Bom, sem caos você não tem nada sobre o que escrever. Sobre o que você vai falar se ficou em casa a noite inteira e não fez porra nenhuma? Você pode ficar de esnobismo o dia inteiro — o dia inteiro com mordomos e empregadas — mas e aí, sobre o que você vai escrever? Não vai acontecer, cara.

O que vocês acham do cloud rap?
Ghostface: Eu dei isso pra eles — deixe eles se divertirem. Quando eu tinha 18, 19 anos, também me diverti.

Acho que eles curtem uma diversão com mais purple drank do que vocês curtiam.
É! Eles estão mais num clima de festa, eles não curtem tanto as letras. Tipo, a gente tinha as letras — eles curtem mais a festa. A gente tinha: “I grew up on the crime side / the New York Times side / staying alive was no jive”. Sabe, “C.R.E.A.M” e tudo mais. São letras diferentes, tempos diferentes.

Vocês acham que eles não viram a pobreza que vocês viram?
Não, é só que isso muda. Todo mundo vê pobreza — bom, a maioria. Talvez eles não tenham que passar pela pobreza que a gente passou. Agora posso comprar os tênis do Jordan pros meus filhos — a gente pensa assim. Mas, pra nossa geração, a da nossas mães — eles não passaram por isso.


U-God

Voltando a essa época, U-God, como você acabou se juntando ao Clan?
U-God: Foi por meio da Cappadonna. Foi uma situação estranha, porque eu conheci o RZA e, conforme o tempo passou, fomos ficando próximos. Mas como grupo, a gente não tinha as batidas. Então tivemos que suplementar isso com o beatbox.

E suas rimas?
Eu estava só brincando e o RZA me deu as primeiras batidas pra levar pra casa, só pra experimentar. E eu caí matando. Eu, o Meth e o Deck; os nomes das músicas eram “I Get Down for My Crown”, “Let Me Put My Two Cents In” e algumas outras. Começamos a espalhar essas faixas pelo grupo, elas começaram a se espalhar pela cena e foi tipo “Yo!” — o negócio já tinha as próprias pernas.

Mas o mais engraçado foi que, na escola, as pessoas diziam: “Ah, você não é o Big Daddy Kane, você não é o Public Enemy, o EPMD”. O pessoal da escola nem imaginava que a gente ia se tornar superlendário.

Por que você não teve uma participação tão grande no Enter the Wu-Tang (36 Chambers)?
Porque eu estava preso [durante a gravação]. Caí numa situação onde eu podia ser um cagueta e ir pra casa, ou teria que ir pra a cadeia. E eu fui pra cadeia. Minha vida podia ter sido muito diferente, sabe? Eu me agarrei à minha moral, cumpri minha pena e fui pra casa. Era o tipo de merda típica pela qual as pessoas negras do gueto são presas, drogas e armas. Não era estupro nem assalto.

Lembro que pra a “Da Mystery of Chessboxin”, o RZA me pegou e disse: “Você tem que rimar nessa!” E logo depois fui preso. E foi isso.


Ghostface no palco.

Você lembra onde escreveu seu verso pra essa música?
Não, mas sei que o RZA queria isso pra outra batida originalmente. Mas ele queria que eu mandasse aquele verso nessa batida. As rimas que eu falo agora — não sei de onde elas vieram. O God veio e me deu as palavras.

O que aconteceu com a velha cena, quando aconteciam umas coisas loucas como o ODB aparecer num show no Hammerstein Ballroon bem quando a polícia estava atrás dele?
A gente estava saindo das ruas e crescendo. O ODB era o ODB — aquela coisa toda. Essas merdas não acontecem mais. Agora é tudo muito chato; o jogo é chato. É tudo brega. Não tem mais zoeira. Não tem mais essas grandes merdas. Todo mundo tem carro e só come mostarda Dijon. É a maior esnobação agora — todo mundo arrogante e metido. Não tem mais essas merdas encardidas e corajosas acontecendo. Foi tudo pra Disneylândia.

Por último, em todos esses anos que vocês estão juntos, as pessoas vêm tentando classificar o som geral do Wu-Tang. O que vocês diriam pra essas pessoas?
É difícil falar do estilo Wu-Tang como um estilo coletivo. O negócio com a gente é que todo mundo traz seu próprio estilo, seu próprio jogo de palavras — Raekwon, Ghostface, todo mundo... quando fazemos o posse cut, isso é o poder. Esse disco novo, Keynote Speaker, é meu Illmatic. Adoro o Nas, então, com esse álbum, estou tentando levantar minha bandeira; o “W” — o “W” vai continuar voando. Um dos meus garotos pode se machucar, mas eles não vão ultrapassar minha linha, só sobre o meu cadáver. Não está acontecendo. É o Sargento Hawkins falando.

O disco novo do U-God, Keynote Speaker, já está à venda.

Veja mais do trabalho da Verena no site dela.

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A Verena faz uma coluna pra gente chamada New York State of Mind, clique aqui pra sacar. 

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