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Como H.R. Giger inventou o monstro mais assustador da ficção científica

Leia um trecho do novo livro da Taschen sobre a obra do gênio suíço que criou toda a caracterização de "Alien", filmado por Ridley Scott.

por Andreas J. Hirsch
04 Novembro 2016, 1:00pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

Abaixo você lê um trecho da compilação lançada pela Taschen sobre o falecido H.R. Giger, reunida por Andreas J. Hirsch, um fotógrafo e escritor que fez a curadoria de várias exposições do trabalho de Giger. Todas as imagens são uma cortesia da Taschen.

Na primavera de 1978, logo depois de completar 38 anos, o artista suíço H.R. Giger escreveu em seu diário:

18 de maio de 1978. O trabalho no filme está em pleno andamento. A construção da nave espacial está quase concluída. Ficou incrível. Pequenos modelos da paisagem e da área de entrada da espaçonave foram feitos. As pessoas que a construíram não têm a menor ideia da minha arquitetura. Eu disse que eles precisavam conseguir ossos e construir um modelo com massa de modelar...

Na época, H.R. Giger já era um pintor de sucesso e suas visões sombrias num estilo que ele batizou de biomecânico estavam por toda parte: em cartazes populares que apareceram no final dos anos 60; no livro ilustrado Necronomicon, com seu design; e em capas de discos como Brain Salad Surgery de Emerson, Lake & Palmer de 1973. Mas o projeto em que ele estava trabalhando agora o transformaria numa figura cult global e num vencedor do Oscar. O diretor Ridley Scott tinha contratado Giger para criar o mostro de seu filme Alien. Então o artista foi para o Shepperton Film Studios, nos arredores de Londres, para realizar seu design para o mundo de Alien com as próprias mãos.

Necronom IV (1976).

Foi uma pintura em Necronomicon que imediatamente convenceu Scott de que Giger precisava estar envolvido na criação da criatura alienígena: Necronom IV (1976), um dos trabalhos-chave da obra dele. A imagem mostra o torso de um ser que tem traços remotamente humanoides. Seu crânio é extremamente alongado, e seu rosto é reduzido a dentes e olhos como os de um inseto. Mangueiras saem de seu pescoço, e suas costas são dominadas por extensões tubulares e caudas reptilianas. O órgão sexual masculino é significativamente estendido e curvado sobre a cabeça. O membro se abre numa protuberância transparente, onde um ser esquelético é visível como um santo num caixão de vidro.

O corpo todo parece ser mantido sob uma tensão que se mantém com facilidade. Apenas os braços estão próximos da forma humana, apesar de arames e faixas mecânicas serem visíveis sob a pela translúcida e seu material lembrar menos tecido e mais uma escultura medieval em madeira. A posição das mãos do canto direito da imagem também se destacam: elas parecem ter sido tiradas da iconografia dos altares medievais. Os dedos elegantes contrastam muito com o semblante impiedoso da criatura. As mãos parecem querer agarrar algo que está além, como se a criatura quisesse alcançar ou manipular magicamente uma coisa fora do alcance.

A figura ocupa todo o plano da imagem e permite apenas um vislumbre do fundo orgânico, que é dominado por formas viscosas e sem nenhuma profundidade espacial. Não há indicação de onde a criatura pode estar no espaço ou no tempo, mas ainda fica óbvio que ela não pode ter vindo do mundo que conhecemos.

Erotomechanics VII (Mia und Judith, first state), 1979.

Para conseguir transformar sua criatura pintada num monstro para o filme, o artista teve que submetê-la a uma transformação completa. A pintura original fascinou tanto Ridley Scott que ele pediu a Giger para desenvolver uma "história natural" completa baseada no roteiro de Dan O'Bannon, o que acabou produzindo o monstro final do filme. O caráter mortífero da criatura, que já é perceptível na pintura, se transformou numa letalidade aplicada que age através da dinâmica de movimento do filme. Entre esses dois estágios estava o processo criativo e artístico de criar e produzir as figuras necessárias, o que Giger fez praticamente sozinho. O processo resultou numa mistura de fascinação e nojo que encontramos no Necronom e — com um senso ainda maior de terror — no alienígena. O monstro de Giger representa um ponto de guinada na ficção científica e nos filmes de terror: Alien trouxe uma forma de vida mortal de um espaço que nunca tinha sido visto antes.

NY CITY II (1980)

Os traços que o trabalho de Giger deixou em diversas áreas — pintura e cinema, capas de disco e na cultura da tatuagem, além de nos gêneros de ficção científica e fantasia — transformam sua obra numa "Pedra de Roseta", combinando várias "linguagens" que ainda precisam ser traduzidas. O trabalho de Giger hoje parece um código que ainda está longe de ser desvendado.

Visto em termos de história da arte, temos um artista cujo trabalho, apesar de inspirado no surrealismo e simbolismo, era altamente autônomo e difícil de classificar. Ele já tinha dado uma contribuição distinta para a arte fantástica do século 20 antes de seu trabalho em Alien. Suas ideias biomecânicas ainda estão se desenvolvendo independentemente em disciplinas como arte de mídias e bioarte, menos como uma influência estética e mais como ideias influenciando uma abordagem conceitual.

Cthulhu (Genius) III (1967).

Depois temos a leitura do trabalho de Giger focando em mitologia e psicologia, examinando o papel de medos individuais e coletivos em sua abordagem, que não é apenas figurativa ou narrativa, mas também pode ser entendida de maneira moderna como a criação de uma mitologia. Uma obra tão densamente povoada com arquétipos e seres de um futuro pós-humano, que está muito além das noções aceitas de realidade e que é tão rica em símbolos, formas e temas da tradição oculta, também pede uma leitura que inclua interpretações dos campos da alquimia, astrologia e mágica.

A diversidade das leituras dos temas arquetípicos esboçados acima, de sonho e trauma, nascimento e morte, significa que é possível preencher toda uma biblioteca — uma "bibliotheca gigeriana", apesar de fictícia no momento — sobre o desenhista, pintor, escultor, diretor e designer H.R. Giger.

The Spell II (1974).

Andreas J. Hirsch é um fotógrafo, escritor e curador que mora em Viena, na Áustria, onde ele tem feito a curadoria de exposições de H.R. Giger, Pablo Picasso e Friedensreich Hundertwasser.

A história editorial da Taschen com H.R. Giger vem desde o meio dos anos 80 e inclui edições limitadas de 'Hologramm' e o www.hrgiger.com. O projeto dessa extensa monografia vem de dez anos atrás, e inclui colaborações e curadoria direta de Giger, além de novas fotografias de suas obras em coleções particulares pelo mundo todo. Giger morreu em 2014 e nunca pôde testemunhar a impressão final de seu opus magnum, mas o livro funciona como um testemunho de sua obra prolífica e visão extraordinária.

A edição limitada da monografia de H.R. Giger está disponível para encomenda no site da Taschen.

Veja mais imagens do livro abaixo.

Tradução: Marina Schnoor

Biomechanoid 75 (1975).

Gebärmaschine (1967).

Alien III (Front view II), 1978.

Hommage à Böcklin, 1977.

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