Os bastidores da estreia de Tori Black no pornô de realidade virtual

Por que não participar de uma orgia virtual com as pessoas de sua escolha em vez de assistir passivamente a uma versão em 2D disso?

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02 janeiro 2017, 11:00am

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Tori Black está deitada nua num sofá otomano. Suas pernas estão abertas. Ela está no que parece ser um provador improvisado, com cortinas brancas e 44 câmeras apontadas diretamente para sua vagina.

"Você quer que eu faça uma pose com a minha boceta?", ela pergunta.

"Um minuto", alguém grita dos bastidores. "Você pode abrir as pernas um pouco mais?"

"Esses grandes lábios são incontroláveis!", Black responde por detrás da cortina. Uma equipe pequena formada só por homens atrás de uma série de monitores está do outro lado, escaneando os resultados do trabalho de Black.

Estamos numa área industrial decadente nos arredores de Toronto, no Canadá, no que parece ser — de fora — um prédio abandonado. Antes o local abrigava a igreja Cavaleiros de Colombo. Agora o prédio é o lar da Holodexxx, uma empresa que faz pornô em realidade virtual.

Black está ali para criar seu avatar virtual. O produto final se tornará um videogame adulto, no qual os jogadores podem "viver suas fantasias sexuais". Black não está mais nesse ramo, mas seu nome ainda é bem conhecido na indústria, e hoje, ela está congelando seu eu de 27 anos no tempo para sempre.

Black está com o nariz entupido e é difícil respirar. Ainda assim, cercada pelo time da Holodexxx e a equipe de filmagem da VICE, ela está totalmente de boa com o fato de ser o alvo de tantas câmeras e a única pessoa nua na sala. Alguns tentam não encarar a xoxota exposta da moça, mas sinto que ela não se importa se a gente olhar ou não.

"As pessoas sempre me perguntam 'como você fica tão confortável pelada?'", ela diz, como se estivesse lendo meus pensamentos.

"Bom", ela diz, olhando para um relógio inexistente em seu pulso, "estou pelada há uns dez anos agora. Por isso."

Ela faz todas as poses que um parceiro sexual pode desejar. Ela se agacha. Empina a bunda e olha para trás com um olhar safado, com o dedo na boca. Ela fica de quatro e mexe apenas o bumbum.

Black não é a primeira atriz pornô a renascer no mundo virtual. As pessoas já estão usando equipamento de RV para propósitos sexuais. A VICE fez um documentário explorando o tópico em 2014. Mas o advento da realidade virtual, assim como toda grande tecnologia, levanta várias questões morais: e o consentimento? Como as fronteiras do mundo real serão respeitadas no virtual? Quais as implicações aqui para a intimidade física de humano para humano? O que acontece com um avatar se o sistema for hackeado? Isso realmente importa?

Mas primeiro, é assim que o jogo funciona. Você precisa de um headset como o Aveganr Glyph ou o Oculus Rift do Facebook — que, aliás, não aprova o uso de seu sistema para conteúdo adulto, mas também não bloqueia coisas assim. No momento, o jogo foi criado para que o jogador tenha dois controles, que ele usa como mãos para fazer o que quiser com os personagens do jogo. Logo teledildonics também farão parte da equação.

As pessoas que serão as personagens do jogo são escaneadas, entrando num anel customizado de RV, com 112 câmeras Canon Rebel montadas em vários pedestais num forma que lembra vagamente um quadrado. As câmeras registram o tema de todos os ângulos, e através de um processo de edição relativamente rápido, transformam a pessoa numa versão 3D dela mesma.

A equipe da Holodexxx ambiciosamente afirma que, muito em breve, a realidade virtual vai ser ainda mais onipresente que os celulares, mas ainda não está claro quando isso vai acontecer. Um dos membros do time diz 10 anos, outro 20.

Para quem é o jogo?

Os homens no comando da empresa são Morgan Young, Craig Alguire e Chris Abell. Eles estão trabalhando na Holodexxx nos últimos oito anos. Young e Alguire vêm do mundo dos videogames, e o background de Abell é no cinema. Eles começaram sua operação atual com 12 câmeras, até que Abell, o diretor-criativo, entrou no negócio e comprou mais 60 câmeras. Eles trabalhavam no quarto de Young até que o anel de câmeras ficou grande demais. Aí todos largaram o emprego para trabalhar com pornô em RV em tempo integral.

E eles pegaram o ritmo rápido e dão direções claras: "Certo, faça beicinho em 3, 2, 1!" é o tipo de coisa que Abell grita por trás do monitor.

Abell é responsável por escrever 200 e poucas linhas do roteiro. Os scripts incluem várias instruções que as mulheres usam quando querem que o parceiro goze, como "mais forte", "mais rápido" e "me fode".

As falas me fazem pensar para quem é o jogo. Até agora, apenas um artista escaneado não era uma mulher mediana. Elas vêm de várias etnias, mas todas têm o corpo clássico de atriz pornô. No momento, os avatares podem ser editados para ter peitos ou bundas maiores, mas não podem ser feitos mais gordos sem prejudicar a qualidade realista da imagem. Um homem foi escaneado, mas perguntei à equipe se haverá mais foco em lançar entretenimento para mulheres, e se pessoas plus size, queer e trans também serão escaneadas.

Morgan Young diz que representar todos os tipos de corpos, gêneros e orientações é importante conforme o jogo for evoluindo.

"Temos uma oportunidade no momento de resetar como a indústria avança", diz ele. "Somos três caras jovens. Não queremos parecer chauvinistas. Estamos fazendo um esforço concentrado para ter certeza que todo mundo seja representado igualmente."

Young diz que essa é uma boa oportunidade para que as pessoas ganhem mais controle sobre suas identidades. "Acredito que será quase como uma renascença. As pessoas vão poder explorar sua sexualidade de maneiras como nunca puderam antes."

"É muito louco porque as pessoas podem não escolher se representar no espaço virtual da maneira como são no mundo real", diz Young. "Sabe, posso estar falando com você e você gosta de lagartos, então você é um grande lagarto. E eu sou um homem em forma de sorvete de casquinha. Mas é assim que escolhi me apresentar no avatar, então tudo bem. Mas ainda podemos entrar num espaço e ter uma conexão excitante, interativa e íntima um com o outro."

"[Você pode] assumir o corpo, o gênero e a raça que quiser, e ainda ser você mesmo e explorar sua sexualidade. É incrível; estamos neste mundo para que as pessoas possam fazer exatamente isso."

Abell acrescenta que quem enfrenta bloqueios sexuais pode superar o problema numa paisagem virtual relativamente segura. Se alguém quer experimentar sexo grupal mas tem medo, por exemplo, ou se a pessoa é mais velha e nunca fez sexo, ela pode tentar no jogo primeiro.

O jogo pode ter um papel importante em ajudar pessoas a se sentirem validadas, mas também pode tornar uma relação preexistente entre duas pessoas muito mais poderosa. Jogos como esse, por exemplo, trazem uma nova dimensão para relacionamentos de longa distância. Através do uso de teledildonics, as pessoas podem dar prazer ao parceiro de qualquer lugar.

Analisando a ética do metaverso

O pornô RV tem seu lado positivo — a exploração "segura" de desejos sexuais não-mapeados, a possibilidade de fazer sexo num relacionamento de longa distância usando teledildonics, e até um modo mais interativo de assistir pornografia —, mas há questões éticas que entram em jogo aqui.

Como você garante que os limites de um artista pornô não sejam ultrapassados no mundo virtual? Até que grau isso importa? O que acontece se alguém hackear o jogo e ganhar o controle do avatar de alguém? Existe estupro virtual?

A Holodexxx diz que problemas com hackers é um risco que todo mundo da indústria precisa enfrentar. Músicas e filmes são hackeados, e esse jogo é tão suscetível quanto qualquer outra coisa.

"Não há muito que podemos fazer sobre isso", diz Young. "Não há muito que uma pequena start up possa fazer para prevenir algo assim." Ele diz que o grupo vai colocar medidas de segurança razoáveis para proteger os jogadores (e seus avatares), mas a longo prazo, isso é uma aposta para todos os envolvidos.

Embora a empresa não possa garantir a segurança de seus avatares para sempre, Young explica que qualquer limite que os artistas queiram ver respeitados dentro do jogo serão observados (apesar deles preferirem contratar pessoas com base em sua disposição de estar numa variedade de cenários sexuais).

"Estamos lidando com a semelhança de uma pessoa aqui, e agora isso não é mais uma aproximação. É uma realidade fotográfica... há um ser humano por trás desse avatar." Como resultado, ele quer ter certeza de que todo mundo esteja confortável. Isso significa que se um artista não faz um ato específico na vida real, o jogo vai restringir essa ação na vida virtual.

Mas até agora, a empresa não cruzou com nenhum obstáculo desse tipo.

Numa veia similar, é difícil não pensar sobre o ciclo de vida desses avatares. Depois que o contrato de exclusividade dos artistas com a Holodexxx acabar, o que acontece com eles? Eles se tornam zumbis? Há um limbo de avatares desempregados em outro mundo? Eles estão sendo vendados, amarrados ou escravizados? Young diz que não tem uma resposta.

"Não sei como a tecnologia vai evoluir em cinco anos, é difícil dizer." Mas ele afirma que o melhor que a empresa pode fazer é se esforçar para proteger seus artistas a longo prazo.

Pergunto a Black o que ela acha, se ela espera que seus limites no mundo real se apliquem a seu avatar no mundo virtual.

"Não ligo para o que meu avatar faz", diz ela, "porque meu avatar não sou eu. Então sim, todas as coisas que você quer quer eu faça mas eu nego, vá em frente e faça com o meu avatar e pode dizer 'Olha! Ela finalmente fez isso!' OK, ótimo. Isso não ultrapassa nenhum dos meus limites porque está tudo no computador... estou completamente desconectada."

Ela diz que a paisagem virtual do pornô é um lugar de exploração, e que aqueles desconfortáveis com a ideia de falta de consentimento não devem se envolver nesse negócio. Mas se a RV é o futuro do pornô, pergunto, o que as pessoas da indústria devem fazer? A resposta dela? "Encontrar outro trabalho."

É uma resposta dura, mas Black pode ter razão de que essa é a única opção para garantir o controle total.

Ainda assim me preocupo com a ética da questão. Então entrei em contato com Sonya Barnett, uma sexóloga e ativista feminista que também faz pornô, para ver se ela estava disposta a compartilhar algumas de suas opiniões sobre os problemas éticos em potencial do pornô em realidade virtual. Ela diz que não sabe se há um jeito de garantir que os limites do mundo real sejam obedecidos no mundo virtual.

"Por mais que eu queira dizer que a criação de um avatar seu / de uma atriz pornô/ de uma celebridade / de um vizinho — ou o abuso de um avatar que já existe — é algo que precisa ser policiado", diz a estudiosa, "as pessoas já fazem isso com seres virtuais: elas fantasiam sobre eles o tempo todo, seja assistindo a uma cena pornô em repeat, ou se masturbando com revistas, fotos ou bonecas".

Algumas comunidades virtuais policiam comportamento antiético denunciando conteúdo, mas isso pode ser impossível num mundo privado em RV. O ideal, Barnett explica, seria usar algoritmos para evitar o abuso — ou criação — do avatar de outra pessoa. Mas ela não está convencida de que isso é possível, ou que poderia erradicar o uso antiético.

"O que também é problemático é que o ônus fica sobre a pessoa que quer proibir o uso de sua imagem, que então precisa criar restrições para que esses algoritmos funcionem. É como criar uma 'proibição de publicação' da sua imagem."

E assim restam ainda mais perguntas. Barnett lista algumas:

"Se uma pessoa está usando ou abusando de um avatar em particular, qual o perigo que isso representa para a versão real da pessoa representada ali? Será que o reino virtual é um espaço seguro para as pessoas realizarem suas piores fantasias? Uma questão similar surge a respeito de pedófilos usando conteúdo animado ou ilustrado versus fotos de crianças reais, ou mesmo pessoas envolvidas em fantasias de estupro. Há dano em qualquer desses casos se não há uma pessoa real do outro lado?"

Até agora, ninguém parece ter essas respostas.

Quase luditas paranóicos como eu já expressam sua preocupação com as consequências em potencial quando se trata da intimidade humana real. Se uma pessoa pode entrar num jogo e "transar" com uma estrela pornô famosa, com um corpo considerado "perfeito" para os padrões de beleza ocidental, ela vai se preocupar em buscar uma conexão com outras pessoas?

Nesse ponto, Barnett não teme que a atividade em RV vá substituir a necessidade de intimidade física real. Mas para pessoas que não têm acesso a um parceiro de carne e osso, ela diz que "um parceiro virtual é melhor que parceiro nenhum".

Young acredita que o jogo vai melhorar, não piorar, a intimidade entre as pessoas. Disseram a mesma coisa, ele diz, sobre o nascimento do celular e da internet. Ele vê a RV como uma extensão das redes sociais.

"Não vejo [a experimentação com RV] como um muro, como uma coisa que você faz sozinho na solidão da sua casa. Acho que isso será uma experiência online multi-player duradoura. Você vai logar no metaverso e é lá que as pessoas vão passar o tempo."

Em outras palavras, por que não participar de uma orgia virtual com as pessoas de sua escolha em vez de assistir passivamente a uma versão em 2D disso?

O que vem agora?

Apesar de todos os temores, Young diz que a RV já é "grande demais para fracassar".

Ele acredita que o uso doméstico dessa tecnologia será comum até 2018. Ele prevê que as pessoas vão usar headsets não apenas para entretenimento em casa, mas "em espaços abertos, nas ruas, quando os headsets se tornarem mais leves, refinados, ergonômicos e poderosos. Será como usar óculos escuros. Você vai pisar no mundo lá fora e pode estar entrando no mundo virtual".

Digo e ele que fico louca imaginando todo mundo andando por aí com seus óculos de RV bizarros, como viver num mundo onde estão todos loucos de ácido virtual. O que estaremos vendo se não estamos ocupando o mundo físico? Como vamos ser atropelados ou algo assim?

Pergunto como ele está tão calmo diante de uma coisa dessas. Ele diz que será "apenas outro método de melhorar a conectividade humana".

E isso me acalma. Mas no final de uma sessão de fotos de 12 horas, quando eu já estava assimilando a ideia dessa tecnologia não ser tão terrível assim, ele acrescentou em voz baixa: "Diga adeus para a realidade como você conhece".

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Tradução: Marina Schnoor

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