Falamos com a Vovó Techno, Figura Carimbada do Movement Festival

Aos 72 anos, Patricia Lay-Dorsey afirma estar ainda mais selvagem, chama os jovens de “seus netos” e lamenta a migração da cultura eletrônica para o mainstream.

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mai 6 2015, 12:00pm

Não é difícil achar a Vovó Techno no meio da multidão quando ela está no Movement Festival, em Detroit. O seu cabelo branco se destaca como uma nuvem solitária em um brilhante céu azul, e ela normalmente dança perto de uma scooter, seu principal meio de transporte. Ao longo dos anos, ela se tornou uma figura tão carimbada quanto amada no festival: inúmeros vídeos e fotos documentando o seu espirito vibrante já apareceram na internet, incluindo um mini documentário produzido por um amigo. Mas quem é a Vovó Techno na verdade?

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Patricia Lay-Dorsey tem 72 anos e frequenta o Movement há uma década. Ela foi ao festival pela primeira vez em 2005. Depois de frequentar outros festivais de música em Detroit, Patricia e seu amigo decidiram dar uma conferida no Movement sem a menor ideia (ou disposição) para o que iriam encontrar.

"Entramos no Hart Plaza e o som era muito alto! Não só perto dos palcos, mas em todo lugar que íamos. Não sabia nada de música eletrônica, mas a adorei desde que a descobri", ela diz. Ela lembra ainda o aprendizado que foi aquele primeiro ano. "Lembro que, quando estávamos indo embora, alguém estava fazendo uma pesquisa na frente e perguntaram: 'você gosta mais de house ou de techno?'. Não sabia do que eles estavam falando, mas tentei fingir que sabia e disse techno! Agora tem dub, trance e tudo mais. Eu não fazia ideia! Agora não perco um beat."

No ano em que ganhou o apelido Vovó Techno, ela estava tentando dar meia-volta com a sua scooter e pediu ajuda a algumas pessoas que estavam no festival para chegar até o palco do Beatport. "Na metade do caminho, a voz de um cara grandão surgiu do nada, gritando: 'é a Vovó Techno, deixem ela passar!', e a multidão inteira começou a gritar 'Vovó Techno!'", ela diz. Depois que apareceu no Humans of New York, no mês passado, ela voltou a ficar famosa, algo a que se acostumou depois que o Movement postou o documentário dela na sua página no Facebook.

O velho ditado "a juventude é desperdiçada nos jovens" é uma máxima com a qual Patricia se identifica, na medida em que fica cada vez mais selvagem – e autêntica – com o passar dos anos. "Eu diria que comecei a pirar aos 40, mas foi mesmo aos 50. Eu juro a você, fico mais doida a cada década que passa. Fico cada vez mais esquisita e mais eu mesma, sem dar a mínima para o que as pessoas pensam." Ela ainda não foi a nenhum outro festival de música eletrônica, mas está aberta à ideia: "você nunca sabe, a vida é maluca. Nunca sei o que vem por aí".

Patricia não permite que a sua idade ou a sua deficiência a impeçam de curtir o festival como qualquer um. Em vez disso, ela usa sua fama para inspirar mais deficientes a se divertirem com a música que amam e pressiona para que existam mais áreas adequadas a deficientes em festivais. "Não quero ficar no fundão. Quero curtir também", insiste.

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Ela também está atraindo a curiosidade de um público mais velho. "O jornal de Detroit escreveu alguma coisa sobre mim lá por 2012, e notei uma presença de gente mais velha maior do que o habitual. É incrível. Devíamos ser mais intergeracionais. Adoraria ver isso acontecer, ver como seria a energia", ela diz.

O próximo Movement marca o seu 11o ano de festival, e a empolgação de Patricia é notável quando ela se lembra de alguns dos seus sets favoritos. "Claude VonStroke sem dúvida é o meu preferido. Eu o adoro. Chegamos a nos conhecer um pouco e ele é um cara muito querido. No ano passado, John Digweed tocou e eu fui à loucura! Uma incrível DJ local, bem, ela faz turnês pelo mundo todo, DJ Minx. Ela é incrível. Eu a adoro!"

Ao longo dos anos, até a Vovó Techno começou a notar uma mudança no público do Movement. "Eu sou meio que uma veterana do Movement. Temos nossos próprios valores dentro da nossa cultura de música eletrônica – sempre respeite os outros. Está começando a mudar um pouco agora. Os jovens, os que seguem o mainstream, é um mundo diferente. Eles não conhecem nossa ética ou entendem a cultura. É uma energia diferente."

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"Me deixa meio triste", ela diz, abrindo-se um pouco. "Faz parte da natureza, eu sei, mas quando uma coisa sai do underground, ela muda."

Ainda assim, quando Patricia explica o que a cena significa para ela, você percebe quão profundo é o seu amor: "Adoro esses jovens incríveis que são tão cheios de paz, amor e gentileza. Se ao menos outras pessoas no mundo soubessem que é assim que esta geração é na verdade... Se as pessoas entrassem no festival e vissem a beleza dos jovens... É fenomenal."

Embora nunca tenha sido mãe, depois de se tornar uma figura importante do Movement, Patricia sente como se tivesse adotado uma rave inteira de filhos. "É a molecada [que torna o Movement tão especial]. A energia deles é incrível, e eu acho que é especial para os amantes de música eletrônica. E digo 'molecada' porque tenho quase 73 anos – todo mundo é meu neto. Sou sempre a pessoa mais velha lá. Mesmo as pessoas na casa dos 50 anos podiam ser meus filhos!"

Patricia vê qualidades similares na era do "Verão do Amor", em que ela cresceu, e na cultura atual da dance music. As linhas de baixo estridentes e as batidas de pratos foram o que a atraiu para o Movement em primeiro lugar, mas a cultura a transformou numa entusiasta fiel. "São mesmo as pessoas. Elas me lembram dos anos 60, o paz e amor. Mas talvez estejam num transe de ecstasy, não sei...", ela diz com uma pausa. "Provavelmente."

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Tradução: Fernanda Botta

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