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Por que precisamos desafiar a cultura da monogamia

A pesquisadora Terri Conley fala sobre suas descobertas ao estudar relacionamentos poliamorosos.

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04 Abril 2017, 11:00am

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Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá .

Como alguém que se identifica como poliamorosa, com frequência experimento negatividade de pessoas que não conseguem pensar como funciona uma relação fora do que elas conhecem. Às vezes, esses julgamentos vêm de pessoas próximas. "Você é só vadia" ou "Seu homem acha isso OK, sério?", são palavras que sempre escuto, sem mencionar gente que tenta me dedurar para o meu parceiro principal pelo que entendem como "traição".

Por causa dessas reações, eu sempre soube que nossa sociedade não era construída para pessoas como eu. E, segundo uma pesquisa recém-divulgada, parece que a norma da monogamia é tão universal que ultrapassa o reino das nossas interações sociais e entra no campo da ciência.

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"Ah, essa gente só quer que todo mundo seja poliamoroso", é um dos muitos sentimentos negativos que Terri Conley, da Universidade de Michigan, ouviu quando submeteu à revisão um estudo que apresentava descobertas positivas sobre relacionamentos não monogâmicos consensuais. "Quando pesquisadores apresentam resultados mostrando que relacionamentos monogâmicos são melhores que os não monogâmicos, eles são percebidos como menos tendenciosos e melhores cientistas do que quando você tem a ousadia de apresentar dados mostrando o contrário", disse Conley, que estuda gênero e sexualidade. "Quando faz isso, você é percebido como tendencioso e um cientista pior no geral."

A VICE entrou em contato com Conley para falar sobre a resistência que ela encontrou na sua pesquisa, e sobre as raízes fortes da monogamia na cultura ocidental.

VICE: Por que você decidiu se envolver nesse tipo de pesquisa?
Terri Conley: Inicialmente, eu estava interessada em ver como a perspectiva de estar num relacionamento levava a comportamentos negativos de saúde, comportamentos de saúde sexual (especificamente não usar camisinha). Enquanto me aprofundava nisso, não senti que esses relacionamentos eram ruins, mesmo com minha pesquisa mostrando que quando está num relacionamento, você tem menos propensão a praticar sexo seguro, então pensei em cavar um pouco mais. E indo nessa direção, pensei que talvez não fossem relacionamentos em si que faziam as pessoas evitarem camisinha ou não praticarem sexo seguro, era o acordo monogâmico. Com o tempo, decidi focar em como a monogamia pode ter implicações negativas na saúde sexual.

Fiz um estudo inicial no qual descobrimos que pessoas não-monogâmicas têm mais chances de praticar sexo seguro em seus encontros fora de seu relacionamento principal (estávamos observando pessoas que tinham relacionamentos principais) e também com seus parceiros principais, mais do que pessoas traindo seus parceiros... Encaramos muita resistência dos revisores para essas descobertas. Alguém disse que achava "irresponsável" que estivéssemos "promovendo" isso. Alguém disse que relacionamentos entre homens gays "deterioravam" para relacionamentos não monogâmicos. E a gente disse "deteriorar"? Essa é uma palavra muito carregada.

Depois de vermos tantas reações negativas, achei que deveríamos estudar mais isso [risos]. Continuamos encontrando um nível de animosidade dos revisores que não tinha paralelos com outros estudos que já fiz, mesmo em outros tópicos de sexualidade. Me ocorreu que estávamos tocando em algo maior do que apenas revisões ruins normais que você recebe. As pessoas estavam descontentes de um jeito diferente com essa pesquisa.

Que tipo de termos negativos você enontrou em estudos científicos que mostram visões tendenciosas da não monogamia?
Acho que ninguém estava sendo intencionalmente hostil, é só que foram criados com um enquadramento monogâmico. Mesmo a estrutura geral da escala de relacionamento é sobre seu parceiro ser singular. Então, se está num relacionamento não monogâmico consensual onde tem mais de um parceiro, você já tem que fazer uma escolha: De que parceiro devo falar? Ou talvez a pessoa esteja respondendo algumas perguntas sobre um parceiro e outras sobre outro parceiro... Mesmo o termo "traição" é usado academicamente, assim como "infidelidade", todas palavras muito carregadas. Usamos o termo "não monogâmico não consensual" como uma alternativa mais neutra.

Também temos a "parte ofendida", a pessoa que está sendo "traída". Não parece que você está abordando o tópico da traição de maneira muito científica se essas são as palavras que você usa. Algumas escalas de relacionamento falam sobre "Já considerei procurar outro parceiro", e isso parece diminuir o parceiro atual. OK, se você é monogâmico, isso faz sentido. Mas se você é um não monogâmico consensual, geralmente está procurando outro parceiro — e isso não tem nada a ver com o fato de você estar feliz com o parceiro que está naquele momento.

Às vezes sinto que as pessoas acham que há uma quantidade finita de amor que você pode dar. Isso quer dizer que se está saindo ou dormindo com mais alguém, você ama menos seu parceiro principal.
Fiquei impressionada com o que estávamos descobrindo: no geral, pessoa não monogâmicas estavam se saindo um pouco melhor nos relacionamentos. São sectos pequenos, então não estou dizendo que esse é o melhor jeito de viver para todo mundo. Mas é meio impressionante considerando quanto stress você tem em qualquer relacionamento não tradicional: você tem o estigma, não tem muitas normas a que aderir durante o curso da relação... Mas eles ainda estavam se saindo bem nesses relacionamentos, e estão felizes. Eu diria que isso é um sinal de perseverança entre essas comunidades.

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Como você acha que devemos abordar essa visão tendenciosa na ciência cercando esses tipos de relacionamentos?
Sinto que isso está mudando rápido. Publico trabalhos há seis anos (e trabalho nesse campo desde 1991). Na escala social, isso depende muito de pessoas dispostas a se assumir como poliamorosas ou não monogâmicas para seus amigos, para que as outras pessoas tenham um relacionamento em que pensar quando ouvem falar no assunto. É tipo "Ah, é isso que fulano e fulana fazem".

Sabemos que a exposição a grupos diferentes promove sentimentos positivos para com esses grupos, e leva à redução do preconceito. O que seria muito importante nesse contexto, porque pessoas não monogâmicas são invisíveis para a sociedade agora. Quando você fala sobre isso, as pessoas dizem "Quem faria uma coisa dessas?" ou "Deve ser uma porcentagem tão pequena que essas pessoas nunca se encontram". Na verdade, descobrimos que de 4 a 5% das pessoas estão em relacionamentos não monogâmicos agora... E as pessoas ficam chocadas com isso. Para a mudança social em geral, e incluindo o contexto científico, a questão da visibilidade é muito importante.

Por que você acha que há uma questão de visibilidade? Para mim, não quero explicar essa parte minha para os outros porque sinto que é um assunto pessoal, e acho que eles podem não entender.
O que é justo. Mas sempre haverá a necessidade de pessoas que estão dispostas a se assumir. Infelizmente, para que a mudança social aconteça em todo lugar, é necessário que pessoas se assumam e desafiem os estigmas, o que foi muito importante no caso dos primeiros movimentos gay e bissexual, que as pessoas se assumissem mesmo que isso fosse estigmatizado. Não acho que todo mundo tem que fazer isso. Sei que há muitas razões para não querer se assumir. Uma razão bem prática para isso: nos EUA, acho que não há nenhuma lei protegendo as pessoas com base em sua configuração de relacionamento. Nos EUA, um empregador pode te demitir porque você está num relacionamento não-monogâmico consensual, e você não vai poder fazer nada.

Acho que várias pessoas não gostam de compartilhar coisas sobre seu relacionamento no geral. Digamos que você trabalha com duas pessoas e acaba descobrindo que elas são casadas, tipo: "Ah, uau! Eu não sabia disso". E isso é totalmente um direito deles.

Esse conceito de monogamia está profundamente enraizado na cultura ocidental. Isso vem da religião ou de uma ideia de "paternidade"?
Acho que definitivamente vem da religião, mas a parte mais interessante é que isso também afeta pessoas que não são religiosas. Nós, como cultura, crescemos numa preocupação judaico-cristã com paternidade, e isso meio que alimenta uma cultura da monogamia. Mas agora as pessoas estão tendo um problema para se libertar da cultura da monogamia; isso se tornou tão integrado que mesmo tirando a religião da equação, pessoas que não são religiosas não conseguem se livrar do preconceito da monogamia.

A entrevista foi editada para maior clareza.

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Tradução: Marina Schnoor

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