Usuários americanos se revoltaram contra postura da empresa diante da barreira imposta por Trump a muçulmanos. Crédito: Frank Köhntopp

​Após debandada de usuários, Uber agora parte para controle de danos

Usuários americanos se revoltaram contra postura da empresa diante da barreira imposta por Trump a muçulmanos.

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30 Janeiro 2017, 4:55pm

Usuários americanos se revoltaram contra postura da empresa diante da barreira imposta por Trump a muçulmanos. Crédito: Frank Köhntopp

Neste último sábado, pelo menos 12 pessoas – algumas delas idosas e deficientes físicas – foram detidas no aeroporto John F. Kennedy, em Nova York, nos EUA, por causa da ordem executiva do presidente norte-americano Donald Trump que impedia a entrada de estrangeiros de sete países predominantemente muçulmanos. Centenas de manifestantes se reuniram do lado de fora dos terminais a fim de exigir sua liberação.

Enquanto isso, em meio a uma greve feita pela Aliança de Taxistas de Nova York, o Uber resolveu abaixar seus preços no aeroporto. "Não podemos ficar calados", publicou a entidade de taxistas que representa 19.000 motoristas na cidade, no Twitter. "Temos que trabalhar para dar as boas vindas às pessoas que chegam ao lugar que uma vez nos recebeu. Não nos dividiremos."

Ainda não se sabe de onde veio a decisão do Uber de reduzir os preços das viagens. Muitas pessoas não gostaram da atitude e condenaram o CEO do Uber, Travis Kalanick, membro da assessoria econômica de Trump. O público também não viu com bons olhos o memorando que Kalanick publicou sobre o banimento aos muçulmanos. Para muitos, era muito contido e impessoal. Em vez de falar da violação de direitos básicos, por exemplo, o chefe da companhia disse se tratar de um empecilho para negócios locais com infelizes danos colaterais.

O Uber já foi criticado anteriormente por causa de sua recusa em categorizar motoristas como funcionários e também por seu programa de leasing de veículos rotulado por muitos como predatório. Recentemente, a empresa ganhou as manchetes por continuar a operar ilegalmente carros automatizados em San Francisco, na Califórnia, EUA, sem as autorizações necessárias, até optar por relocar a operação para o Arizona.

Kalanick deu indícios, porém, de que o Uber pretendia apoiar motoristas afetados pelo banimento. Ele também prometeu tocar no assunto com Trump em sua próxima reunião. "Estamos desenvolvendo um processo para identificar estes motoristas e compensá-los pelos próximos três meses de forma a aliviar parte do estresse e complicações financeiras de forma a sustentarem suas famílias e colocarem comida na mesa", escreveu.

Entramos em contato com um porta-voz do Uber que não soube explicar como estes motoristas serão compensados e quanto receberão, mas este disse ainda que a empresa já está pensando nos próximos passos, como dito por Kalanick.

Enquanto isso, a escolha do Uber de lucrar com os protestos não caiu muito bem com a maior parte de seus clientes. O escritor Dan O'Sullivan (@Bro_Pair no Twitter) lançou a campanha #DeleteUber por causa das práticas trabalhistas da empresa. Já que o Uber exige que você explique por que está deletando o aplicativo, muitos de seus usuários usaram desta oportunidade para explicar à empresa porque estavam abandonando seu serviço. (Que fique registrado que eu também deletei minha conta.).

"Aparentemente, de forma a solidarizar com os manifestantes no JFK ontem, taxistas não trabalharam das 18h às 19h. Então o Uber diminuiu seus preços naquela hora na região, deixando muita gente com raiva a ponto de promover um boicote ao Uber", escreveu um usuário do UberPeople, fórum para motoristas de Uber.

"Travis disse que irá compensar motoristas muçulmanos afetados pela decisão de Trump que não podem retornar ao país para trabalhar e sustentar suas famílias... Ao mesmo tempo em que diminui os preços para que os motoristas já sobrecarregados pela greve dos táxis possam fazer viagens de 45+ minutos para pegar passageiros no JFK", escreveu outro motorista.

O porta-voz do Uber se referiu ao #DeleteUber como um mal-entendido. De acordo com ele, a empresa não estava desafiando a greve dos taxistas, já que a Aliança de Taxistas de Nova York só interrompeu o serviço entre 18 e 19h e a queda nos preços do Uber começou só às 19h36.

"Lamentamos quaisquer confusões com nosso tuíte anterior – a ideia não era atrapalhar qualquer paralisação. Queríamos que as pessoas soubessem que poderiam usar o Uber para ir e sair do JFK pagando o preço normal, especialmente na noite de ontem", disse a empresa em nota à imprensa.

Jeff Jones, presidente de Viagens Compartilhadas do Uber, também tentou amenizar a situação quanto às práticas trabalhistas da empresa. Em vários tuítes aparentemente voltados a pessoas aleatórias (incluindo a mim), Jones conduzia usuários ao memorando de Kalanick referente ao banimento de muçulmanos por parte de Trump.

Em resposta ao meu pedido para deletar a conta do Uber, a empresa me enviou esta mensagem, referente aos protestos do último sábado. Outros usuários que apagaram suas contas receberam o mesmo email.

Screenshot: Sarah Emerson

A Aliança de Taxistas de Nova York foi além da paralisação de uma hora, porém. Em nota à imprensa, a entidade afirma que seus integrantes muçulmanos participariam dos protestos no JFK em solidariedade aos refugiados. O grupo também se referiu às medidas de Trump como "intolerância" sancionada e "inconstitucional".

Bhairavi Desai, diretor-executivo da Aliança de Taxistas de Nova York, deu sua opinião sobre a movimentação do Uber em torno do banimento a muçulmanos. "Não é de se espantar que o Uber coloque a ganância na frente dos princípios. A empresa faz isso com seus motoristas todos os dias. O que importa aqui em Nova York é se o Governador Cuomo romperá seus laços com o Uber", disse.

Tradução: Thiago "Índio" Silva