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Por que Ahmed Fez Obama, Zuckerberg e Toda Internet Discursar Sobre Ciência

A história do garoto Ahmed Mohamed é o exemplo perfeito da demanda por conteúdo pró-ciência e pró-tolerância na internet. Mas será que muda algo?

por Carles Buzz
18 Setembro 2015, 9:40pm

Como criar o conteúdo perfeito em apoio à Ciência

No começo desta semana, um garoto muçulmano chamado Ahmed Mohamed levou um relógio digital caseiro para sua escola no subúrbio de Dallas, nos Estados Unidos, a fim de mostrar a peça aos seus professores. Ao ver o artefato com o menino, funcionários da instituição denunciaram que o jovem portava uma bomba. Ele foi levado embora algemado. Ahmed foi humilhado, interrogado e, quando viram que não se tratava de um explosivo, recebeu liberação.

A história foi transmitida via mídias sociais em tempo real e, durante toda a semana, foi a intersecção perfeita de preconceito racial, ciência, psicologia criminal, problemas com autoridades, microcelebridades e tolerância.

Foi a culminação perfeita de tópicos contemporâneos para a internet. Artigos recapitulavam o ocorrido, sites resgastavam tuítes de celebridades e, não bastasse isso, vários conteúdos em vídeo foram criados e consumidos instantaneamente por usuários que queriam absorver a história. Foi um momento bem típico das redes sociais: todos tinham que possuir uma #opinião para provar que estavam ligados. Todos viam sua própria transmissão como oportunidade filantrópica para fazer do mundo um lugar melhor.

A história de Ahmed Mohamed é o exemplo perfeito da demanda por conteúdo pró-ciência e pró-tolerância na internet. Em questão de minutos, uma notícia arbitrária engajou criadores de conteúdo por todo o planeta. Foi um dos ciclos mais rápidos vistos em termos de ciência. Nem mesmo uma série de tuítes de Neil deGrasse Tyson depois de assistir a um filme científico ruim conseguiria tanto engajamento.

Por que os criadores de conteúdo deram tanto espaço – e de modo tão rápido – para a prisão injusta de Ahmed?

A cara da Ciência!

O retrato da "ciência" nos portais de conteúdo é uma maneira de aludir a problemas com a posição norte-americana quanto à economia global, políticas educacionais e diferenças regionais na cultura sem de fato oferecer uma forma de resolver tais questões. Ela fornece uma emoção momentânea similar a daquelas pessoas que vão a museus de arte contemporânea para fazer fotos de coisas 'daora' para seus feeds no Instagram. É uma forma de se sentir mais 'científico', o que é bom. Mas é bom dizer que isso não muda o fato de que, na verdade, você só consumiu um naco de conteúdo na internet.

Consumir 'ciência de verdade' do mundo real faz com que compartilhadores-de-conteúdo-nerd se sintam mais ligados. Seja você um nerd, uma pessoa comum ou professor que administra uma página de uma turma no Facebook, compartilhar artigos opinativos sobre ciência lhe faz parecer 'mais esperto' no seu feed porque você 'se importa com tópicos científicos'.

Para a internet, as melhores opiniões são as mais óbvias

Este conteúdo é criado com o mesmo fim que todo o resto: inspirar um clique, um compartilhamento, uma curtida no Facebook, um clique interno em um site ou clique externo patrocinado. Tudo no nome de apoiar os campos da ciência, tecnologia, matemática e engenharia para salvarem a economia e sistemas educacionais norte-americanos. Talvez seja verdade, mas outro clique em algum post do Facebook não está 'conscientizando' ninguém de forma significativa.

Vá contra o Texas. Vá contra a Marcha-Ré-Lândia, EUA

Quando o Presidente Obama tuítou em apoio a Ahmed, ele criou um dos maiores discursos pró-tecnologia e pró-ciência de todos os tempos (em menos de 140 caracteres). Mark Zuckerberg convidou Ahmed ao campus do Facebook, ao passo em que o Reddit lhe ofereceu um estágio. A causa é uma ideia que é desconstruída em algo vagamente apoiável como a hashtag #IStandWithAhmed. Não é só legal apoiar algo... É IMPORTANTE.

Quando se trata da autopercepção do liberal moderado, este é o tipo de branding que toda empresa, político e celebridade de redes sociais precisa adotar. É uma forma vaga de ser vista como um tecnólogo que tem soluções para problemas com base no processo científico. Tudo isso enquanto trata de temas que não tem nada a ver com ciência ou com processos. O conteúdo científico é tão adorável quanto qualquer outro conteúdo horrível.

Até mesmo o mais conservador dos progressistas consegue 'pontos de internets' ao apoiar a #causa_científica.

Tão POLARIZADOR!

Em conflito direto com temas tolerantes, há um tom subjacente geral ao relembrar a história de Ahmed contra a comunidade de Irving, em Dallas. É um subúrbio similar a muitos outros no país, mas é muito fácil projetar seus sentimentos sobre uma comunidade que segue o tipo "sulista", "texana", "rural" ou "caipira". Odiar o ódio é a única maneira pela qual o usuário de internet consegue expressar seus problemas com esse mundo que roda ao contrário.

No papel de pessoa não-branca do Texas, sempre é complicado pra mim determinar se conteúdo para chamar atenção dos tolerantes faz mesmo do mundo um lugar melhor. Parece que as pessoas de mente fechada cujas cabeças precisam ser abertas já deram um jeito no seus feeds para refletir seus pontos de vista. Os artigos e momentos de clareza que representam as lições que jamais aceitarão em seus corações não tem como transpor tais barreiras.

Existem diversas internets rolando ao mesmo tempo e a galera 'atrasada' que precisa ser exposta a novas ideias já tem seus cliques caçados por lugares que atendem seus interesses. O conservador americano estereotípico que não acredita na evolução e quer meter um muro na fronteira mexicana nunca encontrará aquele conteúdo que poderá mudar sua vida, sobretudo com base no algoritmo do Facebook. Posts de Ahmed como garoto-propaganda da ciência não mudarão nada, mesmo após diversas gerações.

A internet ainda é poderosa! Ela ainda consegue criar microcelebridades significantes!

Ahmed Mohamed é a mais nova microcelebridade trazida à baila como garoto-propaganda de narrativas positivas na rede. Logo Ahmed entrará em uma excelente universidade e então num baita estágio numa empresa maravilhosa. Ele conseguirá uma presença nas redes sociais em que seus tuítes em apoio à ciência atingirão números de engajamento que baterão de frente com os de Neil DeGrasse Tyson e Bill Nye. Ao passo em que pouquíssima profundidade foi oferecida em outro ato aleatório de intolerância, ao menos a história de Ahmed chegou às massas e virou alvo de debates republicanos. Em dez anos leremos artigos de '10 anos depois' com Ahmed. Tudo isso reforça a existência de criadores de conteúdo como necessários em um mundo bom.

Estou tão perdido na internet que encontrei uma manchete com o termo 'Golpista racial'

Até lá, os criadores de conteúdo continuarão a dar golpes em busca de conteúdos e mamarão na capacidade de tudo virar conteúdo em páginas de consumíveis. Inventarão termos e usarão predisposições culturais e informativas para botar mundos de uns contra os outros.

Todos flutuamos na fluidez da informação constante e instantânea, buscando aquele conteúdo que nos dê base moral para se apoiar. A história de Ahmed é uma que nos colocou no olho do furacão de questões contemporâneas dos EUA de forma mais rápida que nunca.

Tradução: Thiago "Índio" Silva