"Lazarus". Crédito: YouTube.

Como Bowie transformou sua própria morte em uma obra-prima da ficção científica

É claro que ele usaria sua rica linguagem para nos trazer uma última visão da morte.

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14 Janeiro 2016, 5:12pm

"Lazarus". Crédito: YouTube.

Para David Bowie, morrer não é o bastante. Ele transformou sua própria morte em um espetáculo que nos obriga a refletir sobre o derradeiro fim.

Bowie morreu há quatro dias, tempo suficiente para que as lembranças e homenagens sumissem de nossos feeds. Talvez seja a hora de voltar para nossa triste realidade que envolve Donald Trump, o ISIS, polícias repressoras e milícias. Talvez.

Mas não consegui evitar mais uma vez pensando no cantor. Talvez porque sua própria existência seja um antídoto para a monotonia incômoda do cotidiano. Ou talvez porque sua morte tenha sido, no fim das contas, uma de suas melhores performances.

Bowie vivia, respirava — e morreu mergulhado na — ficção científica. Para ser mais específico, o que ele fazia era ficção especulativa. O artista se inspirava em fantasia, ficção científica e todo tipo de informação alienígena para criar suas personas. No entanto, todas essas fantasias tinham como objetivo transformar o mundo em um lugar que aceitasse quem — e como — ele queria ser. Não consigo pensar em nenhuma outra pessoa capaz de alterar o mundo dessa forma, capaz de manipular o poder da performance a seu bel-prazer e suscitar evoluções sociais e culturais por onde passa.

Do seu primeiro hit, "Space Oddity", passando pelo revolucionário álbum no qual ele apresentou Ziggy Stardust ao mundo, e terminando com seu ato final como Lázaro em Blackstar, seu álbum de despedida, Bowie não interpretou sua visão pessoal de ficção científica. Ele estava vivendo-a. Até o último segundo.

Três dias antes de sua morte, Bowie lançou o clipe de "Lazarus", parte do épico de ficção científica "Blackstar" no qual ele percorre um mundo de astronautas mortos, espantalhos mutantes e velas eternas. O clipe mostra um homem, interpretado por Bowie, levitando em seu leito de morte.

Ao assistir "Blackstar", é impossível considerar o crânio de astronauta cravejado de diamantes — o derradeiro fim do Major Tom, talvez — como pertencendo a outro que não o próprio Bowie.
Bowie sabia que, enquanto milhões de pessoas o veriam flutuando em uma cama de hospital, ele provavelmente estaria deitado em uma. Mesmo durante sua própria morte, ele usou a linguagem da ficção científica para nos instigar a pensar sobre nossa própria mortalidade. Muito apropriado para um homem que usou esse mesmo método para nos inquietar durante toda sua carreira, seja falando sobre convenções de gênero ou sobre a internet. Um homem que transformou a música pop em um instrumento por meio do qual fosse possível pensar e dançar ao som do futuro.

Muitos fãs reagiram à sua morte com elogios à sua androginia e às suas performances corajosamente eróticas, que teriam aberto as portas para o atual movimento genderqueer. "Bowie usava sua perfomance de gênero pouco convencional para questionar a visão do homem cisgênero e másculo tida pelo grande público", escreveu Christina Cauterucci, colunista do Slater. "A erótica estrela do rock, que mexia com a libido de homens e mulheres, fossem eles gays ou héteros, criou um espaço onde seus fãs poderiam explorar a multiplicidade da presença, da vitalidade e do desejo."

Quando Bowie apareceu vestido como Ziggy Stardust em Top of the Pops, um programa assistido por 14 milhões de pessoas numa época em que o mundo parecia muito menor, o impacto foi meteórico. Bowie ajudou a fundar um mundo onde adotar uma identidade de gênero não-tradicional não era apenas aceitável, e sim desejado. A importância da ficção científica em sua obra se perde em muitos desses comentários, mas não podemos esquecer que ela é um ponto crucial — afinal, foi ela que guiou toda sua arte rumo ao futuro.

A ficção científica estava começando a invadir o cinema quando Space Oddity e Ziggy Stardust nasceram, no final dos anos 60 e no começo dos anos 70, respectivamente. No entanto, o mundo nunca tinha visto um deus do rock alienígena, muito menos um que dançasse ao som de óperas pop. (É bom lembrar que toda essa mitologia não foi criada apenas para justificar o uso de maquiagem no palco ou performances chocantes — tudo isso fazia parte de uma série de narrativas intrincadas envolvendo um apocalipse vindouro, uma raça alienígena chamada de "infinitos" e algo misterioso chamado trampolim de buraco negro). Sua mídia de escolha, a música, permitiu que Bowie explorasse assuntos tabu como a bissexualidade do jeito que só ele sabia— não é de se espantar que os excluídos da sociedade tenham se apaixonado pelo alienígena do rock. Além disso, ele transformou a ficção científica em algo legal, popular e perigoso, algo nunca feito antes.

Bowie nunca desistiu. Ao longo dos anos, ele adotou outros alter-egos alienígenas, entre eles Aladdin Sane e Thin White Duke. Em 1976, ele se tornou O Homem Que Caiu na Terra — literalmente um alien entre humanos. Mesmo depois de seus anos de glória, ele continuou a ousa e se envolveu em projetos como a criação de video games distópicos, o desenvolvimento de seu próprio navegador, a BowieNet, e a criação de programas que usavam tecnologias dos primórdios da internet. Enquanto Bowie criava o futuro, a cultura pop tentava alcançá-lo.

Assim, sua morte — e a obra de arte extremamente elaborada associada à ela— deixou todos em choque. Uma frase comum nos últimos dias foi: "achei que Bowie viveria para sempre".

Roqueiros inabaláveis ficaram sem palavras. Há alguns dias, Steve Jones, ex-guitarrista do Sex Pistols, e Dave Ghrohl, do Foo Fighters, participaram da última edição de Jonesy's Jukebox, um programa de rádio. Durante aquela hora, o que ouvi foi ao mesmo tempo fascinante e desconcertante. Ambos passaram longos minutos totalmente mudos, ocasionalmente repetindo histórias sobre seus encontros com Bowie e discutindo teorias sobre a vida após a morte. ("Acredito numa energia que liga todos nós", disse Grohl, propondo que todos nascemos do Big Bang e que nos uniremos mais uma vez após a morte. "Eu não quero morrer", respondeu Jones).

Bowie também não queria. Blackstar (estrela negra, em português), é um termo utilizado para denominar um tipo de lesão cancerígena. Isso deixa claro que Bowie transformou o agente de sua própria morte em um último épico da ficção científica. É claro que ele usaria sua rica linguagem para nos trazer uma última visão da morte, ambiciosa e auto-referencial.

Esse "último álbum foi uma despedida cuidadosamente planejada", confirmou seu produtor. Suas músicas (e a peça off-Broadway que acompanha o álbum) falam sobre a morte e foram escritas para um público que buscaria consolo em suas obras após sua morte. A primeira frase de "Lazarus" é "Look up here, I'm in heaven." ("Olhe para cá, eu estou no céu").

Assim, em vez de pensar num homem moribundo, nós escutamos suas palavras, vemos ele levitar, assistimos à sua última grande visão. Nesse momento, nós nos juntamos a ele.

É possível interpretar os corpos jovens e estranhos do clipe de "BlackStar" como a nova geração de excluídos, curvando-se sob o peso de sua própria alienação e encontrando esperança em um livro chamado BlackStar. Esse livro contêm o futuro, e a última profecia de Bowie diz que alguns de nós (ou todos) darão um passo à frente e lerão suas últimas palavras:

Something happened on the day he died

Spirit rose a metre and stepped aside

Somebody else took his place, and bravely cried

(I'm a blackstar, I'm a blackstar)

Tradução: Ananda Pieratti