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“A River Below” é um documentário sobre matar botos para salvá-los

Pra fazer um filme perfeito para a era da pós-verdade, Richard Rasmussen pagou moradores de uma pequena vila ribeirinha pra matarem um boto em frente às câmeras e prometeu que o vídeo jamais seria divulgado

por Sarah Jeong; Traduzido por Stephanie Fernandes
08 Maio 2017, 5:48pm

A River Below começa com cenas lindas e exuberantes das curvas do rio Amazonas por entre florestas verdejantes. Pouco depois, a triste situação do boto-cor-de-rosa, ameaçado de extinção, é narrada pela voz calma e suave do cientista Fernando Trujillo.

O boto-cor-de-rosa, conta Trujillo, é um dos mamíferos mais espertos, inteligentes e carismáticos do mundo. "São pessoas como nós, mas debaixo d'água", narra.

Nas cenas de abertura do filme, ele explica que, dado seu entusiasmo pelo boto-cor-de-rosa, os povos indígenas com quem trabalha passaram a chamá-lo de "Omacha" — termo para boto-cor-de-rosa na língua ticuna.

É tudo muito açucarado, mas A River Below — que estreou em Tribeca no Dia da Terra — não é exatamente um documentário sentimental sobre preservação e espécies ameaçadas, mas, sim, uma obra de arte vital sobre a era da pós-verdade e de fatos alternativos.

Cientista Fernando Trujillo. Créditos: A River Below

A River Below é um filme sobre um filme — um clipe de importância histórica, reproduzido na íntegra, com imagens fortes, para a audiência inúmeras vezes. Em 2014, o Fantástico transmitiu para cerca de 20 milhões de espectadores o vídeo de um boto-cor-de-rosa massacrado por pescadores. O vídeo inédito retratava uma prática há muito conhecida: pescadores da Amazônia matavam e cortavam botos para usá-los como isca. A isca é utilizada para capturar piracatingas, espécie de peixe que se alimenta de restos orgânicos no fundo do rio e que, por alguma razão inexplicável, é muito popular e lucrativa.

No vídeo, os pescadores fincam um arpão em um boto-cor-de-rosa e seguram-no debaixo d'água até morrer afogado. Quando trazem à tona a carcaça para picotá-la, nota-se que era uma fêmea grávida. Eles a cortam ao meio, arrancam fora o feto — já formado, reconhecível enquanto pequeno boto —, e o mergulham na água, onde então surge um cardume de piracatingas em polvorosa para devorá-lo.

Em resposta ao vídeo, o governo brasileiro imediatamente entrou em ação e proibiu a pesca de piracatingas durante cinco anos. Policiais com fuzis param os barcos e fiscalizam suas caixas de isopor. Em diversas sequências surreais, no documentário, eles aparecem revirando gelo para pinçar piracatingas contrabandeadas, escondidas sob uma camada de peixes legais. A carga é levada embora, e o proprietário do barco, algemado e escoltado.

"Era contra os meus princípios. Mas eu precisava das imagens. As pessoas precisam ver para crer."

Homens são presos. Uma indústria está afundando. Famílias perderam seus meios de subsistência. Tudo por causa de um peixe. A brutalidade das imagens foi o bastante para reverter as políticas nacionais.

"A televisão é o meio de alcance mais potente de que se tem notícia", disse o apresentador Richard Rasmussen em A River Below. Essa declaração aparentemente banal e egocêntrica torna-se o cerne do documentário.

Rasmussen é host do Mundo Selvagem, programa da National Geographic popular no Brasil. Ele ficou conhecido por programas similares na TV aberta. De início apresentado para Trujillo como um entusiasta da mídia animado e pomposo, aos poucos Rasmussen ganha um papel mais obscuro, de antagonista.

O apresentador Richard Rasmussen. Créditos: A River Below

A River Below revela, pela primeira vez, que o célebre e rico Rasmussen — queridinho do público — estava por trás do vídeo transmitido no Fantástico .

"Eu sabia que precisava fazer isso", diz ele em uma entrevista para o documentário. "Era contra os meus princípios. Mas eu precisava das imagens. Pois as pessoas precisam ver para crer."

Rasmussen prontamente se autointitula um "anti-herói" que faria de tudo para "executar o seu trabalho". A escolha de assistir ao assassinato brutal de um boto em frente às câmeras já é desconfortável o bastante em termos morais, mas o filme ainda conta com outra reviravolta. A equipe do documentário visita os pescadores que mataram o boto no vídeo. São moradores de uma pequena vila ribeirinha, batalhando para fazer a vida. Eles contam que Rasmussen os abordou e pediu para que matassem um boto em frente às câmeras. Em troca, ofereceu diesel, comida e dinheiro. Ele prometeu que o vídeo jamais seria divulgado, que seria mostrado apenas para autoridades do governo para convencê-los a pesquisar formas alternativas de isca para pesca. Embora o Fantástico tenha desfocado o rosto dos homens no vídeo, pescadores vizinhos rapidamente os reconheceram. E com a repressão governamental dos meios locais de subsistência, passaram a receber ameaças de morte por conta participação no vídeo.

A River Below é sobre o poder do vídeo e sua complexa relação com a verdade.

Os locais ficaram traumatizados com o tratamento de Rasmussen, e o encontro com a equipe do documentário é hostil. "Se eu estivesse com essa câmera naquele dia, poderia mostrar como ele nos enganou", disse um deles. "Poderia apontar para ele e dizer: 'Esse é o homem que fez aquilo com a gente'." A câmera do documentário então gira para mostrar um denso grupo de locais filmando o novo encontro em seus celulares.

A River Below é sobre o poder do vídeo, e sua complexa relação com a verdade. O filme perde o ritmo em diversos pontos. Quando mostra as entrevistas com Rasmussen, também incorpora cenas em que o apresentador questiona a posição da câmera e pede para pararem de filmar.

Quando a equipe segue Rasmussen até o aeroporto, capta uma sequência em que fãs do programa televisivo se aglomeram a seu redor para bater fotos. O tempo todo Rasmussen discorre sobre preservação e a proibição da pesca de piracatingas. A cada par de frases, pausa para tirar uma selfie com um fã. Ele congela o sorriso e faz um joinha. E assim que tiram a foto, ele descongela e retoma o monólogo. A coreografia se repete sem parar, até notarmos que sua expressão facial para cada selfie é exatamente a mesma.

Cenas como essa representam um antagonismo desesperado, defensivo, unido a uma capacidade impressionante de dominar a câmera. Os documentaristas tentam usar evidências em vídeo para proteger a própria narrativa da realidade distorcida que rodeia Rasmussen por onde quer que ele passe.

Richard Rasmussen. Créditos: A River Below

A audiência americana certamente há de encontrar no filme uma metáfora para sua realidade política atual. Rasmussen — estrela televisiva em busca de fama, um homem de longas madeixas loiras, levemente avermelhadas — parece familiar. É alto e robusto, mas o seu torso já começa a despencar, e seu rosto barbado dá sinais de papadas por vir. A sensação de déjà vu se intensifica toda vez que Rasmussen afasta objeções às suas mentiras, ou quando brada tiradas presunçosas no último volume.

Para os documentaristas, Rasmussen é um vilão, mas o dilema ético em questão é mais profundo do que preservação ou exploração, verdades ou mentiras. É verdade que os botos estão morrendo. Também é verdade que o clipe do Fantástico foi dirigido por uma estrela de reality shows com um talento e tanto para manipular as percepções do público.

Com efeito, as adoráveis sequências de A River Below sobre a beleza e as maravilhas do boto-cor-de-rosa, apesar de longas, podem prejudicar o movimento de preservação ao suscitar dúvidas quanto à origem do clipe que norteia a obra.

É fácil detestar Rasmussen ao vê-lo em ação, assim como é fácil detestar os pescadores ao vê-los fatiar, a sangue frio, uma fêmea grávida. Contudo, ambos são produtos de economias distorcidas — a economia dos peixes, e a economia das informações.

Enquanto Rasmussen permanece no Brasil e foge das consequências de sua participação no vídeo do Fantástico, o cientista Trujillo experimenta uma nova tática: usar o poder da televisão a seu favor, com aparições em noticiários para debater sua pesquisa. Ele conta a um repórter que, devido à ingestão desenfreada de piracatingas, as crianças colombianas estão sendo contaminadas com níveis altíssimos de mercúrio. Em vez de apelar para questões ambientais, Trujillo está tentando defender o interesse dos colombianos ao disseminar que piracatinga é um peixe tóxico, e deveria ser banido pelo bem das crianças.

Estamos presos em um ciclo de consumo de informação que está nos envenenando

O resultado? Nulo. O governo se mostra indiferente ao relatório investigativo, e Trujillo vem recebendo tantas ameaças de morte da indústria da pesca que, quando voltar à Amazônia para continuar sua pesquisa, terá de levar consigo um guarda-costas e usar colete à prova de balas.

Apesar do apelido "Omacha" em homenagem ao boto-cor-de-rosa, e apesar das ameaças de morte da indústria da pesca, Trujillo ainda reflete sobre a situação. "Não se trata só dos botos", disse ele. A questão é que vivem na Amazônia, um local de biodiversidade sem igual. Um local onde, no entanto, não há meios de subsistência para os locais. "Os botos são apenas dano colateral. Botos serviam de isca para os pescadores, mas por que estão pescando um peixe necrófago, para começo de conversa? O que aconteceu com os outros peixes da região?"

Crédito: A River Below

Bom ponto: o que aconteceu de fato com os outros peixes? O que aconteceu com a biodiversidade da Amazônia? Pelo bem ou pelo mal, A River Below evita explorar os males sistemáticos que conduziram o Brasil e a Colômbia à situação atual.

Também se abstém da discussão sobre o mercado de informações que confere a Richard Rasmussen tanto poder, e a Trujillo, quase nenhum. Afinal, o que poderiam dizer? Em 2017, estamos apenas começando a avaliar a oferta e procura de notícias, verdades e evidências com um olhar crítico. E as coisas vão mal, com conceitos como "fake news" e "fatos alternativos" transformados em chavões, com seus significados subvertidos. Estamos presos em um ciclo de consumo de informação que está nos envenenando, assim como o consumo de piracatingas está envenenando a Colômbia.