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Adeus Alexandre Cecci, aka DJ Don KB

Ricardo Magrão e MZK - que fizeram parte do Los Sea Dux ao lado de Don KB -, DJ Nuts e o multiinstrumentista Eduardo Bid, da banda SolanaAllStars, comentam a trajetória do fundador da Festa Jive. KB lançou a fagulha do revival do samba-rock em São Paulo.

por Eduardo Ribeiro
08 Março 2017, 3:15pm

Alexandre Cecci, DJ e produtor cultural paulistano, um dos fundadores da festa/clube Jive e pioneiro em introduzir a mistura de ritmos nas pistas da cidade, morreu no último sábado (4). Don KB, como era conhecido no meio artístico, foi vítima de um infarto fulminante na praia de Maresias, litoral paulista, e não resistiu. Ele estava com 47 anos, e seu corpo foi velado no domingo (5), no Cemitério do Araçá. "Sem falsa modéstia, eu me sinto responsável pelo revival do samba-rock", disse em entrevista à Folha de S. Paulo, em 2001, ano em que começou a colher os frutos do hype de seu projeto.

E era verdade. Antes da investida de Don KB, a noite da capital paulista era marcada por clubes temáticos, já que a segregação entre rock, pop, grooves, eletrônico e brasilidades falava mais forte. Com a chegada da Festa Jive, o samba-rock, cujo sucesso remontava às décadas de 1960 e 70, voltou a ser aceito pelo público, e com isso se abriram os horizontes do mercado. A história do Alex com o samba-rock começou em 2000 nas sextas do hotel Cambridge, quando "Jive" era ainda o nome da festa que viraria clube naquele mesmo ano.

Receoso em causar estranhamento, a técnica que o DJ empregava consistia em introduzir a tendência aos poucos. Os sets iniciavam tranquilos, passavam para algumas músicas latinas e, quando o público já estava no astral elevado, ele disparava o samba-rock propriamente dito. Mais tarde, com a tendência consolidada, Don KB levou à pista do Jive vários bruxos da mixagem ao vivo como os DJs Nuts, KL Jay, Hum, Patife, Tony Hits e Primo.

Não é exagero dizer que o Alex deixou uma imagem irretocável no cenário cultural, pois suas iniciativas mexeram com a vida de muita gente. Principalmente gente que veio depois, que começou a sair à noite nos anos 2000. Quem é mais velho e saía na balada tá ligado como era a noite nos anos 90. Até então, o que se tinha eram os bailes de periferia, com um perfil mais de balada black, e na região central o esquema ou era rock ou eletrônico. Era segregado, e ele trouxe uma mistura, uma democracia da qual desfrutamos até hoje. Ele colaborou muito pra acabar com aquela coisa de "carão" que predominava.

Em paralelo à discotecagem e à gestão da casa que inaugurou ao lado de seu irmão, na Alameda Barros, em Santa Cecília, centro de São Paulo, ele também era instrumentista, dono de selo e agente. Alex tocou bateria nos grupos de surf music e psychobilly Los Sea Dux e, anteriormente, K-Billys. Fundador do selo Gorilla Hi-Fi, Don KB empresariou artistas como Mamelo Sound System, Academia Brasileira de Rimas, Black Alien, Speedfreaks e Max B.O., além de agenciar o Trio Mocotó.

Ricardo Magrão, DJ, artista visual, companheiro de bandas, empregos e projetos do Alex por mais de 30 anos, foi quem disparou a notícia de sua morte nas redes sociais. "Um amigo nosso, o Carlinhos, que estava com ele na praia, me mandou um Whats no sábado falando: 'O Don faleceu'.", contou ao Noisey por telefone. "Ele estava no litoral hospedado na casa desse amigo. Pelos relatos do Carlinhos, ele tava felizão, o dia tava bonito e tudo. De repente entrou na água, saiu, sentou e disse 'Não estou muito bem'."

Segundo o Magrão, ninguém tinha conhecimento de problemas de saúde dele: "Sempre achamos que o Alex era o cara mais saudável da turma, tá ligado? Sempre fez ginástica, academia, comia bem, dormia e acordava cedo sempre que possível, nunca se queixou de nada. Foi muito surpreendente isso aí. Ele só tomava um drinque ou outro, nunca foi de usar nada pesado." E arrisca uma suposição: "Acho que o que aconteceu deve ter sido por alguma coisa congênita ou estresse. Ele era uma pessoa muito emocional. Pra você ter ideia, o punho dele, a mão dele fechada, era repleta de cicatrizes, porque quando ficava puto saia socando a parede. Tudo deixava ele puto. Sempre que alguma coisa não dava certo ele já socava a parede, não conseguia fugir de um estresse, saca?".

Paixão pela música

A história de amizade entre Alex e Magrão começou em 1987, período em que o Alex tocava batera no K-Billys e o Magrão era baixista de outra banda psychobilly, a S.A.R. (Soviet American Republic). Ambos os grupos às vezes se apresentavam juntos, e, nessas, acabaram se conhecendo. No comecinho dos anos 1990, entre 90 e 91, as bandas acabaram. Já amigos, os dois começaram a descobrir, cada um de seu lado, músicas novas. Foi a partir dessas pesquisas que Don KB e Magrão, junto com o cara que tocava guitarra no K-Billys, o Avenal, acabaram tendo a ideia de montar uma banda de surf music instrumental. Nascia o Sea Dux. Com o tempo, a mistura de referências do Sea Dux passou a adicionar várias influências à surf music. Coisas como jazz, salsa, e outros lances latinos. Lá por 93, o trio ampliou ainda mais seus horizontes sonoros, com a entrada de percussionistas e saxofonistas.

Era um momento em que o Sea Dux fazia muito show em São Paulo. A banda não tinha disco, mas cultivava um público grande. Em 95, com a ida do Magrão para Londres, onde passou uma temporada, a banda deu um tempo. Quando ele voltou, o grupo retomou as atividades, dessa vez com vocais e com o nome de Los Sea Dux. Foi aí que entrou o Rodrigo Brandão, acrescendo uma cadência hip hop a um estilo que já era bem diverso. Eles chegaram a gravar um compacto de sete polegadas, e, em 99, um LP, que por tretas de gravadora nem foi lançado. No mesmo ano a banda acabou. Foi bem na sequência disso que pintou a Festa Jive, como resultado das pesquisas incessantes do Alex.

Segundo Ricardo Magrão, Don KB descobriu os grooves e latinidades por meio de coletâneas dos anos 70 e 80. "Tinha um cara que se chamava Deni Mancha, e ele lançava coletâneas super piratonas", revela. "Porque o samba-rock se caracteriza muito pela música brasileira, mas tem muita coisa internacional com essa pegada, Ray Charles, umas coisas assim. E nas coletâneas desse cara, em vinil e CD, tinha de tudo. Ele passava pra DJs de samba-rock. Lembro que o Alex ficou fascinado com aquilo ali, gostou pra caralho. Nessa época, o irmão dele, o Márcio, junto com o Rubinho, o Rubens, que hoje é o dono da Trackers, estava abrindo uma casa, que era o Jive. O Alex não era sócio nem dono da Jive no começo, quando inaugurou na rua Caio Prado. Só depois, quando reabriu na Alameda Barros. Foi quando ele pediu pra tocar no clube dos caras, fazendo sets com esses discos."

Na Festa Jive do hotel Cambridge, (os irmãos Cecci curtiam tanto essa palavra que o clube tinha o mesmo nome da noite), o artista visual MZK (tocador de maracas no Los Sea Dux) também discotevava junto. Quando passou para o Jive da Caio Prado, em 99, é que a festa ficou realmente famosa, apesar de já contar com um bom público no Cambridge. Rolavam enormes filas e isso rendeu pautas nos guias e revistas semanais da capital. O Jive só fechou, um ano depois, para reabrir no bairro de Santa Cecília, por causa de treta com o PSIU (Programa de Silêncio Urbano).

"Fomos parceiros em muitas coisas desde 1992. Na Estação Manda, zona autônoma temporária onde trabalhávamos e vivíamos, tocamos juntos nos Los Sea Dux por anos a fio... na sequência disso, veio a primeira Festa Jive, que realizamos no hotel Cambridge e que nos rendeu mais uns dez anos de parceria", comenta MZK.

A guinada

Nos tempos do psychobilly, entre 91 e 92, Don KB e Magrão arrumaram um trampo como supervisores das lojas do Dunkin Donuts. Em 93, deram uma guinada na vida. Ficaram sócios, junto com o MZK e outro amigo, o Macarrão, pioneiro de artes digitais no Brasil, da Estação Manda. "O Macarrão achava que o nosso emprego era ridículo e falou pra gente largar aquela porra e virar sócio dele", diverte-se Magrão. "E aí embarcamos numa doidera por dois anos, todo mundo morava junto. Antes de surgir a moda dos coletivos, tínhamos um coletivo artístico ali. Era tipo uma produtora, as agências contratavam a gente. Fazíamos publicidade, editoriais, ilustrações."A Estação Manda durou até o final de 94. O Alex, que sempre foi muito bom em socializar com as pessoas e tudo o que envolvia correr atrás, fazia o atendimento. Acabou porque o Macarrão se matou, e os caras decidiram encerrar.

Em 96, quando o Magrão voltou de Londres, os camaradas chegaram a abrir outra produtora, em sociedade com um cara mais escolado, o Stefano Deho, dono de um estúdio de som. O Stefano trouxe alguns clientes de publicidade maiores, mais estruturados. Essa produtora se chamava Estúdios Galáxia, e durou até final de 99.

"Quando o Rodrigo Brandão saiu do Los Sea Dux, nesse mesmo período perto do fim da segunda produtora, saiu todo mundo", relembra Magrão. "Decidimos, então, mudar o nome de novo, agora para Three Dux, já que tínhamos voltado ao que a banda era no começo, só nós três fazendo instrumental."Em 2000 o Three Dux acabou. É que a carreira de DJ e produtor do Don KB realmente vingou e o tempo para se dedicar ao grupo ficou muito escasso.

O Eduardo Bid, produtor e multiinstrumentista, guitarrista da SolanaAllStars, enxerga Don KB como um pesquisador musical que gostava de dividir as suas descobertas com as pessoas. "Suas festas Jive eram de riqueza musical enorme, um lugar pra encontrar amigos, descobrir um novo som brazuca das antigas", define. "Além de respirar boa música, ele era um brother, fazíamos parte da mesma cena, propagando e dividindo descobertas do samba-rock e do funk das antigas. Ele ficará vivo na memória de quem teve a chance de dar um hangout com ele. Lembraremos histórias, vivências e playlists, mantendo ele sempre vivo, na área conosco."

DJ Nuts tem a mesma visão. Ele relembra que as festas Jive eram tipo um oásis para quem estava entediado com as discotecagens "norte-americanizadas" que hegemonizavam os clubes. "Os sets dele ajudaram a revelar o samba-rock para o público jovem, pois surgiram como uma opção fora do circuito tradicional de bailes de nostalgia", frisou. "Eu mesmo aprendi a aplicar muitas dessas músicas na pista com ele, comecei a visualizar que seria possível utilizar esses discos que até então estavam só na prateleira."

Nos últimos tempos, Alexandre Cecci vinha atuando como diretor artístico na empresa Ativa Aí e continuava administrando a Gorilla Groove Produções, nascida a partir do selo. "É difícil falar pouco sobre o Alex. O que não falta é assunto", declarou MZK com o coração apertado. "O volume de histórias desse amigo que se vai é grande. Ele tinha uma personalidade inquieta, criativa e persistente. Sempre será lembrado por quem o conheceu."