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Por dentro do primeiro concurso de sereios da França

Dez caras confortáveis nas próprias barbatanas.

por Matthieu Foucher; Traduzido por Marina Schnoor
16 Julho 2019, 10:00am

Foto por Matthiew Foucher. 

No final de junho, enquanto a França suava com temperaturas recorde, um grupo de homens tirou um tempo para escapar da onda de calor e competir no primeiro Mister Tritão França.

Organizado por Merman Ludo, o evento – que os responsáveis acreditam ser o primeiro do tipo no mundo – teve dez competidores de todo o país se encarando numa batalha para ser o melhor sereio que a França já viu.

Apenas para sereios amadores, o concurso tinha quatro partes: uma sessão de fotos aquática, uma parte de natação – onde eles tinham que nadar embaixo d'água por pelo menos 25 metros – e dois desfiles, um em roupa de banho e um em fantasia. Os candidatos foram avaliados por um júri de quatro pessoas, incluindo Ingrid la Sirène – ex-Miss Sereia Internacional e atual diretora do Miss Sereia França.

No final, o sereio Kewin foi coroado Mister Tritão França. Falei com ele, o segundo e o terceiro lugares, e com meu sereio favorito, Chris, sobre a paixão deles por sereias e por que eles se sentem confortáveis nas próprias barbatanas.

Aurélien, Terceiro Lugar

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Aurélien é de uma área rural no centro da França, onde ele mora com o parceiro. Ele trabalha numa petshop, cuidando da área de peixes. Apaixonado pelo fundo do mar desde pequeno, Aurélien era um nadador ativo. Ele desistiu porque o esporte “não tem imaginação”, ele me disse. Aí ele descobriu sobre sereiar no YouTube, e se sentiu empoderado desde então.

“Sempre tive dificuldade para aceitar meu corpo”, ele confessou. “Ser um tritão me permite ser outra pessoa, superar como os outros olham pra mim e me aceitar como sou. Quando estou embaixo d'água, ninguém me incomoda e posso finalmente ser eu mesmo.” Ele também gosta muito do aspecto de fantasia da coisa toda, como sereiar permite que ele viva temporariamente “numa realidade paralela ao mundo humano” e “esquecer toda a brutalidade dele”.

Achar um lugar para treinar com o traje completo não tem sido fácil – muitas piscinas não permitem que ele use seu rabo. Quando pode, ele nada num rio próximo e às vezes no mar no sudoeste da França, atraindo olhares “curiosos e impressionados”. Depois de ler comentários de um estranho numa matéria sobre ele, ele decidiu parar de se importar com a opinião dos outros. “O que as pessoas acham normal hoje não é necessariamente o que achavam normal quando esse hobby começou. Enquanto isso, não quero desperdiçar meu tempo com esse tipo de gente e só quero viver minha vida.”

Alexandre, Segundo Lugar

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Alexandre, 22 anos, descobriu sobre sereiar com a namorada, Laurianne, também conhecida na área como Miss Kawaii.

“No começo achei estranho, mas nado há cinco anos e adoro estar embaixo d'água”, ele explicou. “Se pudesse, eu ficaria sob a superfície o tempo todo. Mas em termos de performance física, nadar com o rabo não é a mesma coisa para as pernas.” O pintor de aviões vem praticando o hobby com a namorada há cinco anos, mas só admitiu publicamente ano passado.

Desde que se abriu, ele tem feito um esforço consciente para ignorar a zombaria que recebe. “Os caras não veem o aspecto masculino disso”, ele disse. Ele tira inspiração da mitologia nórdica e tempera sua persona com um toque viking: “Isso me faz pensar em Poseidon e seu filho – tem um elemento de combate aqui”.

E Alexandre está acostumado com combate, especialmente confrontando seus haters no trabalho: “Meus colegas tiram sarro”, ele admitiu. “Mas isso só me motiva a ser ainda melhor.”

Kewin, Mister Tritão 2019

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O Mister Tritão França 2019 só descobriu sobre sereiar ano passado. “Nado há muito tempo, e essa foi uma oportunidade de voltar ao esporte”, Kewin me disse. Agora ele treina uma vez por semana numa piscina com uma mononadadeira simples. Às vezes, quando o clima está bom, ele vai nadar na costa, acompanhado da filha pequena – mesmo ela não tendo se interessado em ser sereia ainda.

“Quando encontrei o perfil do Ludo e vi que ele estava organizando uma competição, pensei muito se deveria participar”, ele disse. “Primeiro comprei o rabo de tritão no final do ano passado, aí resolvi entrar na competição.”

E no final das contas, foi a decisão certa. Ele já começou seu reino com a nadadeira direita, sendo convidado para a feira La Mer XXL – uma das maiores exposições marinhas do país – para nadar num tanque gigante, com sua coroa de Mister Tritão brilhando orgulhosamente na cabeça.

Chris, Meu Favorito

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Chris – que fez 30 anos no mesmo dia da competição – é cosplayer há oito anos, mas só descobriu sobre sereiar três anos atrás, durante uma sessão de fotos organizada por um amigo. “Sempre fui fã de criaturas mitológicas e sereias em particular”, ele me disse. “Depois dessa primeira sessão de fotos, meus olhos ficaram brilhando.”

No dia a dia, ele trabalha como chefe do caixa numa rede de supermercados, mas nas horas vagas ele começou uma empresa dedicada a criar nadadeiras e acessórios para sereias. Ele treina num lago perto de casa em Orléans, e aprecia o esporte pela liberdade que sente. “Quando estou na água, tudo é silêncio e nada mais existe ao meu redor.”

Chris acredita que mais homens participariam do hobby se a sociedade não visse as sereias como criaturas apenas femininas. “Os homens precisam atender muitas expectativas em se tratando de sua masculinidade”, ele explicou. “Meus pais me expulsaram de casa quando eu tinha 20 anos por ser gay. Quando você já passou por algo assim na vida, desafiar as normas é mais fácil por padrão.”

Por causa de seu cabelo comprido vermelho vivo, Chris está acostumado com olhares de julgamento, particularmente no trabalho: “É parte da minha vida ter pessoas me encarando”, ele disse. “Por um tempo estive muito envolvido na luta contra a homofobia, mas percebi que é exaustivo demais.”

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Matéria originalmente publicada na VICE França.

Tradução do inglês por Marina Schnoor.