As melhores surpresas do primeiro dia de aula na faculdade

Histórias de quem fritou, curtiu e amou no primeiro trote da vida.

por Giovanna Tavares; ilustrado por Verena Antunes
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fev 1 2018, 1:43pm

Ilustração por Verena Antunes / VICE Brasil.

Não importa se jardim de infância, colégio ou pós-graduação: todo primeiro dia de aula é um bagulho tenso. É sempre o começo de algo completamente novo, que assusta e encanta ao mesmo tempo. Na faculdade, a novidade tem um gosto bem especial: local de estudo, professores, amigos, matérias e por aí vai marcam uma reviravolta na vida. O estômago até embrulha.

E não dá para esquecer que o primeiro dia de aula na facul, qualquer que seja a instituição, é sinônimo de trote. E trote, meus amigos, é um baita de um divisor de águas. Alguns parecem que nasceram para viver esse momento, topando a meleca de tintas e misturas nojentas da cabeça aos pés; outros, porém, se sentem levemente ansiosos com a socialização “forçada” do primeiro dia, quando veteranos e bixos fazem parte de uma única bagunça.

A estudante de Direito Giovanna Sant’Anna não fazia ideia se seria bixete ou não naquele ano em questão. Ela havia ido bem na redação do vestibular, mas estava insegura. Tanto que nem ficou de olho no site da faculdade para ver a lista de aprovados; quem cuidou disso foi seu pai, que estava mais ansioso do que ela. “Ele se formou na mesma faculdade, há 26 anos, então abria o site todos os dias para ver se eu tinha passado. Foi ele quem me ligou para dar a notícia”, lembra ela.

No dia do trote, Giovanna resolveu chamar o namorado para acompanhá-la na bagunça, só por segurança. Ela sabia da farra dos estudantes no primeiro dia de aula e queria poder curtir cada instante daquela nova etapa, sem grandes dores de cabeça. “E acabou rolando de um jeito muito melhor do que eu esperava, embora eu quisesse fazer tudo certinho. Participei das brincadeiras e me respeitaram em todos os momentos. Conheci pessoas maravilhosas”, lembra ela.

Uma delas, aliás, hoje é sua melhor amiga. Giovanna se lembra de prestar atenção a uma moça quietinha e bem limpa no dia do trote, o que era algo bem atípico para o primeiro dia de aula. A bixete não pensou duas vezes e se aproximou da “moça perfumada”, como Giovanna a apelidou. Após uma rápida conversa, a menina explicou que ainda não havia se sujado porque se sentia um pouco deslocada, situação que Giovanna fez questão de mudar rapidinho.

“Em dois minutos ela ficou imunda. Depois, me colocaram junto com ela para pedir dinheiro no farol, descolamos 50 contos e fomos liberadas da brincadeira. Não nos desgrudamos mais, brincamos que nossa amizade foi do trote para a vida. Ela é minha companhia de estudos, minha parceira de atividades, tudo. Nesses quatro anos, ela foi meu apoio e meu ponto de equilíbrio na faculdade”, conta Giovanna.

Mais que amigas, friends

A aprovação da relações-públicas Ana Paula Souza Santos veio como uma surpresa boa. No dia do vestibular, ela se lembra de ter deixado a prova chorando, depois de fazer a redação em questão de minutos. “Eu achei que tinha falhado em tudo, mas tinha vários outros planos. Se não desse certo, eu tentaria fazer outra coisa”, conta. Ela estava no cinema quando uma amiga mandou uma mensagem e contou a novidade: ela havia sido aprovada entre os dez primeiros candidatos para o curso de Relações Públicas. “Comemorei lá no cinema mesmo”, brinca.

E também foi no trote que ela conheceu uma das melhores amigas de sua vida. É aquele ditado, né: o que a meleca do trote uniu, treta nenhuma separa. Principalmente porque é bom demais encontrar alguém que está passando pelo mesmo caos que você no primeiro dia de aula. Naquela época, em 2011, Ana se sentia extremamente ansiosa, com medo de que outros alunos não fossem aceitá-la de alguma forma. A amiga caiu dos céus.

Ilustração por Verena Antunes / VICE Brasil.

“Me sinto assim com qualquer novidade, já que sempre fui muito insegura. Mesmo ansiosa, fui para o trote e acabei gostando da bagunça. Me sujei horrores, mas foi tranquilo. Também não dei moral para a rivalidade com os veteranos, essa coisa de bixo bobo e tal, achava eles uns otários”, diverte-se. No meio do trote, com os ânimos à flor da pele, Ana foi se juntando às pessoas com quem ela mais tinha afinidade. “Eu percebi com quem eu queria andar e com quem eu não queria.”

Foi aí que surgiu a Bianca, a bff do trote que Ana levou para a vida. A conexão entre as duas foi quase que imediata, graças aos dotes cênicos de ambas na hora de pedir dinheiro no farol. “A gente começou a falar em espanhol, como nas novelas mexicanas, dizendo que precisávamos de dinheiro para os nossos bebês. Rimos demais. Até hoje a gente se chama de Lupita por causa dessa brincadeira”, conta ela.

Um trote bem de Humanas

A carioca Liége Rodrigues, que hoje estuda Ciências Sociais, também não botava fé na aprovação do vestibular. A ideia era trabalhar e se preparar melhor ao longo do ano seguinte, sem crise. Quando as notas finalmente saíram, Liége não pode acreditar: seu nome estava lá, na lista de aprovados, algo que parecia surreal e maravilhoso ao mesmo tempo. Só tinha um problema: ela não tinha sido aprovada em Física no colégio e não poderia se matricular enquanto não resolvesse essa treta.

Ansiosa e sem muita esperança, Liége tentou aprender toda a matéria em um mês, crente de que não iria rolar. Depois que a prova acabou, ela resolveu conversar com o professor, explicando que havia sido aprovada no curso de Sociais. Era tudo ou nada. Ele a levou até a secretaria e informou a diretora que Liége estava liberada: tinha passado em Física, enfim. Era hora de virar universitária, o que parecia bom demais para ser verdade.

“Sabe quando você acha que não é suficiente para algo mas, no final, vai lá e consegue? É surreal e é isso. Estudei a vida toda em escola estadual, tudo caindo aos pedaços, numa zona ignorada da cidade e passando por altos perrengues. No fim, consegui o que eu queria. Só sei que fiquei muito feliz e muito grata. Até hoje isso é louco para mim”, conta ela.

A alegria era tamanha que Liége nem cogitou faltar ao trote, fala sério. Afinal, quer algo mais de “sociais” do que a interação entre a galera no primeiro dia de aula? Ela queria aproveitar a oportunidade para conhecer gente nova e descobrir cada cantinho da universidade amada.

“Eu participei do trote todos os dias e foi muito bacana. A minha turma ficou megaunida graças ao trote. Era festa todos os dias, com bar e brincadeiras saudáveis”, lembra Liége.

Mas nada de elefantinho e coisas do tipo. Para a galera de Ciências Sociais, rolou a brincadeira do privilégio. Os calouros precisavam dar um passo para a frente ou para atrás de acordo com as oportunidades e dificuldades que tiveram ao longo da vida, como o acesso ilimitado a livros ou episódios de discriminação, preconceito e violência. Ao fim da brincadeira, os que estavam à frente olhavam para trás para ver quem tinha mais histórias de desigualdade para relatar: negros e LGBTs.

“Foi um choque para todo mundo. Depois nos sentamos e conversamos sobre o fato de, naquele momento, estarmos todos juntos, apesar das diferenças. E que isso deveria ser um motivador para quando a faculdade ficasse muito difícil, para ninguém desistir”, explica Liége.

Para ela, o mais legal foi perceber o clima de cumplicidade naquele primeiro dia de aula; ou seja, todo mundo se apoiando e compartilhando experiências boas, de calouros a veteranos. Não havia competição, rixa, treta ou lenha na fogueira, só amor. “Por mim, podia rolar trote toda semana, isso sim”, brinca a estudante.

No trote tem espaço para todo mundo, dos mais tímidos aos loucos do megafone, que ficam amigos da geral. Mas o importante mesmo é topar somente aquilo que te deixa confortável, sem dar moral para os “sem noção” que tentam ultrapassar os limites da brincadeira saudável. O baile da faculdade segue com ou sem o trote, saiba disso.

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