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O que os filmes de herói podem aprender com 'Homem-Aranha no Aranhaverso'

Marvel e DC, essa é pra vocês.

por Noel Ransome; Traduzido por Marina Schnoor
31 Janeiro 2019, 9:00am

Imagens cortesia da Sony/Disney/Warner Bros. 

É estranho considerar o Homem-Aranha no Aranhaverso da Sony tão novo quando o Homem-Aranha (como franquia) parece tão velho. Velho mesmo. Mais velho que a internet é velha. Velho o suficiente para morrer e voltar 15 vezes. Ele é um idoso com uma história de 56 anos neste ponto e consequentemente ele vem contando a mesma história de picada de aranha, tio morto e herói falido há anos.

Hoje em dia, quando penso no filme de super-herói padrão, eles parecem esse mesmo tipo de velho. Seja um vilão bombado roxo contra seis heróis superpoderosos de hoje, raio de energia contra raio de energia, ou o cara voador número um jogando o cara voador número dois contra um prédio... Parece sempre um recuo. Mas não me senti assim assistindo Homem-Aranha no Aranhaverso.

Apesar de ser um filme onde o clássico Homem-Aranha está entrelaçado com cada ponto do roteiro, ele parece uma adaptação solta dos quadrinhos (da artista Sara Pichelli e do escritor Brian Michael Bendis) sobre o jovem Miles Morales, um adolescente negro e porto-riquenho do Brooklyn, que curte arte de rua. Como Parker, ele tem suas próprias inseguranças, seu momento radioativo e, quando dá merda envolvendo várias direções, eles me deram um filme com muito coração e um grande entendimento do herói que adoro.

Vários filmes, novos e velhos, podem aprender com essa nova abordagem de um herói antigo. E eu tenho uma listinha de todas essas lições aqui:

Aranhaverso entende por que os fãs curtem o personagem.

Batman vs Superman poderia aprender com isso.

Quando penso nas fórmulas do passado que funcionaram, elas tomaram decisões certas sobre quem um protagonista era. Com O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, ele entendia que o Batman mais mal-humorado e grosso que todo mundo adora tinha a ver com a filosofia do justiceiro; aquele homem de pensamento vazio que leva a uma variedade mais vazia de heroísmo. Em contraste, Patty Jenkins honrou a Mulher Maravilha como uma heroína desafiadoramente esperançosa e otimista arriscando parecer brega. Aranhaverso nesse espaço sabe como celebrar um personagem querido por seu apelo de base. Miles Morales tem uma família que ele ama, se sente culpado por estar recebendo educação superior por meio de uma loteria de escola particular. E Peter Parker sofre de depressão graças a inseguranças e decisões que impactaram sua vida doméstica. Como mito, o Homem-Aranha sempre foi querido como um personagem sempre à beira da grandeza, mas incapaz de alcançá-la por causa da vida mesmo.

Já o Batman vs. Superman de Zack Snyder não saca nada do Superman. Em vez disso, eles só apresentaram uma imitação péssima do Batman – todo sombrio e duro – quando o oposto do Super-Homem era verdade. Mesmo não aguentado aquela merda de moralidade inumana, o Superman ganhou uma base de fãs porque ele era um ideal incorruptível. Ele era um cara do Kansas meio deus cuja moralidade vinha de um homem normal (Jonathan Kent). Aquela estética de alienígena superpoderoso versus humano ricaço não dava nenhuma ideia certa de onde a luta entre o Superman e o Bruce Wayne daria, e vice-versa.

Aranhaverso entende o humor.

O Espetacular Homem-Aranha 1 e 2 podiam ter aprendido com isso.

Eu entendo: a Sony ainda estava se recuperando do Homem-Aranha do Tobey Maguire de 2007, então era preciso uma mudança. Eles decidiram por um negócio de contracultura. Eles tiraram o Peter Parker de seu passado quatro-olhos e o transformaram no skatista pensativo e sempre cansado de Andrew Garfield. Sim, vai funcionar. Mas não funcionou. Garfield foi o Homem-Aranha mais desagradável que já vi, sem querer desrespeitar o talento dele, mas muito do que torna o personagem do Homem-Aranha tão querido é a habilidade dele de rir e chorar ao mesmo tempo.

Aranhaverso abraça isso e mais. Miles como personagem é atrapalhado com suas habilidades de aranha, tipo um adolescente impressionado com suas descobertas, então é fácil rir com o crescimento dele em vez de rir dele. Tem uma consistência em cada Homem-Aranha e Mulher-Aranha que é perspicaz e disseca o que os fãs conhecem do folclore do Spidey. E é aí que seu impacto dramático é sentido.

Aranhaverso entende o “visual”

O Homem de Aço e Batman vs. Superman poderiam ter aprendido com isso.

Um filme ruim de super-herói pega todas as bobagens superficiais que tornam um herói reconhecível (poderes e o nome) e esquece o resto. O Homem de Aço (2013) pesou a mão no traje, mas introduziu tons mais sombrios. Isso foi logo depois do sucesso de Cavaleiro das Trevas, então naturalmente Snyder ignorou as cores fortes do Super-Homem de 1973, e investiu em cores mais monótonas estilo Batman dos anos 2000. Não deu certo.

Compare isso com Aranhaverso, que abraça o espectro artístico do passado da franquia. Seja o Robby Rodriguez e sua técnica Gwen Stacy, o estilo de quadrinhos pop arte da Marvel, ou a leveza da série mangá/anime, cada pedacinho do filme é uma carta de amor ao Homem-Aranha numa escala sensorial. Das caixas amarelas de legenda de diálogo interno (como uma tirinha), até a implementação da jornada 2D para 3D de ser o Homem-Aranha dão uma sensação autêntica. É contagiante. (Dica: continue até o fim!)

Aranhaverso reconhece seu passado.

O Espetacular Homem-Aranha e Homem-Aranha: De Volta ao Lar podem aprender com isso.

Na sequência de abertura, o Spidey de vinte e poucos anos meio deprimido (Chris Pine) começa um monólogo sobre a história da trilogia (de Sam Raimi): o beijo na chuva com a Mary Jane (Homem-Aranha), a parada do trem (Homem-Aranha 2), aquele incidente no restaurante e a vergonhosa caminhada na calçada (Homem-Aranha 3). Entre esse momento e o próximo, o que começa com uma montagem básica vai parecendo cada vez mais piada interna.

Depois de Homem-Aranha 3, a Sony ignorou a última entrada de Sam Raimi. E disso eles nos deixaram com um ciclo de adaptações que ou ignoram ou remixam os elementos “clássicos” do mito. De Volta ao Lar optou por outro Parker que não teve que lidar com a piada de que o desemprego e a falta de amigos tornaram Parker quem ele é. E já falamos sobre o Homem-Aranha mais descolado que nem pensa em seus antepassados. Não me entenda mal, esses filmes poderiam ser meio decentes, mas não eram bons filmes do “Homem-Aranha”.

Aranhaverso em comparação joga piadas e material autorreferenciais um atrás do outro. Ele sabe que conhecemos as histórias agora, e isso não muda nada. O que sentimos então é um estranho laço, como um espectador que investiu tempo e amor nesse passado. Boa ou ruim, é a experiência de cada momento-aranha que importa.

Aranhaverso como tema faz sentido.

Vingadores: Guerra Infinita poderia aprender com isso.

Tá, qual o tema de Guerra Infinita? Bom, diferente da maioria dos vilões que querem dominar o universo, temos um imitador roxo do Hulk tentando salvá-lo. Você já sabe o plano dele agora; eliminar metade da vida no universo ou algo assim estralando os dedos. Não interessa que o poder da pedra da realidade que ele tinha já poderia ter resolvido o problema – eu já disse isso antes. O ponto é: a motivação não faz muito sentido, e isso matou o filme inteiro pra mim.

Tematicamente, Aranhaverso compartilha os mesmos fios de De Volta ao Lar. Um moleque com ajuda de um mentor (o Homem de Ferro) aprende a ser um herói do seu próprio jeito, blá, blá, blá. Mas com Aranhaverso, o tema é a pergunta: o que significa ser o Homem-Aranha? Isso é respondido com um Parker que esqueceu como ser um herói. É respondido por Miles tentando entender a responsabilidade. Não é uma história da Gwen Stacy ou uma história do Parker, é uma história do Homem-Aranha. Uma que minha mãe (Homem-Aranha de 1976), meu primo mais novo (Sam Raimi, 2002), e eu (a animação de 1994) vamos reconhecer dos nossos jeitos diferentes. É um tema que se faz sentir. Uma celebração de quem o Homem-Aranha era, é, e vai se tornar.

Aranhaverso está pouco se fodendo para seus vilões.

Doutor Estranho pode aprender com isso.

Não sei dizer a última vez que assisti um filme em que eu não dava a mínima pro bandido. Tem algo especial nisso: quando um filme de super-herói escolhe não depender do vilão do dia para avançar o roteiro. Alguns dos melhores filmes da Marvel, como Guardiães da Galáxia, escolhem quebrar o molde padrão fazendo um time estilo Seinfeld de desajustados espaciais ser o foco. Sim, é um sacrilégio dizer isso quando você tem o Coringa do Heath Ledger, mas considere o que aconteceu com a sequência – não ficou tão atraente, então é um filme esquecível do Batman. Tratando-se de filmes, Doutor Estranho é o criminoso mais recente aqui. Focar o enredo num vilão fraco acabou rendendo só uma grande demonstração de efeitos especiais. Eu não ligava para o Dr. Estranho, que parecia só um coadjuvante no próprio filme.

Claro, Aranhaverso tem uma narrativa padrão de bem versus mal (Wilson Fisk fodendo com o espaço contínuo), mas isso meio que fica de lado para dar espaço para várias histórias de amadurecimento. É sobre o Parker conseguindo sua motivação de volta. Sobre os outros aranhas voltando pra casa e sobre o Miles aprendendo o que significa usar o traje. O que é mais importante aqui acaba recebendo a maior atenção (como deveria), e é assim que você vende a ideia de uma sequência para um fanboy como eu. Vilões vêm e vão, gente, mas os heróis estão aqui pra ficar.

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