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A camisinha perfeita já existe, mas ela ainda não pode ser vendida

Valeu, cientistas.
19 Setembro 2017, 4:35pm

É uma verdade universalmente reconhecida que camisinhas são péssimas.

Não é preciso se sentir culpado por achar isso — os especialistas também concordam. Pelo menos é o que diz Brandon Brown, pesquisador da área de saúde e professor adjunto do Departamento de Medicina Social e Saúde Comunitária da Universidade da Califórnia, nos EUA. "Camisinhas são uma bosta, e é por isso que as pessoas não gostam de usá-las", diz Brown. "Elas parecem papel filme; além disso, elas fedem." As pessoas também reclamam, diz ele, do efeito broxante que acontece depois que colocam a camisinha.

Não estamos dizendo que você deva abandonar a camisinha (calma, cara, por favor) — quando utilizada corretamente, sua taxa de eficácia é de 98%, e ela funciona, segundo o CDC, "como uma barreira impermeável aos patógenos das DSTs", impedindo a transmissão de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis.

Mas isso não nos impede de reconhecer que a camisinha é desconfortável, difícil de usar e ineficaz quando usada incorretamente — um estudo feito em 2008 revelou que 32% dos homens relataram falhas no uso da camisinha, entre elas rupturas, nos últimos três meses. Se você faz parte dos dois terços dos adultos que não usam camisinha regularmente, segundo dados divulgados mês passado pelo CDC norte-americano, ou se você é um dos 43% dos adolescentes que não usaram uma camisinha em sua última relação, sabemos que você tem seus motivos.

Brown explica que, curiosamente, a tecnologia dos preservativos manteve-se estagnada nos últimos cem anos — para ser mais exato, o design da camisinha é o mesmo desde 1830, quando os intestinos de animais foram substituídos por látex. A última grande mudança, se é que podemos chamá-la assim, foi a introdução do reservatório, a pontinha presente na maioria das camisinhas, 70 anos atrás.

Os preservativos não evoluíram mesmo frente à epidemia de DSTs, e elas ainda não impedem a transmissão de doenças como o HPV, que é transmitido por meio do contato manual. Segundo Brown, o preservativo não foi criado para impedir a transmissão de DSTs; seu objetivo era apenas evitar a concepção. "Para isso ele funciona muito bem", acrescenta ele, completando que fabricantes de preservativos vêm melhorando seus produtos aos poucos — acrescentando novas texturas, por exemplo, ou substituindo o látex pelo poliuretano (o que resulta em camisinhas mais finas e igualmente resistentes). "Mas ainda temos o mesmo problema: como é mais divertido transar sem do que com camisinha, as pessoas evitam usá-la."

"Temos camisinhas com relevos, ranhuras e sabores, mas eu te desafio a achar um engenheiro disposto a considerar essas mudanças significativas", acrescenta Stuart Nugent, diretor de comunicação da Lelo, uma fabricante de brinquedos eróticos.

Ano passado, a Lelo chamou a atenção da imprensa ao lançar a Hex, anunciada como uma camisinha revolucionária. O objetivo da camisinha futurista era solucionar três problemas — o desconforto, o deslizamento e o risco de ruptura — com o advento de um padrão em forma de hexágonos. Quando questionado por que uma empresa conhecida por seus vibradores é a única disposta a revolucionar o preservativo, Nugent disse que a resposta é simples: comodismo.

"Existem algumas (leia-se: três) marcas influentes e estabelecidas na indústria dos preservativos, e elas se contentam em acumular lucro e evitam competir entre si por medo de desestabilizar um mercado tão estável", diz ele. "Por muito tempo, elas monopolizaram a indústria da saúde sexual, comprando e desmantelando startups inovadoras ou registrando patentes sem intenção de usá-las. É incrivelmente difícil para uma empresa menor entrar em uma indústria tão monopolizada. Sabemos, por exemplo, que nossas patentes foram estudados cuidadosamente por nossos concorrentes muito antes que a Hex chegasse às prateleiras."

Nos últimos anos, houve algumas tentativas de reinventar a camisinha. Em 2013, Brandon Brown, da Universidade da Califórnia Riverside, foi um dos pesquisadores a solicitar uma bolsa da Fundação Bill e Melinda Gates destinada à criação da próxima geração de camisinhas.

Em novembro do mesmo ano — e também em junho de 2014 — a fundação anunciou os nomes dos ganhadores das bolsas de US$100.000. Os projetos incluíam camisinhas que se encolhiam durante o sexo, que cobriam o pênis como papel filme ou que eram feitas de polímeros finíssimos e resistentes que transmitem calor de forma mais eficaz, resultando em uma experiência mais quente.

Mas até o momento, nenhuma dessas propostas — nem os preservativos feitos de nanopartículas ou aqueles fortalecidos com colágeno extraído de tendões bovinos — chegou ao mercado. Mark McGlothlin, criador da camisinha feita de tendão de vaca e diretor da Apex Medical Technologies, disse à Mic em 2015 que o problema é de ordem financeira: "Provavelmente gastaríamos mais de um milhão de dólares só para conseguir a aprovação do FDA (Food and Drug Administration, a Anvisa dos EUA). É um processo brutal."

No momento, esse empecilho é o suficiente para impedir que essas novas camisinhas cheguem às prateleiras. Em julho, um grupo de pesquisadores do MIT anunciou a criação de um tipo de hidrogel que poderia, graças às suas propriedades únicas, ser usado na fabricação de preservativos (e cateteres) mais confortáveis. Em um estudo publicado na revista Advanced Healthcare Materials, a equipe explica que, além de impermeável a vírus, o laminado gelatinoso é flexível, macio e escorregadio, o que faz dele o material perfeito para a fabricação de camisinhas.

"A coisa mais legal desse hidrogel é que ele imita tecidos humanos — como pele e músculos — muito bem", diz German Parada, o doutorando responsável pelo estudo. Embora o hidrogel sintético exista desde os anos 60, Parada explica que sua equipe só descobriu como associá-lo a outros materiais como metal, vidro e látex nos últimos dois ou três anos. A fluidez do material torna o processo trabalhoso, o que faz da pesquisa do MIT revolucionária. "É por isso que essa tecnologia ainda não chegou ao mercado", acrescenta ele. "Ela ainda não está sendo comercializada porque é uma tecnologia muito nova."

Portanto, enquanto ele e sua equipe se esforçam para comercializar seu produto, trabalhando em conjunto com programas de apoio ao empreendedorismo universitário para transformar esse sonho em realidade, serão anos de testes — e milhões de dólares de investimento — até que esse preservativo possa melhorar sua vida sexual.

"É uma tecnologia interessante, mas por enquanto ela é puramente científica", diz Parada. "Temos um longo caminho até que ela chegue ao mercado."

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