Radiografia Urbana

O grave do tambor é a única lei na mistura rítmica da Bahia

A mistura de ritmos que começou no encontro do samba com o reggae nos anos 70 vive uma nova fase na música baiana pelas mãos de produtores de eletrônica e equipes de soundsystem.

por Eduardo Ribeiro
26 Setembro 2017, 6:10pm

Mauro Telefunksoul discotecando no XYZ. Foto: Matheus Thierry/VICE

Este conteúdo é um oferecimento Natura Musical.

A sonoridade contagiante da música baiana é calcada do acasalamento entre os ritmos regionais do estado com estilos tão diversos quanto black music, electro house, reggae e Miami bass. Na Bahia é assim. Você vai de uma cidade a outra, de um bairro a outro, e sente a mudança de BPM no som que a galera curte. Daí a variedade de subprodutos dessa mistura. "Somos muito ricos nessa onda do ritmo, que é o ritmo da nossa vida mesmo", explica Felipe Pomar, da Subterrâneo Records e do coletivo Trap Funk & Alívio. "A galera tem o costume de dizer que o baiano é lento, mas aqui você vai ver pessoas com velocidades diferentes dependendo do lugar. Isso se reflete na diversidade de ritmos." Um dos mestres da mesclagem rítmica é o Mauro Telefunksoul, egresso dos coletivos Paratecno e Crokant.

Mauro começou se aventurando no Miami bass em 92 e, aos poucos, foi agregando ritmos locais à receita para dar uma personalidade brasileira aos compassos. Samba de roda, samba-reggae, reggae, dub, afoxé e mais uma pá de coisas loucas se diluíram às primeiras misturas. Desde então, o batidão só evoluiu. Já os caras do coletivo Trap Funk & Alívio definiram a sua onda rítmica mesclando beats de rap, house e deep house com o tamborzão do funk carioca e trap music. Felipe Pomar dá seu palpite a respeito da química natural entre as vertentes musicais baianas e a eletrônica conduzida pelas frequências graves: "Os ritmos aqui da Bahia são num tempo que coincide com alguns ritmos dessas ramificações da música eletrônica. Aí casa perfeito. O grave cabe em todo lugar." Em todo lugar mesmo. Basta reparar no Rafa Dias aka ÀTTØØXXÁ, lá da ilha de Paulo Afonso, que está reinventando o pagodão baiano.

Mauro Telefunksoul no aquecimento pra festa. Foto Matheus Thierry/VICE

Telefunksoul não parou no tempo. Hoje em dia ele mistura tudo em suas produções. Moombahton, reggaeton, trap, salsa, funk carioca, afrohouse, house, ijexá, coco, pagode, arrocha, samba chula... Em seu novo álbum, Afroxé Bass, ele presta tributo aos blocos afro e afoxés da Bahia. "O engraçado é que tudo que se ouvia nos anos 90 voltou com mais grave e mais punch", comenta ele. "Sou literalmente fã dos timbres e samples da Roland 808. Geral da eletrônica usa e abusa."

Mauro Telefunksoul abrindo para Sidney Magal. Foto: Matheus Thierry/VICE

Outros artistas locais que seguem fazendo um som na mesma pegada são o Lord Breu, DJ Werson, Loro Vudu, ZehduBass, Ubunto, Djalma Live e Roça Sound. "Queira ou não o que estamos produzindo remete a algo bem popular", avalia Mauro. "Não tem mais aquela onda underground e sim um overground. Casas pop e alternativas acolhem. Tento produzir um som eletrônico e orgânico pra que o produto final seja uma boa track pra pista."

E as pistas bombam com um público que se reúne geralmente no Rio Vermelho, onde tem o Commons Studio Bar, o Trapiche, Tarrafa e a boate XYZ. Desses, um clube que sempre abriu pra esse tipo de som é o espaço Commons, antigo Farol do Rio Vermelho. O gravão abala as estruturas também nos clubes Idearium, Chupito Bar, Zero, A Borracharia, Feira da Cidade, Barra 33 e 116 graus. "Aqui as pessoas que tocam ou produzem essas músicas estão concentradas no centro de Salvador. Hoje a gente vê o resultado dessa caminhada. Só na coisa de propagar pela internet começamos a dominar aqui na Bahia", diz Felipe Pomar.

"Quase todos os artistas tocam em quase todas as casas", completa Lord Breu. "Eu tenho uma residência quinzenal no Chupito Bar, onde faço um long set de música grave e música tropical de todo o mundo, e também numa festa afro-latina mensal chamada Fuêgo, no espaço 116 graus, além de tocar com alguma frequência n'A Borracharia. Diferentes artistas têm seus projetos em outras casas, onde também me apresento a convite deles ou das produções." O Lord lançou o seu primeiro EP em 2014, participou dos três volumes da coletânea Bahia Bass, e já deu som em festivais como o Invasão Baiana (Rio de Janeiro) e o Eletronika (Belo Horizonte). Suas influências são os blocos afro, reggae, hip hop, dub, samba, jazz, dub e batuques em geral.

Alguns artistas trabalham mais nos meios digitais, em faixas colaborativas intercontinentais. Igual o Trap Funk & Alívio, que recentemente soltou uma faixa em parceria com o africano Teekay tha Newborn e o DJ Kashaka, de Nova York. No meio disso tem a galera que dá festa, envolvida no circuito notívago, e o pessoal do sound system. Uma das forças deste último é o Ministério Público Sound System, sistema de som perambulante que sempre se referiu à cultura baiana, de olho nas festas de largo.

Russo Passapusso, do Baiana System, agitando o Carnaval de Salvador. Foto: Antonello Veneri/VICE

O Ministério é ativo na realização do Mutirão Mete Mão, festival de cultura urbana, e das Quintas Dancehall. Tudo Isso já vem rolando há mais de dez anos. "A galera largou tudo o que estava fazendo de trabalho pra comprar caixas de som e valorizar a cultura do grave como relação social, do povo da rua, não apenas a questão do som, da frequência", dá a letra Russo Passapusso, vocalista do Baiana System e participante do Ministério Público. "A gente [o Baiana System] vem dessa militância. Claro que abraçado ali pelas influências do DJ Magrão, de todo mundo que vinha caminhando com isso, como o Jorge Dubman." Dubman, do projeto solo Dr. Drumah, é integrante do IFÁ Afrobeat e grande baterista da cultura reggae de Salvador, referência para todos os subgêneros.

O sound system em Salvador vem desde a época dos eventos no Pelourinho, em 99, com grandes reggaemen da cidade, como Aluminio Roots. Alumínio foi líder do Cultura em Movimento, na Rocinha do Pelourinho. Na opinião de Russo Passapusso, o movimento todo de ressignificação dessa bagagem iniciou-se quatro anos atrás, quando Rafa Dias se juntou com Mahal Pita e eles fizeram o A.MA.SSA, misturando pagodão, trap, samba, samba-reggae, grime, chula, dubstep, Ijexá, rap, arrocha, ragga e electro. "Aquilo era fantástico, tinha traços da nossa cultura, uma evolução e pensamento conceitual muito forte. Não era só comercial. É algo que até cito na letra de uma música do Baiana: 'A. MA.SSA. é o pagodão que gruda mais que chiclete'. Porque tem conceito ali, uma visão ampla que não é um mero produto", elogia.

O Mahal também toca com o Baiana. A música "Forasteiro", do Baiana System, é uma composição dele com Roberto Barreto. Assim como "Invisível", ela cabe dentro da ideia de valorização do samba-reggae, grande pilar da cultura baiana, cuja origem remete à chegada dos reggaemen da Jamaica a Salvador, como Linton Kwisi Johnson, Gregory Isaac e Lucky Dube, e à influência que eles exerceram nos blocos afro a partir dos anos 70, como Ilê Ayiê, Filhos de Gandhy, Malê Debalê, Olodum, Ojubá, Araketu e Apaxes do Tororó.

"Retirantes do interior, em busca de uma vida melhor na capital, trazem sua cultura pra misturar. E encontram na capital uma explosão artística", observa Russo Passapusso sobre as primeiras fusões sonoras com o tambor baiano. E critica: "A industrialização da axé music foi o que sugou a alma disso tudo, teve muita manipulação de cultura de massa. No começo, as músicas eram mixadas e masterizadas com as sobras de graves dos tambores. Vários tambores pra um cantor só. É isso aí que é a parada. A partir daí que a discussão começa." Para ele, o samba-reggae não é passado, é o presente da música baiana: "É o que está acontecendo nas nossas ruas. O que aqueles caras cantaram, cantamos até hoje."

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