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Estudos mostram que só há um jeito de acabar com a pirataria: serviço barato

Não somos nós que estamos dizendo: pesquisadores calcularam que esforços agressivos antipirataria não funcionam, não funcionaram e provavelmente nunca funcionarão.

por Karl Bode; Traduzido por Marina Schnoor
27 Fevereiro 2019, 8:15pm

Um estudo atrás do outro vem mostrando que a melhor abordagem para lidar com pirataria na internet é fornecer alternativas de alta qualidade a custos mais baixos.

Há décadas, a indústria do entretenimento trava uma luta ferrenha contra a disseminação de seus conteúdos de graça na internet. Geralmente isso envolve grandes processos contra esses usuários o tentar bani-los totalmente da internet. Esses esforços historicamente têm se mostrado de pouco sucesso.

Dados mostram consistentemente que tratar esses usuários como criminosos irrecuperáveis pode não ser a abordagem mais inteligente. Alguns estudos mostram que piratas estão rotineiramente entre os maiores compradores de conteúdo legítimo e, quando você fornece a esses usuários acesso a opções melhores, eles vão aceitar sua proposta.

Essa ideia foi reforçada por um novo estudo da Nova Zelândia esta semana. O estudo, pago pela operadora de telecomunicações Vocus Group, entrevistou mil neozelandeses em dezembro. Metade dos entrevistados afirmou ter pirateado conteúdo em algum momento, mas os números caíam quando havia alternativas populares de streaming.

O estudo descobriu que 10% baixam conteúdo ilegal via BitTorrent ou outras plataformas. Mas eles também descobriram que os usuários têm cada vez mais chances de obter o mesmo conteúdo por meio de suas assinaturas de TV (75%) ou serviços de streaming legítimos como a Netflix (55%).

“Resumindo, a razão para as pessoas se afastarem da pirataria é que isso simplesmente dá mais trabalho”, disse a executiva do Vocus Group Taryn Hamilton numa declaração.

Historicamente, a indústria do entretenimento tem tentado enquadrar piratas como sanguessugas interessados exclusivamente em conseguir tudo de graça. Na realidade, é mais sábio vê-los como consumidores em potencial frustrados que ficariam felizes em pagar por conteúdo se ele estivesse mais amplamente disponível, apontou Hamilton.

“A pesquisa confirma algo que muitos especialistas em internet acreditam instintivamente há tempos: pirataria não é comandada por infratores da lei, mas por pessoas que não conseguem o conteúdo de querem de maneira fácil ou barata”, ela disse.

Mas isso é muito mais que instinto. Estudos do mundo todo sempre chegam na mesma conclusão, diz Annemarie Bridy, professora de direito da Universidade de Idaho, nos EUA, especializada em copyright.

Bridy apontou vários estudos internacionais, americanos e da União Europeia que mostram que usuários vão partir rapidamente para opções legais quando elas estão disponíveis. Quase todos eles consideraos riscos de privacidade e segurança envolvidos em baixar conteúdo pirata de fontes duvidosas.

“Isso é especialmente verdade considerando que 'sites piratas' agora estão cheios de malware e outros conteúdos maliciosos, o que os torna um risco para os usuários”, disse Bridy. “Parece óbvio que, quando você diminui as barreiras para aquisição de conteúdo legal diante do aumento das barreiras para aquisição ilegal de conteúdo, os usuários optam pelo conteúdo legal.”

O especialista em copyright e cofundador da Techdirt Mike Masnick também disse a Motherboard que seu estudo de 2015 chegou à mesma conclusão. Ele descobriu que, enquanto as taxas de pirataria tendiam a cair um pouco depois de esforços mais agressivos antipirataria como filtros de internet, as taxas de infração de copyright tinham um pico depois que os usuários descobriam como contornar essas restrições.

“Quando a Suécia introduziu leis severas antipirataria, a taxa geral de pirataria no país continuou quase a mesma entre antes e depois da lei – com as taxas de pirataria de TV na verdade subindo depois da lei”, ele disse. “Essas taxas só começaram a cair anos depois, quando a Netflix entrou no mercado.”

É difícil contestar a ideia de que a melhor solução para a pirataria são serviços melhores, não restrições draconianas de internet, disse Masnick.

“De novo e de novo, estudos e o bom senso mostram que a pirataria é resultado de uma falha no mercado para fornecer o que os consumidores querem, em termos de conveniência, preço e seleção”, ele apontou.

E enquanto violação de copyright muitas vezes é mostrada como uma atividade puramente maligna, não é sempre tão simples. Outro estudo recente da Universidade de Indiana, também nos EUA, descobriu que a pirataria às vezes age como outra forma de competição, obrigando os criadores de conteúdo e operadoras de TV a cabo a oferecerem serviços mais atraentes e baratos.

“Pirataria insere 'competição nas sombras' num mercado de outro modo monopolista, e essa ameaça de competição da pirataria pode dar um incentivo maior para as empresas inovarem e investirem em áreas que a pirataria não pode imitar facilmente”, disse o pesquisador da Universidade de Indiana Antino Kim a Motherboard por e-mail.

“Acesso fácil, streaming rápido e sem interrupções, imagens e som em alta definição, várias opções de linguagem, serviços personalizados – esses são só alguns exemplos de onde as empresas podem realmente superar a pirataria e diferenciar seus produtos das versões piratas”, ele apontou.

Uma nova onda de competição de streaming destacou esse lado irônico da equação. Os primeiros dados sugerem que, quanto mais operadoras de streaming entram no mercado (geralmente escondendo seu próprio conteúdo atrás de paywalls exclusivos), essa confusão de custos altos (de ter que assinar vários serviços para acessar seu conteúdo favorito) empurra os usuários de volta para a pirataria.

Dito isso, a lição ensinada por incontáveis estudos continua a mesma. Se a indústria do entretenimento quer que os usuários parem de piratear, sua melhor opção é ver a pirataria como um competidor – aí oferecer uma alternativa de preço mais baixo e qualidade mais alta.

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