Amigos de Marielle querem transformar o luto em luta
A militante Simone Nascimento. Foto: Felipe Larozza/VICE
Identidade

Amigos de Marielle querem transformar o luto em luta

"Ela representava a renovação política, a força do de baixo, a mulher negra que ocupou a universidade."
04 Abril 2018, 10:00am

A vereadora Marielle Franco pautava quem cercava sua realidade: mulheres, população negra, jovens, LGBTs e periféricos. Sua morte reverberou pelo Brasil e atingiu pequenas esferas internacionais, alertando os assombros que permeiam os defensores dos direitos humanos no país.

Cada vez mais cedo, os jovens estão exercendo e encarando a política, tornando-se conscientes de suas convicções e visão de mundo. Nesse aspecto, falamos com militantes de São Paulo para conhecer suas histórias em relação à Marielle e qual a herança que todo o caso reflete em suas lutas.


Foto: Felipe Larozza/VICE

Simone Nascimento, 25 anos

"Em primeiro lugar, a Marielle era uma expressão muito forte do que a gente sonhava para o partido Socialismo e Liberdade e para o nosso campo, o campo da esquerda anticapitalista. Apesar de disputar esse sistema, ela não se rendeu às normas dele.

Ou seja, ocupava o espaço como instrumento do povo, como ela mesmo costumava dizer e foi lema da campanha dela 'Eu sou porque nós somos' e a Marielle permanece sendo isso para nós.

É muito triste pra mim enquanto mulher negra. Foi arrebatador, mas eu acho que a gente deve olhar tudo isso para seguir na luta, ser bem forte e que a gente não vai se calar, não vamos nos silenciar por conta disso. Acho que escolheram muito bem a Marielle porque ela representava fortemente a renovação política, a força do de baixo, a mulher negra que ocupou a universidade, que construiu uma carreira de luta e defesa dos direitos humanos, uma trajetória de luta, de movimento social. Representava a Maré, mas não só; representava todas as quebradas do Brasil. E, importante, representava os 99%, que são aqueles que não chegam no poder.

Ela era um símbolo pra muita gente, era uma mulher, preta, favelada, mãe, lésbica e socialista, revolucionária, anticapitalista. E por isso eu me identifico tão forte com ela.

Estive em vários momentos com a Marielle. Na campanha passada, no Rio de Janeiro, fui num comício no Jacarezinho, na favela, e era muito forte ver o quanto as pessoas gostavam da Marielle. Os meus amigos jovens do Rio, inclusive da mesma organização da qual faço parte, sempre foram muito próximos desses projetos, desse sonho dela. Era o nosso sonho também e a gente se sentia muito representado. Era uma força muito grande, de nos dar esperança pra seguir na luta e ver alguém chegando lá que não se rende, que permanece sendo o que é, permanece representando.

Essa é a maior lição que a gente tira. Nós precisamos seguir na luta porque os ideais da Marielle são nossos também, na construção de um mundo possível, um mundo onde não exista discriminações raciais, que não exista machismo, LGBTfobia, um mundo possível onde a gente não tenha segregação social e racial. Que o nosso lugar de existir não seja a precarização, a mais precária saúde. Um estado como o Rio de Janeiro, que está em desmonte.

A Marielle lutava em desmonte, lutava pelos direitos humanos e teve muita força de disputar a institucionalidade e ter mais de 46 mil votos, a quinta vereadora mais votada do Rio.

A maior mensagem que fica é que nós precisamos não deixar de falar sobre a Marielle, entender o que significa. Teve um ato no Rio com uma faixa muito importante. "O legado é: intervenção militar, não em nosso nome." A Marielle era contra a intervenção, era contra a violência no estado do Rio de Janeiro, e contra a violação dos direitos humanos e o extermínio e genocídio da população negra. O maior recado que a gente deu foi a convocação de atos em todo o Brasil, não só pedindo a justiça para saber quem foi o mandante que executou o Anderson e a Marielle, mas sobretudo, de entender que o principal culpado é o Estado, porque ele é o maior mantenedor da injustiça e da violência que está acontecendo no Rio de Janeiro e em outros lugares do país."

Foto cedida por Marcelo Rocha

Marcelo Rocha, 20 anos

"Já fui várias vezes ao Rio encontrar Marielle. Já fui fotografá-la, pois sou fotojornalista. Na semana anterior [ao assassinato], no sábado, tínhamos nos encontrado na Conferência Cidadã aqui em São Paulo, que lançou a candidatura do Guilherme Boulos e da Sônia Guajajara. Conversamos sobre renovação política e tal.

Marielle era uma pessoa contagiante, passava uma energia. Ela falou: 'Marcelo você tem que entrar na política, temos que ocupar esses espaços, mudar esses espaços. Eu enfrentei essas dificuldades e entrei'. Ela impulsionava as pessoas a estar nesses espaços e ocupá-los.

Quando recebi a notícia da morte da Marielle, estava em Salvador, no Fórum Social Mundial, e foi muito difícil. Vimos que uma vereadora foi morta e [pensamos] nossa, quem deve ser? Quando recebemos a notícia que era a Marielle, foi bem pesado.

Ela impulsionava e falava que era muito difícil. Amanhã pode ser eu, hoje mesmo pode ser eu, falando enquanto militância de rua, mesmo estando um pouco longe dos cargos institucionais. Mas quando você está nesses espaços, e até fora deles, recebe ameaça, faz denúncia, você não sabe se volta, e [isso acontece] toda noite. Eu vou para a capital, participo de alguma coisa, pego duas horas de trem para voltar para casa e não sei o que vai acontecer, fico inerte, principalmente porque vi isso acontecer muito com amigos em São Paulo. A galera estava em ocupações em escola e era agredida pela Polícia Militar, ou alguém que tomou um enquadro e apanhou bastante porque o policial sabia que estava na ocupação. Esse estado de intervenção nunca acabou para nós. Estamos construindo política para além disso, pelo racismo, pela questão de gênero também.

Quando ocupamos esses espaços, percebemos que muita gente está acomodada e há uma diferença: a maioria das pessoas que vem de família mais ricas, de outras situações, também vão sofrer repressão do Estado, mas é muito diferente quando é um negro, uma mulher, um LGBT. O Estado já se utiliza das condições de minoria, falando em questões sociais e não quantitativa, ele multiplica essa ação da cena sem julgamento. Vários defensores dos direitos humanos do Rio de Janeiro estão denunciando a todos, mas quando eles executam, executam uma mulher negra, a mulher periférica, favelada, a quinta mais votada do Rio.

Quando olhamos para nós mesmos, é muito difícil falar que posso disputar um cargo legislativo porque amanhã posso estar morto. Eu vou pro ato, vou para a militância hoje, mas amanhã posso estar morto. O legado que a Marielle deixa é o legado de entrega, de martírio, de entregar o próprio corpo pelos outros. Porque a gente sabe que vai morrer qualquer hora e que o Estado está com o alvo para nossas caras.

O que a gente pode fazer é não parar de lutar, estar entregue ao outro. O Estado quer nos abater e não vamos morrer calados, não vamos deixar que nossas ideias morram, não vamos morrer sem que a gente possa falar, denunciar, propor e criar uma outra sociedade. Esse é o maior legado da Marielle. Morrer e deixar uma história, não morrer silenciada, mas morrer e expandir a sua voz."

Luka França, 32 anos

"Em algum momento o Brasil ia conhecer quem era Marielle. Ela era tipo uma força da natureza, mesmo.

É muito difícil olhar todas as pautas que há anos a gente trava, pautas sobre o que significa a violência policial, a guerra às drogas, o genocídio da juventude negra, a diferença que tem entre os mais ricos e os mais pobres. Isso tudo vem tomando uma forma, vem tomando importância a partir da morte de uma das nossas mais aguerridas militantes.

Nós demos grandes respostas, seja no Rio de Janeiro, seja em São Paulo, seja em Curitiba, no Distrito Federal, dizendo que queremos saber, queremos justiça pela Marielle, mas não queremos só justiça, queremos continuar e defender o legado político da Marielle, que significa ser contra a intervenção militar no Rio de Janeiro, colocar no debate político o que significa o genocídio, a violência policial e como a gente consegue pensar um outro modelo de segurança. Que pare de matar a todos nós, que combata a guerra às drogas, essas coisas todas.

A gente sempre fala em transformar o luto em verbo. Temos que rebater uma construção nefasta que parte da sociedade tenta infringir no que era Marielle e, ao mesmo tempo, reivindicar para que não se apague a luta que ela lutava junto conosco.

A Marielle era uma pessoa incrível. Sempre estava com sorrisão. Na última vez que a gente se encontrou foi na Conferência Cidadã, dia 3 de março, que indicou a chapa Boulos/Guajajara, para disputar a presidência. Ela veio do Rio para acompanhar e nos encontramos, [ela] fez piada de uma série de coisas. Não nos falamos muito, mas nos encontrávamos uma vez ou outra, quando eu ia ao Rio ou quando ela vinha a São Paulo. Sempre tudo muito corrido.

Ela era uma pessoa aliada ao movimento. Não só aliada, uma grande militante do movimento negro, do movimento feminista e que colocava no centro da sua atuação junto com o debate do que é ser esquerda, o que é ser socialista, as questões de ser mulher, negra, LGBT, favelada, socialista. Ela era tudo isso. Ela nunca teve vergonha de esconder tudo isso, ela sabia quem ela era. Sabia a importância que tinha ser uma mulher negra no parlamento, tocando projeto de mudanças estruturais de vida para todos nós. Tive um prazer gigantesco de dividir alguns sonhos junto com ela e esses sonhos vamos tocando juntos."

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