Fotos raras de punks parisienses no começo dos anos 80

Memórias da cena preservadas graças a cabines automáticas – “tipo Amélie Poulain, só que punk”.

por Micha Barban Dangerfield; Traduzido por Marina Schnoor
19 Março 2018, 3:53pm

Helno

É 2018 e ainda estamos famintos por escavar o passado do punk. A era política e cultural em que nos encontramos agora lembra o clima do final dos anos 70 – a era que deu à luz ao punk. Foi um tempo tumultuado, profundamente dividido e marcado pelo aumento da desigualdade, mas também viu a ascensão de uma nova consciência e bolsões fortes de resistência. O diálogo sobre o punk geralmente foca na Inglaterra, mas do outro lado do canal, a França teve sua própria cena unida (mas as memórias são limitadas por uma falta de documentação da experiência gaélica). Mas, se for fundo e souber onde procurar, você pode cruzar com algumas pérolas – como essa série de principalmente fotos de cabine automática, tiradas e preservadas por um grupo de amigos que agora compartilham sua juventude punk no Facebook. É uma coleção de imagens que capturam a diversão e a liberdade de um tipo de família, que passava o tempo fazendo música, filmando vídeos low-fi, se fantasiando e mostrando o dedo do meio para o mundo. Depois que cruzamos com algumas dessas fotos, rastreamos Laul, um dos caras nas imagens e ex-membro da banda punk/no wave Lucrate Milk, que compartilhou mais de seu arquivo pessoal e nos contou um pouco como era ser um jovem punk em Paris.

Mastro

Você lembra a primeira vez que se sentiu punk?
Sim, acho que foi assistindo um programa de música na TV em 1976 ou 1977. Eu estava assistindo bandas como Sex Pistols e Damned tocando ao vivo. E pensei “Porra, isso é direto! Agora entendo!” O punk era visceral. Esses caras estavam dando tudo de si, sem harmonia nenhuma e com uma puta fúria. Você não precisava entender a letra para entender a raiva deles.

O que o movimento significava para você?
Tive uma educação muito severa. O punk era uma grande fuga para mim, eu me sentia tão preso e o advento do punk me fez sentir livre. Eu já gostava de me disfarçar, eu estava tentando explorar partes profundas da minha identidade. No começo, o movimento não era só usar um uniforme de couro, um kilt e um moicano. Era muito criativo e todo mundo tinha uma interpretação diferente pra ele.

Como você se vestia?
Eu roubava roupas do meu pai e do meu vô para customizar. Eu tinha uma jaqueta com um relógio de corrente, mas desmontei ele e pendurei cada parte do relógio na minha jaqueta. Eu usava pedaços de salsicha como brincos, ou fatias de presunto como curativos, e um prendedor de gravata. A gente preferia chinelos a coturnos. Pegar o metrô era muito arriscado, porque você podia acabar apanhando de roqueiros, teddy boys, skinheads ou da polícia. Mas a gente adorava ser diferente. Ser xingado não era problema; era meio que um jogo.

Foto no meio embaixo: Francis Campiglia

Você tinha uma banda?
Sim, eu era do Lucrate Milk, uma banda muito estranha, artística e decadente. Éramos um pequeno grupo de artistas; Masto e Gaboni eram fotógrafos, Nina era pintora e eu era meio que designer gráfico. A gente só queria ficar juntos, não queríamos agradar ninguém, fazíamos videoclipes, mas não para passar na TV. Enquanto a maioria dos punks tinham cabelo escuro e ideias pacifistas, a gente descoloria o cabelo e cantava: “Vida longa à guerra e foda-se os pacifistas”. Era uma provocação. Éramos uns putos. A banda acabou porque não queríamos ficar famosos, e todo mundo começou a se sentir meio, meh... A Nina era lindamente temperamental, e ela dizia “Não posso tocar nos sábados, tenho que assistir Dallas”. Ela é incrível, agora ela é pintora e acho que está se saindo muito bem.

E você e seus amigos passavam muito tempo tirando fotos em cabines automáticas, né.
Era algo popular e acessível. Sempre tinha uma cabine por perto. Rostos são efêmeros, porque vamos todos morrer, então queríamos deixar um rastro, como uma pichação. Você pode se divertir muito numa cabine de fotos: posando, fazendo caretas, enfiando um monte de gente no enquadramento. A gente competia para ver quem trazia a coisa mais engraçada pra cabine – uma marionete, um cachorro. Até que Masto pegou um bebê de um carrinho que estava por perto para levar pra cabine e a mãe do bebê arrebentou ele. Dava para fazer efeitos especiais DIY antes da foto secar: dobrando para criar uma dupla exposição. A gente também pegava as fotos descartadas no lixo das cabines.

Quem são as pessoas nas fotos com você?
São como primos, uma família que escolhi. Essas fotos são como um álbum de família. A gente trocava fotos como figurinhas de futebol. Nunca paramos. E elas são memórias reais, que fazem nossa história.

Laul

Qual sua principal lembrança dessa época?
Era uma grande busca pelo êxtase. Um parêntese pueril. Não lutávamos por território nem nada assim. A gente adorava explorar locais novos, prédios abandonados, cemitérios, hospitais, catacumbas, lugares fotogênicos. A gente entrava escondido no cemitério Père Lachaise com uma escada e fazíamos corrida com a escada de túmulo em túmulo. Era muito divertido e bem perigoso. A adrenalina é a droga mais barata. Era tipo Amélie Poulain, só que punk.

É possível ser punk em 2018?
Eu estava pensando nisso hoje. O punk influenciou tudo: música, design, publicidade e moda. Todos estamos sob influência dele. Logicamente, todo mundo deve ser punk, mas hoje você tem que ser punk e ecologista, ou punk e vegan. Ser punk é ser consciente, mas não deveria ser um movimento que te obriga a ser de um jeito ou de outro. Cada pessoa deveria ter sua própria versão, sua própria solução. Você não deve esperar os outros para ser ativo ou reativo. Você tem que ser muito otário para não ser punk hoje.

Nina Childress
Laul
Cabine de fotos com maquiagem: filmando L'Affaire des Divisions Maurituri , F.J Ossang
Laul
Les Lucrate Milk
Nina, Masto, Gaboni, Laul, Helno e outros da Raya
Les Lucrate Milk
Les Frères Ripoulain com Nina e Masto
Koja
Helno
Masto

Créditos:



Texto por Micha Barban-Dangerfield
Escaneamento por Jérôme Lefdup
Fotos/Arquivos tirados do DVD Le Posthume Trois pièces de Lucrate Milk , do DVD Lucrate Milk – Archives de la Zone Mondiale e da coleção pessoal de Laul.

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