Como se desculpar, um guia para homens

Diga “me desculpe” e aceite que isso não significa que as pessoas vão te perdoar.

por Eve Peyser; Traduzido por Marina Schnoor
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nov 14 2017, 7:00pm

Fotos: Raymond Hall/GC Images, Jamie McCarthy/Getty Images para Cantor Fitzgerald, Daniel Zuchnik/WireImage.

Texto originalmente publicado na VICE US.

Dizem por que as mulheres têm mania de se desculpar demais. Mas entre a onda de denúncias de abuso sexual vindo à tona na esteira da queda de Harvey Weinstein, ficou claro que os homens têm o problema oposto: uma incapacidade quase patológica de dizer “me desculpe”.

Na sexta passada (10), Louis C.K. confirmou a reportagem do New York Times detalhando como ele tinha se masturbado na frente de várias colegas comediantes sem o consentimento delas. “Essas histórias são verdade”, C.K. escreveu numa longa declaração. “Na época, eu disse a mim mesmo que o que fiz era OK porque nunca mostrei meu pinto para uma mulher sem perguntar antes, o que também é verdade”.

Apesar de C.K. ter escrito “Tenho remorso das minhas ações” e que “não me perdoo por nada disso”, em vez de realmente expiar seus pecados, ele enfatizou “o poder que tinha sobre essas mulheres” que o “admiravam”, e como ele tirou “vantagem do fato de ser amplamente admirado” na comunidade de comédia.

Duas palavras curiosamente faltaram na declaração do humorista: Me desculpe.

Diferentemente de outros homens famosos acusados de assédio sexual, Louis C.K. realmente reconheceu seu mau comportamento. “Não consigo me conformar com a extensão da mágoa que eu trouxe a elas”, escreveu ele. Mas o que tem nessas palavras – me desculpe – que os homens acham tão difícil dizer?

Desculpas não são só uma admissão de culpa, elas servem como uma promessa implícita de que você vai tentar corrigir seu comportamento e seu modo de pensar no futuro. Tenho a teoria de que os meninos não são ensinados a se desculpar como as meninas, então, numa tentativa de consertar esse erro social, aqui vai um guia para homens de como se desculpar:

Não: Se desculpar por ofender as pessoas que você machucou.

Vamos tirar essa do caminho. A ferramenta mais velha de uma desculpa fajuta é “Desculpe se [ insira a ação escrota aqui] te fez sentir assim”. Eu sei que isso é errado. Você sabe que é errado. Qualquer um com quem você estiver se desculpando sabe que é errado. A razão para algo que você fez ter magoado alguém é provavelmente porque você fez essa coisa. Assuma a responsabilidade.

Outro problema da pseudo-desculpa “Desculpe por ter te magoado” é que isso joga com o velho esteriótipo das mulheres como emocionais demais, o que torna a coisa toda ainda mais escrota.

Sim: Se coloque no lugar das vítimas.

Sei que parece um conselho de jardim de infância, mas antes de dizer qualquer coisa, imagine se você fosse a pessoa que você prejudicou – o que você ia querer ouvir?

Não: Coloque a culpa do seu comportamento em fatores exteriores.

Quando Weinstein respondeu à reportagem inicial do New York Times, ele explicou: “Cresci nos anos 60 e 70, quando todas as regras de comportamento e os locais de trabalho eram diferentes”. Apesar do executivo de cinema ter caído em desgraça dizer que isso não era desculpa, era exatamente isso que esse trecho sugere. Quando você usa essa desculpa, você está dizendo que não tem responsabilidade total pelo que fez.

Depois que o ator Anthony Rapp acusou Kevin Spacey de abuso sexual contra ele quando tinha só 14 anos, Spacey afirmou que “não se lembrava do encontro”.

“Se realmente me comportei como ele descreve, devo a ele minhas sinceras desculpas pelo que teria sido um comportamento bêbado profundamente inapropriado”, escreveu o ator. Encher a cara não é desculpa para tentar transar com um garoto de 14 anos, e insinuar isso só prejudica seu caso – e a vítima – mais ainda.

Sim: Se desculpe por tudo.

Às vezes há mais para se desculpar do que apenas suas ações físicas. Louis C.K. passou anos negando as acusações que ele confirmou depois que a matéria do New York Times saiu. Apesar de dizer em sua declaração “Sinto remorso pelas minhas ações. E tenho tentado aprender com elas. E fugir delas”, ele não se desculpa por negar anteriormente relatos legítimos sobre seu comportamento sexual inapropriado. Declarações em que C.K. nega a coisa toda – em setembro, por exemplo, ele disse ao New York Times “Não vou responder a isso, porque são rumores” – são profundamente ofensivas para as vítimas.

Não: Mude de assunto para se fazer de vítima.

Na desculpa de Spacey a Rapp, ele resolveu se assumir gay, talvez numa tentativa de mudar a conversa ou de se posicionar como uma vítima no armário. Não dá pra exagerar a reação negativa desencadeada pela declaração de Spacey – desde a presidente do GLAAD Sarah Kate Ellis, até Trevor Noah e Billy Eichner criticaram isso – o que mostra que o público tem pouca paciência com abusadores sentindo pena de si mesmos.

Depois que um homem acusou George Takei de o apalpar quando ele estava desmaiado, o astro de Jornada nas Estrelas negou as acusações, depois, num tuíte (agora deletado), culpou “bots russos” por “amplificar histórias contendo as alegações contra ele”. Philip Lewis do HuffPost tuitou em resposta: “Cansei de 2017”, o que resume bem a reação geral a esse tipo de coisa.

Sim: Diga me desculpe.

Tem um milhão de jeitos de evitar simplesmente dizer “me desculpe”. Louis C.K. disse “Sinto remorso pelas minhas ações”.

Kevin Spacey disse “Devo a ele minhas mais sinceras desculpas pelo que teria sido um comportamento bêbado profundamente inapropriado”.

Harvey Weinstein disse: “Entendo que o modo como me comportei com colegas no passado causou muita dor, e me desculpo sinceramente por isso”.

Art Landesman, ex-editor do Artforum que renunciou depois que nove mulheres o acusaram de assédio sexual, disse: “Reconheço totalmente que testei certos limites, o que estou trabalhando para corrigir. Nunca prejudiquei intencionalmente ninguém”.

E a lista continua.

É só dizer “me desculpe”, caras. Aceite que isso não significa que as pessoas vão te perdoar. Na verdade, aceite que isso não tem nada a ver com o que você está sentindo. É sobre a dor que você infligiu a outra pessoa e reconhecer o remorso pelas suas escrotices, não porque você foi descoberto, mas porque sabe que o que fez foi errado.

É o básico, gente, sério.

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