Noticias

Corpos carbonizados e caos nas ruas: o que está acontecendo nas revoltas no Chile

O estado de emergência declarado em Santiago foi expandido para outras cidades próximas da capital, e o governo impôs um toque de recolher noturno para conter a violência.
21 Outubro 2019, 5:57pm
Os restos carbonizados de cinco pessoas foram descobertos em uma fábrica de roupas incendiada por manifestantes nos arredores de Santiago, capital do Chile, no domingo, quando semanas de protestos fervorosos sobre a desigualdade se tornaram violentos.

Os restos carbonizados de cinco pessoas foram descobertos numa confecção incendiada por manifestantes nos arredores da capital do Chile, Santiago, no domingo, enquanto protestos contra a desigualdade se tornaram violentos.

Os cinco corpos trazem o número de mortos relacionados aos protestos para pelo menos sete, depois que o Ministro do Interior Andres Chadwick revelou que duas mulheres morreram num incêndio numa loja de propriedade do Walmart, incendiada nas primeiras horas de domingo.

Outra vítima, cujas autoridades disseram inicialmente ter morrido no hospital, sofreu queimaduras em 75% do corpo.

A resposta do governo para conter a violência incluiu mobilizar mais de 10 mil soldados para Santiago no domingo, a primeira vez que o exército saiu às ruas desde que a ditadura de Augusto Pinochet acabou em 1990. Um estado de emergência declarado em Santiago na sexta-feira foi expandido para outras cidades ao norte e sul da capital, e o governo impôs um toque de recolher noturno para manter as pessoas fora das ruas.

Os protestos foram desencadeados por um aumento nas passagens do metrô, mas esse é apenas um sintoma da profunda frustração com a crescente desigualdade e um fracasso em abraçar reformas econômicas.

Depois de duas semanas de protestos cada vez mais violentos pelo aumento nas tarifas de transporte público, o presidente chileno Sabastián Pinera anunciou na noite de sábado que estava revertendo a decisão.

Mas, numa declaração televisionada na madrugada de domingo, Pinera aparentemente inflamou ainda mais a situação, dizendo que o país estava “em guerra” e rotulando os manifestantes como criminosos.

“Estamos em guerra contra um poderoso inimigo, que está disposto a usar violência sem limites”, Pinera disse no discurso transmitido do quartel do exército em Santiago. “Amanhã teremos um dia difícil. Estamos muito conscientes que [aqueles por trás das revoltas] têm um grau de organização e logística típico de uma organização criminosa.”

O que aconteceu no domingo?

O anúncio da reversão do aumento das passagens fez pouco para apaziguar os manifestantes, que o governo diz terem causado 70 “incidentes sérios de violência”, incluindo 40 saques a supermercados e outros negócios no domingo.

E a violência não aconteceu apenas em Santiago, com as autoridades relatando que quase 1.500 pessoas foram presas nas principais cidades do país. O estado de emergência foi estendido para cidades como Valparaíso, Antofagasta e Valdivia.

Os revoltosos na capital incendiaram ônibus e depredaram estações de metrô, supermercados e escritórios. A polícia respondeu com canhões de água e gás lacrimogêneo.

Santiago praticamente parou enquanto todo tipo de transporte público foi paralisado. Lojas e escritórios foram obrigados a fechar e muitos voos foram cancelados no aeroporto internacional, deixando milhares de pessoas num limbo, incapazes se locomover devido ao toque de recolher.

O toque de recolher do pôr ao nascer do sol foi estendido para uma segunda noite no domingo, entrando em vigor às 19h do horário local, quando as pessoas devem “ficar calmas em suas casas”, segundo o oficial de defesa General Javier Iturriaga.

Por que os chilenos estão se revoltando?

A crise atual, a pior do segundo mandato de Pinera, começou com protestos depois da decisão do governo de aumentar as tarifas do metrô de 800 pesos para 830 pesos (R$4,68 para R$4,84) para viagens no horário de pico, depois de um aumento de 20 pesos em janeiro.

Mas a insatisfação não é apenas com o aumento na passagem do metrô. O Chile, uma das nações mais ricas da região, também é a mais desigual, e os manifestantes estão exigindo mudanças para corrigir esse desequilíbrio.

O Chile tem a maior renda da América Latina com US$ 20 mil per capita, deve bater o recorde de 2,5% de crescimento este ano, e tem apenas 2% de inflação. Mas a privatização de setores de saúde e educação, além de aumentos no custo de bens e serviços básicos, só exacerbou a desigualdade.

O descontentamento com o governo, e em particular com o presidente bilionário do país, foi notado principalmente em algumas universidades e escolas do país, que estão enfrentando falta de recursos e financiamento insuficiente.

O que acontece agora?

A segunda-feira provavelmente verá a continuação dos protestos do final de semana, com muitos bancos, escolas e comércio ainda fechados.

As autoridades acabaram de dizer que uma linha do metrô da cidade deve reabrir na segunda, depois que todo o sistema foi paralisado na sexta por causa dos danos causados durante os protestos.

Pinera tem pedido calma. Durante seu discurso televisionado no domingo, ele disse que há boas razões para sair às ruas, mas pediu que as manifestações sejam “pacíficas”, acrescentando que “ninguém tem o direito de agir com violência criminosa brutal”.

Mas o apelo de Pinera pode ter vindo tarde demais.

“Os protestos são sobre mais que apenas o aumento das passagens”, disse Boris Van Der Spek, fundador do site de notícias independente Chile Today, a Al Jazeera. “É sobre os custos de vida e o nível de desigualdade no país. Há muito descontentamento no Chile. Isso ia acontecer de um jeito ou de outro.”

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.

Publicidade