Sexo

“Manda foto do pezinho”: investigando a podolatria na rede mundial de computadores

A internet brasileira é um terreno fértil para podólatras se unirem em prol dos pezinhos perfeitos.

por Marie Declercq
04 Setembro 2019, 7:23pm

Still de Bob Esponja

Se você existe na internet, alguma vez já se deparou com uma pessoa com atração por pés, seja recebendo pedidos de um anônimo para ver uma foto ou apenas caindo de paraquedas em algum papo virtual sobre o interesse por pezinhos. O negócio ficou tão comum que a figura do cara que pede para desconhecidos fotos de pés virou até meme. Mas por que isso acontece? E por que...pés?

Pessoas que adoram pés existem de monte porque a podolatria é um dos fetiches mais comuns do mundo. Em 2006, o pesquisador Dr. G. Scorolli da Universidade de Bologna liderou um dos principais estudos sobre a presença de fetiches online, analisando 381 comunidades frequentadas por pelo menos 5 mil usuários. O estudo detectou que a atração por uma parte do corpo é o fetiche mais presente, representando 30% dos fetichistas, que majoritariamente se interessam por pés e objetos relacionados a eles como sapatos, meias, etc.

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La Comtesse au fouet por Martin van Mäele, 1926. Imagem via.

Existem diversas causas e explicações sobre a podolatria. Estudiosos da psicologia identificaram a atração por pés relacionadas às memórias formadas no começo da nossa vida, tocando os pés dos pais ainda criança. Freud escreveu que o pé se assemelha ao falo. Há também o aspecto seguro e menos intimidador de gostar de pés em comparação a genitália e isso pode estar relacionado à uma epidemia de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis). Em um estudo de 1998 para a revista Psychological Reports, os pesquisadores chegaram a especular que a podolatria pode aumentar em casos como esses, inclusive com registros históricos que datam até o século XII sobre o interesse sexual por pés em resposta ao avanço de doenças venéreas.

João* descobriu seu fetiche por pés assistindo o Domingo Legal no final dos anos 90, quando tinha entre 12 e 13 anos de idade. “Em tom de piada, os repórteres Rodolpho e ET visitaram uma dominatrix que mostrou uns acessórios, contou histórias, etc. Foi na época que a Tiazinha também estava no auge (e na cabeça dos meninos). Eu senti uma excitação sem igual, de descoberta da sexualidade”, conta.

Por sorte, João tinha acesso fácil à internet, já que o pai dele trabalhava com informática. Foram dois cliques para descobrir o mundo do BDSM. “E dentro disso, descobri as práticas envolvendo pés. Aquilo me dava muito tesão, ver os caras completamente humilhados, sendo obrigados a lamber solas, servindo de tapete e tudo mais.” A descoberta mudou a vida do jovem João. “Daí, comecei a reparar em pés. De colegas de escolas, primas, amigas, mulheres com as quais eu tinha convívio. Nada muito creepy, sempre fui extremamente polido e discreto.”

No caso de Rogério*, o fetiche fica por conta também do fato de pés muitas vezes ficarem cobertos por sapatos. “Acho que sempre gostei, desde pequeno. Tem uma questão de curiosidade e algo na forma, é meio irracional,” conta. “Desde pequeno reparava nos pés dos amigos, de atores em filmes, cenas de TV. Eu gosto de pés mais delicados, sola macia, bem delineados. Tenho pavor de pé maltratado pelo futebol.”

Assim como descreveu João, a podolatria muitas vezes vem relacionada com a dominação e a idolatria aos pés, práticas relacionadas com o BDSM. A dominatrix de São Paulo, Rainha Safiry, confirma que diversos clientes que a procuram gostam da podolatria somada à submissão, mas também atenta para uma boa quantidade de procura seus serviços apenas para adorar seus pés — de cheirar a lamber do meio dos dedos. “Acho que vai de 65 a 75% de clientes meus que pedem podolatria e práticas que envolvem podolatria,” explica Rainha, que trabalha como dominadora profissional há oito anos.

Safiry conheceu a podolatria muito antes de trabalhar como dominatrix, quando estava na rua esperando entrar em uma casa noturna e um homem parou o carro para beijar os seus pés. Com a internet, a dominatrix acredita que o fetiche foi se difundido por causa do acesso à informação. “Quando participei do concurso de podolatria, um monte de cara do meu Facebook veio falar que acharam que eram loucos por terem tesão por pés,” conta.

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Glauco Mattoso, poeta brasileiro. "Para mim o pé "perfeito" é justamente o imperfeito, ou seja, sou francamente antiesthetico. Adepto da contracultura e do rock tribal, não curto appenas um estylo de pisante, mas qualquer cothurno ou tennis que faça parte do visual dalguma turma do rock ou da peripha, typo punk, skatista, rapper ou careca. Na practica, tive experiencia com typos os mais variados, desde intellectuaes até marginaes.". Foto publicada originalmente aqui.

E como era ser podólatra antes do advento da internet? Segundo Glauco Mattoso, poeta, ficcionista, articulista, ensaísta, tradutor e talvez o mais notório amante dos pezinhos brasileiro, os interessados se encontravam pelas revistas e correios. “Como commentei no livro MANUAL DO PODOLATRA AMADOR, minha autobiographia sexual, antes da internet o costume era publicar annuncios classificados nas revistas especializadas em todo typo de tara ou fetiche. A gente tinha uma caixa postal e os interessados enviavam chartas que, depois de seleccionadas, eram respondidas informando um phone de contacto. O resto rollava ao vivo. A maioria, heteros ou gays, tinha fetiches mais communs, typo pés ‘bonitos e bem cuidados’, mas meus annuncios excancaravam logo a preferencia pelo pé chato, expalhado, descuidado e fedido, bem punk, em summa. Poucos tinham essa sinceridade na decada de 1970, por isso me destaquei, assim como a Wilma Azevedo foi pioneira no sadomasochismo explicito,” contou Mattoso à VICE — vale dizer que preferimos não editar a grafia de Glauco, que nos respondeu por e-mail.

Uma das coisas mais interessantes da podolatria é que, apesar de quase todo o conteúdo “erótico” ser banido do “mainstream” da internet, a podolatria não sofre com esse problema. A repaginação do Tumblr, por exemplo, foi um reflexo claro desse privilégio podólatra, quando milhares de blogs com conteúdo adulto foram banidos enquanto os tumblrs de podólatras continuaram são e salvos - mesmo que, aos olhos de um fetichista dos pés, são tão pervertidos quanto a mais hardcore das pornográficas. À primeira vista, não há nada de indecente em uma foto solitária de um pezinho, e é esse detalhe que dá um tom diferente à sacanagem da podolatria.

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O melhor meme que explica o banimento de pornografia no Tumblr. Foto publicada aqui.

João já pediu fotos de pés para algumas mulheres, mas todas as vezes foi dentro de contextos aceitáveis, como uma dominadora no FetLife que deixa claro que gosta que seus pés sejam adorados. “Acho que exatamente o mesmo contexto em que pedir um nude é aceitável,” explica.

“Na concepção ‘geral’ das pessoas, pé não tem nenhuma correlação com sexualidade, como peito, bunda e genitália têm. Daí os podos geralmente se aproveitam disso. ‘Poxa, é só o pé, não é algo que a pessoa esconde nem em público. Então... por que não?’,” conta.

No entanto, a dominatrix Safiry diz que já perdeu quatro contas de Instagram por causa da podolatria. “Tem uma caças às bruxas contra a podolatria. Já ouvi até casos de manicures que perderam a conta por causa de foto dos pés.” Os pés da dominadora são adorados por muitos clientes que gostam principalmente das solas (“quanto mais enrugadas, melhor”) e de seus dedos longos. “Me pedem bastante fotos deles e já mando um site onde posto algumas fotos. Caso o cliente querer uma foto específica, eu cobro,” diz.

A chef de cozinha Millene Suicide também viu uma boa oportunidade em vender conteúdo exclusivo dos seus pés. Ela passou a fotografá-los dois anos atrás após perceber que os pedidos de podólatras não cessavam nas suas redes sociais. Os valores variam com a quantidade de fotos, mas o mínimo é um pack com cinco fotos por 25 reais. “Todos os dias pelo menos um me pede. E não só homens, mulheres também,” conta Millene. “Acredito que ter as solas dos pés rosadinhas é preferência quase unânime. Usar isso ao seu favor é ótimo. Além de complementos, como meias bonitas, de preferência transparentes pra dar um mistério interessante pro fetichista.”

Mesmo deixando claro que para terem acesso ao famoso pack de fotos do pés de Millene é preciso desembolsar alguns trocados, muitos fetichistas continuam insistindo para conseguirem alguma coisa de graça. De vez em quando, até a rejeição faz parte do fetiche em pedir pra ver o pé. “É preciso cortar rápido, senão acabamos fazendo algo de graça indiretamente,” conta. Rainha Safiry também aprendeu a filtrar. “Se tá batendo punheta às minhas custas, mando à merda. Se digitar no Google ‘podolatria’ vai achar um monte de foto de pé, então não entendo porque me enchem o saco.”

Mesmo com a abundância de dominadoras profissionais no Brasil e fácil acesso de vídeos de fetiche e fotos de pé, ainda há alguns usuários que buscam o pezinho perfeito para venerar ou observar. É o caso de R.G., que costuma pedir através das redes sociais para algumas mulheres se ele pode cheirar o chulé delas. “Desde criança tenho fetiche por pés. Bem novo cheirava os pés da minha mãe, de duas tias e de uma prima. Em relação ao Twitter, uma vez uma atriz falou que poderia fazer massagem nos pés dela depois de uma peça. E outras duas atrizes me deixaram cheirar as sapatilhas delas, também depois de uma peça,” conta.

R.G. também afirma que nunca voltou a importunar uma mulher que se mostrou incomodada com seus pedidos. Ele até fez amizade com algumas usuárias após pedir para cheirar seus chulés. “Isso eu não sei explicar, desde pequeno tinha vontade de contar do fetiche. A internet acaba proporcionando isso, muitas pessoas que eu sonhava cheirar o chulé, hoje em dia sabem disso e ainda me tratam bem. Acaba fazendo parte do fetiche, eu acho”, conta.

A hipótese de pedir repetidamente que desconhecidos enviem fotos dos pés ser parte do fetiche também foi mencionada por Érika Oliveira de Paula, sexóloga e psicóloga, que já explicou para a VICE anteriormente sobre a forma que os fetiches funcionam no nosso cérebro. “Quem gosta de podolatria sabe muito bem onde encontrar e pedir material assim. Tem comunidades fechadas virtuais e até encontros presenciais dedicados ao fetiche. Pedir a foto fora desses círculos faz parte do fetiche,” explica.

A psicóloga atenta para o fato que a podolatria muitas vezes não é o único fetiche de alguém e pode ser combinado com outros, como a submissão e voyeurismo. Por isso, às vezes aquele cara que chegou na sua DM pedindo foto do pezinho já sabe que você vai negar com veemência e isso faz parte do prazer de pedir esse tipo de coisa para uma desconhecida. Na dúvida, trate com carinho ou bloqueie mesmo.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

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