Noisey

O climão de Letícia Novaes

Em entrevista, a carioca fala sobre o disco recém-lançado 'Letrux em Noite de Climão', críticas de jornalistas, fim de casamento, sovaco e rango de camarim.

por Débora Lopes
25 Agosto 2017, 4:58pm

Letícia no camarim antes do show de lançamento em SP. Foto: Débora Lopes

Letícia Novaes já teve tudo com você. Conta corrente, suruba, um frango. É o que ela mesma canta em uma das faixas de Letrux em Noite de Climão, seu disco solo, lançado em julho. Com o fim do Letuce, dueto musical com Lucas Vasconcellos que durou três álbuns e disse adeus ao público no final de 2016, ela agora aposta numa verve dançante, que mistura anos 70 e 80, brilhos, roupa vermelha, sintetizadores e cabelos ao vento com efeito de ventilador. Lançar disco financiado coletivamente em ano de crise não foi tão tranquilo. "É um cagaço, não sei se tenho estômago para outro", contou ao Noisey.

As 11 faixas trazem o microclima da escritora, atriz, compositora e cantora carioca de 35 anos. Dessa vez, abordando festas, noite e amores rasgados nas letras em português e inglês. De brinde, surge a participação de Marina Lima em "Puro Disfarce". A produção é de Arthur Braganti (Séculos Apaixonados) e Natália Carrera.

Nos discos anteriores, Letícia falou de seu medo de baleia, cantou que queria trabalhar com vidro, mergulhou de máscara, já se assustou com o sutiã abrindo, sentiu um fio solto na calcinha e afirmou que, se acertasse os seis números da loteria, iria pra Grécia ou pra Bora Bora. Um universo lírico cheio de referências visuais e maluquices. Em Letrux em Noite de Climão não é diferente. "Eu te vi nas artes plásticas / Você mexeu demais comigo / Tu é o revival do marinheiro", canta em "Flerte Revival", com um espírito meio discoteca (palavra idosa, porém bonita, respeitem) e Ryan Gosling de jaquetinha acetinada e luvas de couro em Drive.

No show de lançamento em São Paulo. Foto: Débora Lopes

Duas músicas já ganharam clipe: "Coisa Banho de Mar" e "Noite Estranha, Geral Sentiu", no qual Letícia flana de peruca e roupas góticas por praias do Rio de Janeiro pela madrugada.

Pouco dada às noitadas, ela diz que, quando sai pra dançar, "desloca a costela". Nas redes sociais, sempre fala do seu encanto pelo sovaco alheio. Certa vez, explicou que é comum atores de televisão usarem absorventes nas axilas pra evitar a marca de pizza. Capricorniana e mística, manja de mapa astral e sinastria.

No show de estreia em São Paulo, em 11 de agosto, anunciou um dos sons novos com a seguinte referência: "Fiz essa música em casa, suja, de calcinha". Não lembra bem, mas acha que se referia à "5 Years Old", canção que, antes mesmo do lançamento do disco, ganhou um vídeo amador com Letícia nua tocando violão no banheiro de casa. "Cinco anos foi minha idade favorita, parece absurdo, e é. Não nego", publicou na época.

Abaixo, leia a entrevista do Noisey com a cantora, que, por e-mail, falou sobre o novo trabalho, críticas de jornalistas, fim de casamento e rango de camarim.

Noisey: Quando joguei Letícia Novaes no Google apareceu um monte de foto da Letícia Spiller com o Marcelo Novaes. Achei show. E você?
Letícia Novaes: Amo. Sentia muito tesão vendo eles em Quatro por Quatro. Cheguei até a cantar "Take a Toke" num show do Letuce, que era a música tema do casal.

Letícios, Letuce e agora Letrux. De onde veio a última nomenclatura?
Bem, meu nome tem esse radical "Let", que, em inglês, significa to allow something to happen ["permitir que algo aconteça"]. Acho isso bem bonito e tento sempre seguir essa dica que meu próprio nome me dá todo dia. Gosto da palavra terminar com x por conta de fênix e toda força que envolve seu mito.

Por que um álbum mais disco?
Eu amo dançar, saio pouco pra dançar, mas, quando saio, desloco a costela do lugar, sabe assim? Dancei bastante nos últimos anos. Em momentos que eu poderia ter surtado, eu optei por dançar. Daí foi natural o disco ter ficado mais assim, que era minha dinâmica atual.

No camarim antes do show. Foto: Débora Lopes

Letrux em Noite de Climão foi lançado por financiamento coletivo. Bateu um medo de não atingir a meta e empatar o lançamento?
Sempre bate, ainda mais em ano de crise. Tive apoio de marcas nos meus outros crowdfundings, dessa vez não. Foram só pessoas físicas, o que torna tudo mais especial até. Mas é um cagaço, não sei se tenho estômago para outro.

"Lembro ano passado, durante o início do golpe, que sair de vermelho era um statement forte, o que é uma pena porque eu também amo sair de verde ou amarelo, mas, olha que louco, eu dei um tempo. E comecei a comprar muita roupa vermelha."

No show, você disse: "Fiz essa música suja, de calcinha, em casa". Qual era mesmo?
Menina, não lembro. Talvez tenha sido "5 Years Old". Me impressiona a hora que a música faz a ponte. Porque eu estava em casa tocando violão, deixando fluir umas ideias e, de repente, 600 pessoas cantando comigo aquilo, eu panco um pouco. Acho lindo e fico "uau".

A capa do álbum tem um fundo vermelho e no show aqui em São Paulo você estava com um look da mesma cor. Tem um significado?
Estou numa fase vermelha, estou amando um ruivo, estou sangrando, estou passional, estou vermelhona, risos. Lembro ano passado, durante o início do golpe, que sair de vermelho era um statement forte, o que é uma pena porque eu também amo sair de verde ou amarelo, mas, olha que louco, eu dei um tempo. E comecei a comprar muita roupa vermelha.

Boa parte das letras parecem ter um gosto amargo de desilusão com o amor. É aí que mora o "climão"?
Não sei ao certo onde reside o climão. Acho que ele é o incômodo em perceber, em despertar, seja para uma tristeza ou até para um flerte. A hora que você sente que "bateu a deprê" ou "bateu a vontade de pegar alguém"... Ambos momentos têm sua força, seja pra expandir ou para embrionar. E eu amo os dois, amo noites grandes e amo madrugas solitárias. Muito forte a hora que você para de disfarçar algo e assume. Pro bem ou pro mal.

"O problema mesmo são os jornalistas ou críticos que sempre acham que o disco foi feito pra ele [Lucas Vasconcellos, ex-marido e parceiro musical]."

Você escreve muito sobre sua infância e vida nas músicas e nas redes sociais. Essa exposição já deu ruim?
Meu irmão mais velho já foi zoado pelos amigos deles por conta de uma foto que eu botei nossa da infância. Ele ficou meio bolado e eu apenas deletei todos os amigos dele, que nunca curtiram nada meu, apenas eram meus contatos, pensei "pra quê?". Nunca deu ruim forte não, sabe? Rola uma troca bem louca, me contam cada história também. E já fui chamada para escrever profissionalmente de tanto que me expus na internet sobre vida, infância, como foi o caso do Segundo Caderno, do jornal O Globo [Letícia foi colunista por um tempo]. Então, é um saldo positivo, creio. E não conto tudo-tudo, há uma margem que é misteriosa até pra mim, então nem dá pra escrever.

Rolou uma encheção de saco pelo fim do relacionamento com o Lucas Vasconcellos?
Um ou outro escreveu "Se não deu certo pra vocês, vai dar certo pra quem?". O que era fofo, mas, ao mesmo tempo, desesperador. A gente nunca quis esse fardo. Mas a maioria das pessoas foi muito querida. O problema mesmo são os jornalistas ou críticos que sempre acham que o disco foi feito pra ele, sendo que, assim, já nos separamos há quatro anos, e eu vivi a vida nesses quatro anos, me estrepei, me apaixonei, vivi lances insanos, enfim, nem a música que fizemos juntos para meu disco solo, "Além de cavalos", é sobre a gente, sabe? Amo Lucas, um músico excelente, foi um namorado sensacional, me ensinou treze mil coisas, mas também já vivi intensidades com outras pessoas. Hilário eu ter que avisar isso, né? Mas como tínhamos a banda juntos, acham que o disco é pra ele. Risos.

Qual feedback você tem recebido dos fãs sobre Letrux em Noite de Climão?
Tem sido inacreditável. Tento não criar expectativas porque sou dada à ansiedade, então, tentei ficar calma e respirar fundo, mas tem sido além do que eu esperava, atingindo uma galera mais velha, mais nova, o que muito me interessa, porque não curto nichos. O disco tá passeando e tô muito feliz.

"Pra falar mal da minha arte e isso me afetar tem que ter boa literatura."

Um jornalista carioca detonou o disco, dizendo que sua poética é boa, mas a música está fraca. Ele entrou numa onda de falar sobre viver dentro de uma "bolha" e "amigos influentes". Como esse tipo de crítica te pega e como reflete nos músicos que te acompanham?
Eu acho que esse jornalista gostaria de ser da minha bolha, só pode ser. Ele até dá feliz aniversário para alguns amigos que temos em comum e escreve "Feliz aniversário, blablá, sem climão!". Obsessão, né?. Um amigo meu respondeu: "Tá rolando muito climão na minha vitrola, bjs!". Risos! Ele diz que eu sou amiga de jornalistas. Não sabia que quando um jornalista gosta do meu trampo significa que eu sou amiga dele, risos. A crítica dele não me afeta e nunca me afetou porque eu não sou fã da literatura dele, acho rasa, fraca e sem estilo, então, quando uma pessoa assim me detona, penso "Tá, e o que tem pra comer?". Acho que a crítica nem bateu nos músicos que me acompanham. Eles não leram ou, se leram, pensaram "Nossa, que idiota" e fomos ensaiar, sabe? Pra falar mal da minha arte e isso me afetar tem que ter boa literatura. Eu escrevo, antes de cantar ou atuar, eu escrevo. Então, se escreve mal ou se não tem estilo, não vai nem fazer cosquinha.

Além do disco, quais projetos você tem tocado ultimamente?
Estou lentamente escrevendo um novo livro de poesia, chama Tudo que eu já nadei. Vai ser outro parto, mas, pelo visto, gosto de me provocar com essas coisas.

E quais são os planos de divulgação do álbum pelo Brasil?
Queremos muito viajar e espalhar o climão por aí. Tenho recebido pedidos de shows no Brasil inteiro. Tomara que tudo aconteça, apesar de toda a dificuldade em tocar em casas de médio porte por esse país. Falta muito investimento, é uma saga.

Qual é o seu som preferido do disco novo e por quê?
Eu tenho fases. Tô num dia apaixonada por "Noite Estranha, Geral Sentiu", não sei se pelo recente videoclipe, mas acho tudo delicioso, a guitarra da Natália, os teclados do Arthur, o baixo do Rebello, a maraca que o Lourenço gravou, e acho que mandei bem na voz também, enfim, mas amanhã posso acordar in love com outra canção, sabe?

Vou mudar de assunto. Você sempre escreveu e falou sobre sovaco. Qual é o sovaco mais interessante com o qual já se deparou?
HAHAHAHAHAHAHA! Do meu atual romance, Thiago. Ele tem sovaco ruivo, minha gente. Pense. Amo os sovacos dos meus sobrinhos também.

Outro dia vi um vídeo em que turistas tentavam fazer carinho em uma baleia. Seu medo de baleia já passou?
Ainda não. Ainda fico abismada. Troço gigante demais. Imagina se estou nadando e ela resolve bocejar e me engole? Não consigo pensar. E mamífero! Peixe e mamífero, chocante.

Vamos brincar de bate-bola, tipo a Marília Gabriela no SBT?
Vamos!

Um rango de camarim.
Gosto quando tem coxinha, não tem muito erro, né? Aqueles sanduíches misteriosos confundem minha barriga.

Um signo pentelho.
O eixo áries & libra é sempre complicado pra mim. Amo, tenho amigos, mas é uma aprendizagem.

Um aroma de sovaco.
Uma hora depois do banho, sem desodorante. Num dia não quente também, rá!

Suruba é…
Para quem curte!

Arrumando o cabelo antes do show. Foto: Débora Lopes

Casamento ou lance livre?
Casamento-lance-livre!

Um drinque pra beber ao som de Letrux em Noite de Climão.
Gin tônica!

O maior som da Marina Lima.
Tem uma música da Marina chamada "Anna Bella", do disco Lá Nos Primórdios, acho d'uma beleza sem fim, e sei que ela fez para uma amiga/musa inspiradora, a artista plástica Anna Bella Geiger. Gosto disso demais.

Um filme ruim que você assistiria hoje antes de dormir.
Hoje eu assistiria alguma comédia romântica dessas iguais, com high school, essas merdinhas, baile, prom, essas firulas que a gente já sabe exatamente tudo que vai acontecer.

Uma série que você pirou.
Gente, a última que eu vi foi Gipsy, e, desculpa, mas eu pirei. Naomi Watts maravilhosa, roteiro curioso, claro que dá ódio porque eles deixam para o último capítulo para ter uma reviravolta, mas eu pirei. E já tô sabendo que não sabem se vai ter segunda temporada, porque não foi sucesso. Minha cara isso. Nunca vejo séries, quando vejo e vicio, não sabem se vai ter segunda temporada, fón!

A frase mais tosca de uma música sua que te envergonhe pelo menos um tantinho.
Eita, vou pensar, peraí. Só me vem à mente as letras da minha primeira bandinha de rock. Tinha coisas como "minhocas, quando estão tristes, não podem cortar os pulsos", risos. Coisas assim. Do disco solo, não consigo pensar em nenhuma letra que me envergonhe, porque as que me envergonharam, ficaram de fora. Sou chata comigo.

O que aconteceu na noite estranha que geral sentiu?
Tem noite que eu acho que geral volta pra casa meio atordoado, não? E, depois, conversando com amigos, trocando mensagens, você percebe que não foi só com você, que bateu em geral, que a noite tinha uma atmosfera esquisita, que algo estranho estava no ar. Essa música não é exatamente autobiográfica, eu fiz meio que para uma amiga, como se eu estivesse conversando com ela.