O metal underground do Brasil ganhou o mundo. E agora?

Com Deaf Kids na Neurot, Labirinto na Pelagic, Test e Rakta tocando globo afora, o subterrâneo da música torta nacional parece ter alcançado um novo patamar.

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20 julho 2017, 9:05pm

No último dia 28 de junho, uma notícia tomou de assalto todos que fazem parte de alguma forma do metal/punk underground do Brasil: a Neurot Recordings, lendária gravadora dos caras do Neurosis, anunciou o lançamento do mais recente disco dos brasileiros do Deaf Kids, Configuração do Lamento, no próximo mês de outubro. Como se isso não fosse o bastante, essa revelação chegou uma semana depois da confirmação do sempre aguardado mas nunca esperado show do Neurosis em nosso país, que finalmente acontecerá em 8 de dezembro, em São Paulo, pelas mãos da produtora Abraxas.

"Eu não estava preparado para o quanto ia amar esse disco ( Configuração do Lamento)", conta de forma empolgada o guitarrista e vocalista do Neurosis, Steve Von Till, em um post no blog da Neurot, sobre como conheceu os brasileiros por meio de um post do site canadense CVLT Nation, que elegeu o álbum do grupo de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, como um dos melhores lançamentos de 2016, ao lado do último trabalho do próprio Neurosis, Fires Within Fires. "Acho que o escutei três vezes seguidas logo de cara."

Segundo o guitarrista e vocalista do Deaf Kids, Douglas Leal, o primeiro contato de Von Till com a banda aconteceu em janeiro deste ano após o dono do CVLT Nation, Sean Reverson, lhe escrever pedindo seu e-mail em nome do vocalista do Neurosis. "Aí no dia seguinte, ele (Steve) mandou um e-mail dizendo 'Pô, ouvi a banda, achei muito foda. Chutou a minha bunda (risos). Mostrei para os outros caras do Neurosis e a gente concordou que gostaria de lançar alguma coisa de vocês e ajudar a espalhar o lance no futuro'. Aí respondi dizendo que ainda não tínhamos lançado o disco em vinil e que era algo que queríamos fazer."

Primeiro full length com letras em português do Deaf Kids, Configuração do Lamento foi lançado originalmente em junho do ano passado em fita K7 (pelos selos Burning London, Raw Records e Untitled Tapes) e agora ganhará versões em CD e também em vinil de 10 polegadas pela Neurot, um formato que ainda faltava na discografia do trio. Gravado em apenas um dia e mixado em outros dois, o álbum traz a banda, que também conta com Mariano de Melo na bateria e Marcelo dos Santos no baixo, mais afiada do que nunca em seu caos sonoro cheio de experimentações com ruídos, microfonias, repetições e percussões.

"Nós temos uma ideia de os discos nunca serem a mesma coisa. A gente não vai conseguir fazer um milhão de músicas na mesma pegada. Tem que ir para outros lances, é algo natural", conta Douglas, que destaca ainda a influência dos Racionais MC's no processo de criação de Configuração do Lamento. "Um disco que influenciou bastante na ideia dos cortes foi o Cores e Valores, do Racionais. A gente ouviu muito esse álbum."

Mariano, Douglas e Marcelo, no pós ensaio em São Paulo. Foto: Felipe Larozza/VICE

Mas o Deaf Kids não é a única banda brasileira underground de som torto a assinar com um selo gringo prestigiado. Há alguns meses, o sexteto paulistano de pós-metal instrumental Labirinto lançou o seu disco mais recente, Gehenna, em vinil pela alemã Pelagic Records, conhecida por seu trabalho com ícones do estilo como Cult of Luna e Mono. Neste caso, no entanto, o contato entre as partes aconteceu pessoalmente, em outubro do ano passado, quando o dono da gravadora, Robin Staps, veio a São Paulo para tocar com a sua própria banda, o The Ocean, e acabou assistindo a um ensaio do Labirinto.

"Assisti ao ensaio e fiquei impressionado. De certo modo, não estava esperando ver esse tipo de profissionalismo, que você terá dificuldades de encontrar na Europa. E eles são pessoas realmente muito legais. Nos dias seguintes estava ouvindo o Gehenna e realmente gostei do disco então decidi fazer uma oferta para eles", lembra Staps, que também toca no The Old Wind, banda formada com ex-membros do Breach.

Segundo o guitarrista do Labirinto, Eric Cruxen, todos na banda ficaram atônitos com o convite. "Alguns dias depois do ensaio, chegou um e-mail do Robin nos convidando para assinar com a Pelagic para não apenas lançar o Gehenna em vinil, mas também fazer parte do casting da gravadora, incluindo futuros lançamentos. Em seguida, chegou o contrato. Ficamos uma semana nos perguntando se aquilo era de verdade", conta aos risos Erick, que já esteve por diversas vezes na Europa e na América do Norte com a banda, com direito a duas participações no prestigiado Dunk! Festival, na Bélgica.

Algo inédito até pouco tempo e importante por si só, o fato de uma banda brasileira underground sair por um selo conceituado como a Neurot ou a Pelagic representa também um marco para toda a cena local de metal/punk torto, que vem evoluindo e crescendo de forma impressionante nos últimos anos, com diferentes nomes por todo o país. A lista inclui desde os já veteranos do Carahter, de Belo Horizonte, com cerca de 15 anos de estrada e um dos melhores álbuns de 2017, o excelente TVRVØ, até os "novatos" do Frieza, de Goiânia, que soltaram recentemente o seu primeiro trabalho, passando pelo Jupiterian, de São Paulo, prestes a lançar seu segundo full e embarcar em nova tour pela Europa, e pelo Rakta, também da capital paulista, que já rodou o mundo em diferentes tours, foi destaque na revista Maximum RocknRoll e fez uma apresentação na icônica rádio KEXP, de Seattle, no ano passado.

Na ativa desde 2013, o Jupiterian vem tornando-se cada vez mais um nome conhecido entre os fãs de doom metal pelo mundo. Após ganhar destaque em publicações como Invisible Oranges, Decibel Magazine e o próprio CVLT Nation com o seu primeiro full Aphotic , de 2015, o quarteto se prepara agora para lançar o segundo disco e voltar à Europa, onde farão uma tour com a banda finlandesa de death metal Krypts no próximo mês de setembro. "Hoje entendemos muito mais um ao outro e onde queremos chegar com uma música quando estamos criando coisa nova, embora sempre chegamos a conclusão de que é a música que diz onde ela quer chegar. Acho que isso pode transparecer como algum tipo de identidade na nossa música e ficamos felizes se alguém vê valor nisso e se interessa de alguma forma", explica o guitarrista e vocalista Thiago Vakka.

Já com seis discos lançados, entre fulls, EPs e colaborações, o Rakta faz um som hipnótico e difícil de definir, com influências de punk, pós-punk e psicodelia, que chamou a atenção de gente como o guitarrista/baixista e vocalista do Boris, Takeshi, que já citou o grupo como um das suas bandas brasileiras favoritas. "Começamos sem pretensão alguma, a não ser o fato de querer tocar juntas e as coisas foram acontecendo. Eu mesma relutei em fazer a primeira turnê, tive muitas dúvidas em seguir com a banda ou não. Enfim, muitas fases. Tudo isso impactou a banda de forma bem positiva, falo por mim", lembra a tecladista e vocalista Paula Rebellato sobre os lançamentos e turnês fora do país desde o início da banda, em 2012.

Rakta. Foto: Mateus Mondini/Divulgação

Para ela, que divide o palco com Carla Boregas, no baixo e voz, e Nathalia Viccari, na bateria, o fato de viajarem bastante e contarem com selos de lugares diferentes lançando seus discos ajuda a levar o som do trio pelo mundo, incluindo shows nos EUA, Canadá, México, Europa, América do Sul e Japão. "E outro fator é que eu sei que temos algo potente para compartilhar e as pessoas se conectam com a gente e com a nossa presença", destaca.

Com uma formação ainda mais enxuta, o duo de crust/grind Test, formado em 2010 por João Kombi na guitarra e voz e Thiago Barata na bateria, é outro nome do underground local que obteve destaque nos últimos anos, quando acabou ganhando o Brasil e o mundo com o seu som rápido e direto e um verdadeiro esquema de guerrilha, no melhor estilo DIY, que lhes permite tocar quando e onde quiserem com a ajuda da kombi do seu vocalista. Com o passar do tempo, a banda também começou a ocupar com frequência os palcos tradicionais, abrindo os shows de artistas como The Dillinger Escape Plan e Carcass em nosso país.

Além disso, a dupla foi citada diversas vezes por nomes como Shane Embury, do Napalm Death, e pelos irmãos Max e Iggor Cavalera, com quem inclusive já dividiram o palco. "Com relação aos nossos ídolos, é uma emoção muito grande quando eles nos mencionam; só temos banda por causa deles. Acho que o que chama a atenção deles (segundo os próprios) é a maneira como tocamos ao vivo, com dinâmica, de um jeito meio particular e, claro, a qualidade do Barata", conta João, que também fez parte de outra banda cultuada do underground brasileiro, o Are You God?.

Questionado sobre o reconhecimento cada vez maior fora do Brasil de nomes como os já citados Rakta, Deaf Kids, Labirinto e Carahter, o vocalista e guitarrista do Test destaca que todos tem algo a mais pra mostrar. "Por isso, causam um barulho maior por onde passam. Nós gostamos muito e nos sentimos na mesma cena, já que várias vezes dividimos o palco e projetos e, em todo lugar que tocamos, alguma dessas bandas também já tocou."

Para Marcelo Fonseca, que fez parte de uma das mais importantes bandas de punk/metal torto do país, o Constrito, e hoje está à frente do O Cúmplice, Basalt (banda na qual este repórter toca guitarra) e Escuro, além de tocar a gravadora (e o festival) Black Embers, esse momento de maior reconhecimento das bandas brasileiras underground fora do país tem a ver com um desprendimento maior dos artistas locais, agora mais focados em identidades, estéticas e mensagens particulares. "Acho que muita gente, durante muito tempo, ficou entre dois caminhos. Uns tentaram ser o próximo Sepultura, querendo criar o seu Roots, enquanto outros tentaram ser réplicas, o mais fiéis possíveis das matrizes originais. Se isso é bom ou ruim, nem entro na questão, mas na minha percepção, acho que quando as bandas optam por ser elas mesmas, desprendidas de repetir modelos, despertam mais o interesse das pessoas. Seja aqui ou do outro lado do planeta. Acho também que na Europa e nos Estados Unidos, eles ainda tendem a achar 'exótica' uma banda vinda da América do Sul. Para bem ou para mal, isso abre espaços, pois afinal em termos de underground eles vivem e já viram praticamente de tudo."

Do outro lado do oceano, o português André Mendes, responsável pela produtora Amplificasom e pelo festival de música torta Amplifest, também vê algo de diferente acontecendo no underground do Brasil. "Não sinto que receba mais informação de bandas brasileiras, mas vendo de fora parece-me que algo de muito positivo está a acontecer no Brasil com todas as bandas internacionais a finalmente tocarem aí e as locais a saírem para outros palcos com uma 'facilidade' que não era habitual. A geografia não é amiga, sobretudo quando se procuram os palcos europeus, mas não creio que estejamos a assistir a uma moda, acredito que esteja relacionado com um trabalho de vários anos. Por exemplo, o Labirinto investe em tours europeias bem antes da colaboração com a Pelagic."

Mas o que isso tudo pode trazer para a cena brasileira de música torta nos próximos anos? Para Robin, da Pelagic Records, esse processo de reconhecimento fora do país é essencial para o desenvolvimento do underground. "É extremamente importante para uma cena underground vibrante que existam heróis locais. O efeito de imitação que acontece a partir de modelos e bandas locais legais é, na verdade, algo bastante positivo. Não porque as bandas devem querer soar ou tentar copiar outras bandas, mas porque artistas locais fortes que são legitimados pelo sucesso internacional trazem uma dinâmica para a cena local e fazem com que ela cresça."

Deaf Kids ensaiando em casa. Foto: Felipe Larozza/VICE

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