Publicidade
Saúde

Dez perguntas que você sempre quis fazer a uma pessoa com anorexia

“Eu gostava de ver meus ossos e pensava ‘amanhã verei mais’”.

por Ana Iris Simón; Traduzido por Mariana Miyamoto
28 Junho 2018, 10:00am

Maria. Imagem: @estherfornosfotografia 

Maria tinha 12 anos quando começou a sofrer de anorexia nervosa restritiva e 18 quando conseguiu superá-la definitivamente. Dez anos e um livro depois (La meva anorèxia ), acaba de ter uma filha e é colaboradora na Fundação ACAB, uma das dezenas de associações contra os transtornos alimentares que se espalham mundo afora.

Quando pedi que definisse a doença que a acompanhou durante toda a adolescência, ela disse que é uma tristeza enorme, algo que nasce na alma. “É como se a vida te pesasse”. Porque a anorexia vai além da alimentação, muito além das restrições, dos vômitos e da magreza, ainda que ás vezes isso seja negligenciado. Pedi então que me explicasse com mais detalhes, para que eu possa entender a doença que vai além da comida, em dez respostas.

VICE: Olá Maria. Como é o começo da anorexia? Um dia de repente você para de comer ou é algo progressivo?
Maria: No meu caso não foi repentino, aconteceu progressivamente. Comecei a restringir as refeições que não eram principais, primeiramente o lanche, depois o café da manhã e logo parei de comer os alimentos mais calóricos.

Não comia carboidratos a não ser que fosse muito imprescindível, se eu escolhia a minha comida eram sempre os alimentos mais leves que íam para o prato… pouco a pouco fui caindo na obsessão e foi então, que comecei a restringir muito mais. Comecei a me dar conta de que algo não ia bem, a obsessão era cada vez mais evidente.

Me via mal fisicamente e me sentia muito triste, pálida e sem energia. Também, ao restringir a alimentação se restringem as relações sociais pois muitas vezes encontros envolvem comida: beber algo, sair para jantar… e eu via que ficava cada vez mais complicado.

“Ao não ter uma relação saudável com a alimentação, não se tem uma relação saudável com o mundo no geral.”

Como é a vida de uma pessoa com transtorno alimentar? No que se diferencia da vida de alguém que não sofre da doença?
Em muitas coisas. Quando se está saudável não se dá conta, mas a comida está em todas as partes: desde quando recebe uma visita e lhe oferece um café até quando sai para dar uma volta e belisca algo ou acaba jantando. A socialização tem muito a ver com a comida.

Ao não ter uma relação saudável com a alimentação, não se tem uma relação saudável com o mundo no geral. Desencadeia uma tendência ao isolamento porque você acaba querendo se distanciar de tudo que tenha alguma relação com o hábito de comer. Você vira uma calculadora de calorias. É curioso porque eu ainda me lembro quantas calorias muitos alimentos tem, mesmo que não me importe mais com isso há anos.

Mas um transtorno alimentar vai muito mais além da relação da pessoa que sofre da doença com a comida. Tem uma questão emocional muito grande, um desejo de controle e de perfeição enormes. Mas a maneira mais plausível e óbvia de vê-la é em como se relaciona a pessoa doente com a comida.

“Você pode controlar seu peso, mas chega um momento em que os ossos são o que são. Não dá para diminuí-los, isso é uma frustração constante.”

O que há por trás dos problemas com a comida então? O que vai mais além?
No meu caso em particular, o que havia por trás era um perfeccionismo muito grande, uma autoexigência imensa e a baixa autoestima. Sempre entendi minha anorexia como um desejo de controlar algo. Sou uma pessoa controladora, perfeccionista e com um traço obsessivo ás vezes. E na transição de menina a adolescente, que foi quando desenvolvi a doença, passei por um momento no qual me dei conta de que havia coisas que não podia controlar.

De repente você se dá conta de que existem coisas que te escapam e que o mundo se mostra grande. Então você “decide” voluntariamente — mas de fato involuntariamente pois é a doença que se apodera desse desejo —, começar a controlar algo: seu próprio corpo. Claro que essa é uma confusão fruto do transtorno, porque o corpo também não pode ser controlado a esse nível. Nós viemos com um peso, uma altura, uma constituição…

Você pode controlar seu peso, mas chega um momento em que os ossos são o que são. Não dá para diminuí-los, isso é uma frustração constante.

O que você sentia quando se olhava no espelho?
Me sentia constantemente insatisfeita. Realmente nunca há uma perca de peso suficiente, para que se sinta à vontade com seu corpo, não importa se você está com um peso normal ou um mínimo. A sensação de ver que está cada vez mais magra é gratificante, mas nunca basta. Eu gostava de ver meus ossos e pensava “amanhã verei um pouco mais”.

Quando estava em tratamento e tive que recuperar peso, a sensação era de angústia, de não querer me ver assim. Um dos sintomas da anorexia é a distorção da imagem corporal. Inclusive, no meu caso pôde ser quantificado pois realizamos oficinas de percepção da imagem corporal. Um dos exercícios consistia em desenhar em tamanho real sua imagem em um papel enorme e depois que alguém traçasse sua silhueta real, comparar as duas. Eu me desenhei duas vezes e meia maior do que eu era.

Existe a imagem de que quem sofre de anorexia mente para que não descubram sua doença. Como você fazia?
Uma das características da doença é que ela se camufla muito bem e os doentes são os primeiros interessados em mantê-la imperceptível. Não querem que sejam rotulados como doentes, pois vão tentar curá-los e então se acaba o controle que eles acreditam ter sobre seus corpos. Por isso a anorexia te faz manipular as coisas e se tornar um mentiroso.

São mentiras inocentes, mas ainda assim, mentiras. Você diz que comeu, que não come porque te dá dor de barriga, que não gosta de certos alimentos… Conheci inclusive gente que escondeu a doença durante anos sob o veganismo, que diziam não consumir produtos de origem animal porque os respeitava quando na verdade o que queriam era emagrecer, a realidade é que sofriam de anorexia.

Dez anos depois de supercar sua anorexia nervosa restritiva, Maria acaba de ter sua primeira filha. Imagem: Esther Fornos.

O que as pessoas diziam quando você contava ou descobriam sobre a sua doença?
Das pessoas mais próximas o que eu recebia eram mensagens de preocupação. Mas as que já não eram tão próximas, ainda que não me tenham me dito diretamente, me passavam a sensação de “isso é frescura”, “fica de frescura com a comida”. Isso me chateava muito, em primeiro lugar porque deixava implícita a ideia da voluntariedade e eu não fazia nada daquilo voluntariamente, e sim porque estava doente.

E também porque não é frescura; a anorexia é uma doença muito grave. Me lembrava também que no início, quando comecei a emagrecer mas ainda não era tão evidente que estava doente, recebia comentários positivos. Eu era uma menina com medidas maiores que as da média, mas não tinha problemas com peso e quando comecei a emagrecer me diziam “como você está bonita”, “como você está bem”…

Além da minha família, ninguém me perguntou em momento algum o por quê de eu estar emagrecendo, se estava acontecendo algo. Eram comentários positivos, quando na verdade por trás de toda essa magreza havia um sofrimento enorme. Mas também é verdade que eu estava muito suscetível às opiniões alheias, e as valorizava muito devido à minha baixa autoestima, então me dizer essas coisas era como me dar asas para continuar.

“Além da minha família, ninguém perguntou em momento algum o por quê de eu estar emagrecendo, se estava acontecendo algo. Eram comentários positivos, quando na verdade por trás de toda essa magreza havia um sofrimento enorme.”

Qual a pior parte da anorexia?
É um pouco difícil de admitir, mas acho que o pior seja assumir que você fez as pessoas que te amam e as pessoas que você ama sofrerem tanto. Quando você tem a doença você se torna egoísta, e eu era. Não poderia ser de outra maneira, porque estava doente, mas na época eu não me dava conta de como isso afetava meus pais, minha irmã, meus arredores. A anorexia te torna muito egocêntrica.

Você não consegue enxergar muito além do que se passa com você mesma e superar isso é complicado, porque quando você se cura e se dá conta do que aconteceu, do que você fez, você sente uma culpa enorme. Mas essa culpa também não leva a lugar nenhum. É preciso assumir que durante um tempo, seu corpo e sua persona agiram seguindo diretrizes que não eram suas, mas sim de algo diabólico.

Também é duro o que você perde durante o tempo em que permanece doente, pois sua vida se resume à doença. Você não consegue prestar atenção em mais nada além de planejar quantas calorias você vai comer no dia e como vai fazer para queimá-las para não engordar.

“É um pouco difícil de admitir, mas acho que o pior é assumir que você fez as pessoas que te amam e as pessoas que você ama sofrerem tanto.”

Você ficou com alguma sequela física?
Sim. Durante um tempo tive muita osteoporose porque como sofri de amenorreia (ausência de períodos menstruais) os ossos sofreram muito e tive que tomar suplementos. No entanto, sobre a disfunção menstrual me recuperei bem e tive uma filha, tive um parto maravilhoso e sem nenhum problema. Mas não é sempre assim, esse é o meu caso. Ao recuperar o peso as coisas voltaram ao seu lugar. É verdade que tenho desconfortos digestivos, nunca tenho uma boa digestão, mas ninguém sabe me dizer se é uma sequela da doença ou não.

A indústria da moda e a ficção fazem os casos de anorexia aumentarem?
Acredito que há uma influência e negar isso é um erro. Mas me dá muita raiva que a anorexia seja atribuída exclusivamente à influência da moda. Que pensem que é simplesmente algo estético. Eu, por exemplo, nunca me interessei pela moda ou estética. Não me considero uma pessoa superficial em nada e no entanto peguei uma anorexia a cavalo. Não podemos negar que vivemos em uma sociedade que valoriza muito a magreza, especialmente da mulher, mas para mim a anorexia é algo que nasce na alma.

É uma tristeza enorme. Eu a resumo ás vezes como “sua vida te pesa”. Você se dá conta de que não pode lidar com ela, ou ao menos com alguns aspectos e não suporta o fato de não ter controle, de não poder decidir nada do que vai acontecer. Soa muito dramático, mas esse é um momento que é assim. O que acontece é que a doença vaicse aproveitar disso para tomar conta de você com uma falsa ilusão de controle. Então você perde sua autonomia, independência e qualquer vontade que possa ter e é obrigada a obedecer. Se você não obedece ela te castiga com ansiedade, angustia, dor, tristeza e culpa.

Tem cura?
Eu acredito que sim. Hoje em dia tenho uma relação normal com a comida. Posso desfrutar, comer o que eu gosto… o que não muda é a razão que causa a anorexia se você não trabalha com ela. Se eu não tivesse trabalhado minha autoestima, se não tivesse dedicado tempo a me conhecer, a entender como e quem eu sou, se não tivesse passado horas com especialistas, poderia ter caído nela de novo, ou jamais ter saído.

As causas da minha anorexia, minha baixa autoestima, meu perfeccionismo e meu desejo de controle permanecem em mim e afloram em momentos baixos, mas eu amadureci e tenho trabalhado a respeito e por isso consegui sair e já não estou doente. Para isso existe o tratamento com especialistas. Mas é verdade que, ainda que esteja curada, não significa que esteja imune a ela. Ninguém está. Posso voltar a ter anorexia assim como pode ter qualquer outra pessoa que não tenha tido antes.

Matéria originalmente publicada na VICE Espanha.

Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter , Instagram e YouTube .