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Como funciona uma biqueira em São Paulo

Traficante explica como é o pagamento de propina a policiais e a gestão dos pontos de tráfico na cidade.

por Alfredo Henrique
23 Maio 2018, 6:44pm

Ilustração por Flora Próspero. 

O tráfico de drogas, apesar de ilegal, é gerido mais ou menos da mesma forma que uma empresa padrão. E para que os negócios aconteçam ou prosperem, pra desilusão dos ancaps, os comerciantes do mercado ilícito também pagam algo similar a impostos: seja pra facções criminosas, seja pra policiais corruptos. Entrevistei um traficante de 23 anos na grande São Paulo que me explicou, com detalhes, sobre a gestão de uma boca de fumo na capital. Ele também ressaltou como funciona o pagamento do arrego, a propina que certos agentes da lei exigem e como se estruturam as biqueiras, também conhecidas entre os criminosos como “lojas”.

Após semanas de negociação, marquei de me encontrar com ele, cujo vulgo aqui será Almeidinha, em uma favela. Dentro de um pequeno cômodo, com as paredes repletas de frases e desenhos alusivos às viagens proporcionadas por erva ou cogumelos, ele aguardava fumando maconha com mais três chegados. “Fica de boa aí e vamos conversar”, se adiantou. Antes de começar a entrevista, expliquei que não queria saber sobre seus planos futuros – para não correr o risco de me tornar cúmplice do traficante – e avisei que iria gravar a conversa.

Um pouco de história

Desde que Almeidinha nasceu, o tio dele já era envolvido com a comercialização de maconha. “Foi daí que tirei a base de influência para realizar todo o meu (atual) trabalho.”

Quando o tio foi preso pela primeira vez, pelas Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) da PM paulista, o jovem estava com 12 anos e o parente com 21, permanecendo um ano e um mês dentro do sistema carcerário. Com a prisão, o pré-adolescente descobriu o envolvimento do tio com o tráfico de drogas.

Nas ruas, cumprindo condicional, o tio do Almeidinha ficou um ano em liberdade – tempo após o qual foi preso, de novo, por envolvimento em um roubo de carga. Cerca de seis anos se passaram e, quando Almeidinha contava com 18 anos, o tio saiu pela segundo vez do sistema. “Aí eu comecei a ver ele (tio) embalando drogas e fazendo os corres (do tráfico). Mas fui me envolver no movimento mesmo quando estava com 20 anos, ajudando com a embalagem e a cortar (a droga)”. O tio de Almeidinha cumpria a função de gerente de boca na ocasião. “O gerente da boca é o ‘CEO’ da empresa”, definiu a função.

O envolvimento de Almeidinha com o universo do tráfico não foi uma coisa imposta, ou realizada por meio de convite. Foi algo natural. “Eu colava na casa do meu tio e ajudava ele a fazer os corres. Eu falava: posso dar uma força aí? Aí meu tio me falava para fazer as coisas, assim, assim e assado.”

Como funcionam os lucros, segundo o traficante

Para cada quilo de maconha embalada, os gerentes do submundo ganham, segundo Almeidinha, R$ 50 – sem contar a venda das porções. O tio dele trabalhava somente com maconha, pois o espaço usado por ele era “arrendado” pelo dono da região para somente vender este tipo de droga. O dono da área, ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), também cobrava pelo espaço usado por outros traficantes que comercializavam drogas químicas e sintéticas. O mano da facção era como o dono das franquias do crime na área.

Em 2013, o tio comercializava entre 35 e 40 quilos de maconha. No final de 2017, quando ocorreu a entrevista, o parente de Almeidinha manufaturava entre 10 e 12 quilos de erva. As quantidades, que sofreram uma baixa considerável, são referentes a 15 dias de vendas.

Segundo Almeidinha, as coisas começaram a ficar ruins para o comércio de maconha entre o final de 2016 e início de 2017. “Para você ter uma ideia. Como o arrendamento do meu tio não estava girando, ele perdeu (o espaço) da favela. Sempre tem outros caras querendo a gerência. Se você não dá lucro, é cortado e substituído, igual numa empresa ‘normal’.”

Acrescentou que para uma “loja” render, o produto precisa ser “de qualidade”, além de oferecer um bom salário para que o funcionário tenha vontade de trampar, “É um mercado como qualquer outro, mano, só que é ilícito.”

Pagamento aos funcionários

Segundo Almeidinha, um vapor – o vendedor da mercadoria – há cinco anos conseguia tirar até R$ 500 por dia de vendas. O sistema de cálculo do tráfico para a comercialização, feita pelo vapor, é realizado por “malas”, oriundas dos quilos de maconha cortada. A mala é um conjunto de trouxinhas de maconha, que serão repassadas aos consumidores. “Com um quilo, se o mano for bom, ele faz de 28 a 29 malas, de R$ 5, R$ 10 e geralmente também tem de R$ 20 e de R$ 40. Varia”, explicou Almeidinha.

As malas de R$ 10 rendem, geralmente, R$ 130, pois são constituídas de 13 trouxinhas. Se for de R$ 5, a mala é feita com 26 embalagens e a de R$ 40 vem com três neste valor, além de uma de R$ 10. Considerando os valores e a quantidade de malas, um quilo comercializado na loja do tio de Almeidinha, quando ele ainda a tinha, rendia quase R$ 4 mil. O vapor ganhava na ocasião R$ 10 por mala vendida, mas as coisas “não são mais assim”, revelou o traficante. O restante do lucro fica com o dono da biqueira, que o divide com o gerente e com seus vapores. Já o arrendatário, o dono das franquias, "ganha dinheiro somente cobrando pelo espaço usado pelas lojas”.

Segundo Almeidinha, atualmente uma loja média fatura, quinzenalmente, entre R$ 15 mil e R$ 20 mil – que é o caso da que era administrada pelo seu tio. Após o dono do comércio pegar sua parte e a do arrendatário, aproximadamente 65% do que sobrava ficavam com o gerente e o restante era distribuído entre seus funcionários – mostrando que as bocas de fumo não estão garantindo lucros exorbitantes, atualmente, como em um passado recente. “O gerente precisa comprar a carga, preparar ela com o corte, além de pagar os funcionários. Do lucro total, ficam totalmente livres para ele entre R$ 5 mil e R$ 7 mil”. Cada biqueira média conta com 12 vapores – que se dividem em seis, revezando-se em turnos de 12 horas de trabalho – e dois olheiros, que avisam quando policiais não corruptos estão por perto.

Após puxar e soltar a fumaça de um baseado, Almeidinha informou que no Jardim Brasil (zona norte de São Paulo), por exemplo, há ruas que contam com 11 biqueiras, onde o lucro mensal é de mais de R$ 60 mil por loja. “Antigamente, cada uma rendia uns R$ 150 mil. Falo porque conheço a região”.

Prestando conta para as facções

Em uma vila (área), segundo Almeidinha, existem em média oito lojas – como ocorre na em que ele atua, na região metropolitana de SP. Todas as lojas contam com um dono, que não precisa ser necessariamente do “comando”, mas que presta contas à facção que domina o perímetro. O bairro em que ocorreu a entrevista é comandado pelo PCC.

Questionado sobre a possibilidade de se mudar o produto vendido na biqueira, Almeidinha falou não ser possível, pois fica pré-determinado em um contrato verbal com o dono da região qual será o tipo de droga vendida pelo dono da loja. “(O contrato) é de boca mesmo, a palavra é o que vale.”

O que mudou é que, por conta da crise e consequente queda dos lucros, muitos gerentes estão perdendo seus pontos de venda e seus postos de trabalho. Ele atribui a crise de vendas de drogas às ações realizados pelas policias Civil, Federal e Rodoviária Federal – que teriam aumentado as apreensões de drogas.

A Polícia Federal enviou à VICE a quantidade de drogas apreendidas em 2016 e até 27 de novembro de 2017 em todo o país. Mesmo com os dados do ano passado ainda não fechados, o aumento no número de drogas tiradas de circulação é expressivo. Em 2016 foram apreendidas 236,242 toneladas de maconha e, até 27 de novembro do ano passado, 313,127 toneladas, um aumento de 32%. De cocaína (cloridrato, pasta base e crack) foram 41,472 toneladas, ante 44,765 toneladas, representando alta de 7,9%.

Os dados da Polícia Rodoviária Federal também mostram que a corporação aumentou a quantidade de drogas apreendidas nas rodovias federais brasileiras. Em 2016, foram 220,4 toneladas de maconha retiradas das mãos do tráfico e, em 2017, foram 344,9 toneladas, um aumento de 56%. As apreensões de cocaína também aumentaram de 6,6 toneladas para 9,3 toneladas (40%) e as de crack de 1,2 tonelada para 1,4 tonelada (16%).

A reportagem não obteve o número de apreensões de drogas feitas pela Polícia Civil no Brasil. Porém, segundo a SSP, as ocorrências de “tráfico de entorpecentes” (sem discriminação de tipos de droga) aumentaram de 45.549, em 2016, para 49.346 no ano seguinte, representando alta de 8,3%.

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Assista também ao nosso documentário "A Legalização da Cannabis no Brasil"


Pagando impostos... para a polícia

Segundo Almeidinha, quem comanda as cobranças dos acertos na região onde ele trafica são os policiais civis. “Com a PM não tem arrego aqui”, revelou. Na área em que faz suas vendas, três delegacias diferentes realizam as cobranças aos criminosos para que a comercialização de drogas possa fluir. “Geralmente, são de três a quatro policiais por delegacia que fazem o recolhimento da grana”, explicou. Porém, cada grupo de tiras corruptos “divide as biqueiras”, sendo cada uma “fonte de renda” exclusiva de um distrito policial.

O traficante informou que “os caras investigam forte” para saber o quanto de grana cada boca de fumo rende mensalmente. “Quando eles vêm cobrar, já chegam com um valor fechado, pois sabem sobre os lucros. Aí falam: quero tanto.” A cobrança, ao menos na área de Almeidinha, é feita anualmente. Os traficantes dão o equivalente a um mês de lucro aos policiais para que estes os deixem em paz, sem atrapalhar o andamento dos negócios. “Eu sei que a Favela do 13, que fica em Guarulhos (Grande SP), paga R$ 45 mil de arrego anual (para policiais civis).”

Ex-policial civil fala sobre inversão de valores

Um ex-investigador da polícia civil, que pediu para não ter o nome publicado por questões de segurança, afirmou que os valores éticos e morais se “reconstroem” dentro da instituição. Quando se torna agente da lei, a pessoa precisa se garantir financeiramente e também fica diante da necessidade de “dar uma resposta” para a sociedade enquanto policial. “Quando eu falo de sociedade, eu falo de uma classe média. Que você (policial) trabalha para uma classe média. A grande massa, que é a população mais pobre, que é a maioria, na verdade a polícia não atua para ela, atua contra ela. Ela está ali para atrapalhar a vida de uma classe média”.

Acrescentou que os valores dentro da polícia se invertem. O que a sociedade conhece como “certo”, dentro da instituição se torna “errado” e vice-versa. “Para que o policial acorde todo dia e consiga se deslocar até a delegacia, ele precisa de um veículo. Para que ele não more em um bairro pobre, da periferia, ao lado das mesmas pessoas que ele prende. Enfim, ele precisa se remunerar para isso. Essas são algumas das justificativas usadas por eles para que precisem de dinheiro (extra)”. Segundo convocação para concurso da Polícia Civil paulista, no fim de 2017, o salário inicial de investigador, assim como de escrivão, é de R$ 4.194,76. A impressão que o ex-policial tinha dentro da Civil era a de que a sociedade faz vista grossa para os desvios de conduta de policiais, desde que mantenham a cidade segura e que os crimes realizados pelos agentes não fiquem “tão evidentes”.

O entrevistado entrou na polícia porque na ocasião, quando ainda era “muito jovem”, estava desempregado e foi passando nas provas e, de repente, lhe deram uma arma e um distintivo. “Aí me falaram, vai lá, se vira”. Quando surgiu uma oportunidade, para ganhar mais que o dobro como policial civil, ele não pensou duas vezes e largou a carreira. Apesar disso, revelou sentir saudades dos amigos que lá deixou.

“O policial que arrecada bem é visto como um bom policial”

A inversão de valores destacada pelo ex-investigador também ocorre quando policiais ostentam itens caros adquiridos com “o dinheiro extra”. “É como se aquela pessoa fosse uma vencedora naquilo que ela faz. Esse tipo de exposição é um sinal de que aquele policial arrecada bem. O policial que arrecada bem é visto como um bom policial. Não basta você ser um cara que investiga bem, que soluciona casos. Você também tem que ser bom em arrecadar”.

Não só de arrego vive um bom arrecadador. O esquema é usar o sistema ao seu favor. O dinheiro do crime não é sujo, na perspectiva da ética invertida aqui já mencionada. “O dinheiro do crime é um dinheiro que não tem dono. Quando você entra numa boca de fumo e encontra R$ 20 mil lá dentro, de quem são esses R$ 20 mil? Não são de ninguém, é do crime. Ao invés do policial apreender os R$ 20 mil, ele apreende R$ 2 mil e o resto ele divide com a equipe.” Além disso, o ex-policial admitiu que também ocorrem crimes como extorsão e sequestro de criminosos em troca de grana. “Mas o clima na delegacia fica bem pesado, mesmo quando eles são praticados contra criminosos. É um trampo muito, muito barra pesada. Normalmente reúnem-se numa só equipe gente com esse fígado, com esse sangue no olho, para não dar problema.”

Ele afirmou que o tempo que passou na instituição fez com que aprendesse a não fazer juízo de valor. Afirmou que se há alguém com culpa nisso tudo é a sociedade, que aceita os desvios, pois a população não se preocupa e não se abre a outro modelo de segurança pública. “Para ela está ótimo. Eu acho que ela tem mais é que se foder mesmo. Se ela não se importa em saber que a polícia investigativa é hipócrita, se ela não se importa em saber que a polícia ostensiva (PM) é violenta e que o Brasil é um dos países mais violentos do mundo, e que nossa política de segurança pública não funciona, então foda-se”.

Um policial expulso a cada quase dois dias em SP

A VICE obteve com exclusividade o número de policiais, civis e militares, expulsos no estado de São Paulo, entre 2008 e 2017. Durante o período, 2.271 agentes foram desligados das instituições, o que daria um afastamento a cada 1,6 dia. Os desligamentos da Civil ocorreram por causa de corrupção, extorsão e prevaricação – quando um agente público usa seu cargo para se beneficiar. Já a PM, com maior número de desligamentos, não especificou os motivos das demissões.

A Polícia Civil expulsou, ao todo durante o período, 500 policiais que receberam algum tipo de remuneração das mãos de criminosos. O crime que mais desligou policiais foi a corrupção, que motivou o desligamento de 372 policiais, seguida da extorsão (105) e da prevaricação, com 23 expulsões. Considerando o período e o total de desligamentos, a Polícia Civil perdeu, em dez anos, um agente a cada 7,3 dias no estado, por conta de condutas criminosas.

Já a PM, segundo sua corregedoria, expulsou 1.771 membros da corporação entre 2008 e 2017. Isso equivale a um desligamento a cada dois dias durante o período. Diferentemente da Civil, que discrimina o tipo de contravenção, os militares explicaram que “não há dados tabulados acerca dos motivos das expulsões”. Por isso, a corporação totaliza seus desligamentos por ano, sem descriminar o tipo de desvio de conduta.

A Secretaria Estadual de Segurança Pública paulista (SSP) afirmou apurar “todas as suspeitas” contra policiais e que promove a punição daqueles que cometem “qualquer irregularidade”. “No âmbito preventivo há uma seleção dos candidatos na fase de concursos públicos para o ingresso na Instituição e, já quando atuantes na carreira, é feito um acompanhamento de desempenho destes policiais. As expulsões, como apresentado pela reportagem, é atribuído a este fato, além das parcerias com o Ministério Público”, diz trecho de nota.

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