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Um passeio pelo shopping da vigilância em SP

Não dá para escapar: o reconhecimento facial estará por todos os cantos. E seus dados, claro, serão cada vez mais mercadoria.

por João Paulo Vicente
13 Março 2018, 10:00am

Crédito: ISC/ Divulgação

Vamos falar de noções estranhas de turismo? Estive, na semana passada, na 13º Feira e Conferência Internacional de Segurança, ou ISC Brasil 4.0, em São Paulo, uma espécie de parque de diversões para quem se interessa por traquitanas e sistemas de vigilância, monitoramento e proteção de propriedade.

Instalado entre os dias 6 e 8 de março no pavilhão azul do Expo Center Norte, o evento é o paraíso dos ególatras e voyeurs (não é meu caso, juro): onde quer que se olhe, um monitor exibe uma imagem sua captada por câmeras de seguranças nos estandes de mais de cem expositores.

Mas elas não estavam ali para proteger; estavam para ser exibidas, analisadas, compradas.

Como tem ocorrido nos últimos anos, a ISC mostrou tendências tecnológicas das áreas de segurança privada, pública, eletrônica e digital. Entre tantas atrações hi-tech, nenhuma chamou tanto a atenção quanto as soluções de reconhecimento facial. Pelos estandes, elas vendiam toda uma narrativa de inteligência artificial e deep learning por trás da sua eficácia.

A da empresa chinesa Hikvision, exposta em meio à uma câmera termal e outra capaz de fazer imagens coloridas no escuro, impressionava. Em uma demonstração, um representante da companhia escolheu a foto de um colega da feira a partir de um banco de dados. Rapidão apareceram todos os momentos em que seu rostinho fora filmado no espaço. A mesma tecnologia, disse o cara, permite fazer reconhecimento de placas e carros.

Segundo o representante, esse sistema já está em uso em shoppings do Rio de Janeiro. Lá é possível criar alertas para quando alguém está em local proibido ou colocar determinadas pessoas em uma lista de personas non gratas no banco de dados. “Se alguém roubou uma joalheria no shopping, é possível estabelecer um alarme que informe todas as vezes que ele voltar ao ambiente”, explicou.

Sozinha, uma dessas câmeras tem capacidade de armazenar 90 mil faces. Integrada a um sistema maior, o número se multiplica tanto quanto o comprador estiver disposto a gastar. Para completar, há um produto chamado facetrail, que projeta num mapa em perspectiva a localização e movimentação de uma pessoa em determinado ambiente de acordo com as imagens captadas. Na China, o sistema é usado para procurar por pessoas desaparecidas. Baixa-se a precisão do reconhecimento para 50%, por exemplo, e as câmeras são capazes de reconhecer alguém um pouco mais velho, com barba diferente, óculos novo e por aí vai.

Do outro lado da feira, no estande bem mais singelo da Microsoft, um monitor demonstrava capacidade semelhante de reconhecimento e identificação facial. Era uma exibição do Cognitive Services, uma série de funcionalidades desenvolvidas para ampliar a capacidade de conexão de aplicativos com usuários.

Nos Estados Unidos, o Uber usa a solução da Microsoft para garantir que o figura por trás do volante é realmente o motorista cadastrado no aplicativo. Na feira, o tal sistema era capaz de identificar o sexo e gênero de qualquer pessoa, mesmo que não estivessem dentro do seu banco de dados. Aparentemente eu tenho 47 anos (ainda nem fiz 32). Valeu pela injeção de autoestima, Bill Gates.

Crédito: ISC/ Divulgação

No setor de vigilância tudo é pouquinho assustador e muito caro. A expectativa é que só durante a ISC sejam movimentados R$ 850 milhões. E, no futuro, pode ser mais: durante a abertura do evento e frente a ampla oferta de novidades, o ministro Raul Jungmann, do recém-criado Ministérios Extraordinário de Segurança Público, prometeu criar uma Secretaria de Produtos de Segurança Pública e Inovação no Ministério.

O ministro também citou a galinha de ovos de ouro: a linha de crédito de R$ 42 bilhões aberta pelo governo federal para que estados e municípios invistam em segurança pública. Será um empréstimo financiado pelo BNDES para reequipar as polícias e órgãos de segurança do país, como disse o general de reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, que acumula os cargos de chefe da Secretaria Nacional de Segurança Pública e secretário-executivo do novo ministério. “E a área de tecnologia é super importante para a inteligência das polícias”, disse.

Além das imagens: tretas de espionagem

Os produtos expostos não ficavam restritos ao vídeo, claro. Havia um mundo de soluções de controle de acesso para prédios e condomínios, inclusive com leitura de íris, para garantir que daqui a dez anos aquela conversa com o porteiro não exista mais. Também estavam presentes diversas opções de proteção de perímetros, como as boas e velhas cercas elétricas, cabeamentos escondidos que identificavam intrusões por meio de deslocamento de massa de água e até radares.

Para completar, mais de uma empresa oferecia sistemas de fumaça que obscurecem a visão caso determinado ambiente seja invadido. Consta já ser um must em agências bancárias pelo Brasil.

Crédito: ISC/ Divulgação

Também havia soluções para problemas específicos, como o roubo de cargas de caminhão. Um tipo de crime que cresceu 42% nos últimos quatro anos de acordo com a Associação Nacional do Transporte de Cargas & Logística e se sofisticou a ponto das quadrilhas usarem jammers de radiofrequência (espécie de bloqueador de sinal) para silenciarem os dispositivos rastreadores.

Na feira, a solução para este cenário era o J-Alert, fabricado pela canadense Dyplex e vendido no Brasil pela Tracer Tag. Trata-se de um dispositivo capaz de detectar um jammer numa área e identificar de onde vem o sinal. A ideia é que empresas de segurança particular e órgãos de segurança usem o equipamento para buscar as cargas roubadas - a Polícia Rodoviária Federal já comprou alguns, inclusive. “Você pode colocar no helicóptero e ir atrás. Às vezes até calha de achar o ladrão da carga do vizinho”, disse Jacques Albuquerque, sócio da Tracer Tag.

O outro lado da moeda não estava muito distante. A também canadense Santor, distribuída no Brasil pela Infinity Safe, mostrava uma linha de jammers voltada para o mercado corporativo, que tem por objetivo impedir a gravação de áudio durante reuniões, encontros, etc. “São equipamentos muito diferentes”, disse o representante da Santor, um canadense que falava português de Portugal, quando citei o lance das cargas de caminhões. “Esses jammers bloqueiam radiofrequências, o que é proibido, o nosso emite um som em frequência inaudível, que inutiliza qualquer gravação feita dentro da área.”

Espionagem por espionagem, a dos detetives particulares é bem mais interessante que a industrial. E o estande da Telsate, que contrastava com o restante da feira ao parecer uma banquinha de galeria na 25 de Março, era o melhor nesse sentido. Possuía com prateleiras de vidros cheias de microcâmeras em todos os formatos inimagináveis (de button à cartão de crédito e crachá), mini microfones, bugigangas identificadores de grampos e maletas capazes de fritar celulares. Deu vontade de comprar, não nego.

A verdadeira vigilância: seus dados

Enquanto a galera focava a atenção na parte divertida da distopia, o verdadeiro nerd estava interessado no lado prático da coisa. Era Martin Gren, um dos fundadores da Axis e um dos criadores da câmera por IP (aquela que é transmitida via internet), lançada em 1996 e que ajudou a dar um pontapé inicial na Internet das Coisas, ame-a ou odeia-a.

Em uma palestra sobre as perspectivas para o futuro do campo de vigilância e monitoramento, Gren destacou as tecnologias de compressão para que grandes volumes de dados possam ser transmitidos sem perda de qualidade.

Perguntei a ele também se todos esses dispositivos e possibilidades não seriam vigilância além da conta. Ele só olhou para meu celular. “Você tem duas câmeras na mão. A sua operadora de celular sabe onde você está, quais seus hábitos. O seu cartão de crédito sabe quanto você gasta, onde você gasta. Sem falar em Facebook, YouTube. Esse é a verdadeira ameaça contra a privacidade. Comparado com isso, o monitoramento por vídeo não é nada”, disse ele.

Em outras palavras, toda aquela questão de proteção e clareza na gestão de dados pessoais que está sempre por aqui no Motherboard.

Mas os dois mundos se encontram: no estande da Dahua, empresa chinesa que doou drones para a prefeitura de São Paulo no ano passado, uma animação fofinha com estética de videogame apresentava o protótipo que levará a publicidade segmentada um passo além. Por meio de reconhecimento facial, o sistema usa câmeras de segurança para identificar o consumidor, consulta suas preferências em um banco de dados e exibe em um totem digital dentro da loja informações sobre os produtos que tendem a lhe agradar.

Afinal, como disse a revista The Economist tempos atrás, os dados pessoais são o petróleo do futuro. Mais cedo, na abertura da ISC, o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, levantou essa bola no meio de uma série de discursos enfadonhos. “Participamos das discussões do PL 4062/12 sobre tratamento e proteção de dados pessoais e nosso entendimento é que deve-se buscar uma legislação de dados que assegure o direito dos indivíduos, mas que permita inovação, geração de empregos e criação de novos modelos de negócios ligados à economia digital”, falou. Ênfase nos novos modelos de negócios.

Do lado de fora da ISC, a 35º Abrin, Feira Brasileira de Brinquedos, ocupava outros dois pavilhões do Expo Center Norte. Quem saia de lá parecia bem mais feliz. Cada um com sua ideia de divertimento, certo?

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