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Drogas

Isso é o que acontece quando você combina maconha e meditação

Para muitos, a erva pode ser um caminho mais curto para a iluminação.

por Jessie Gill; Traduzido por Amanda Guizzo Zampieri
27 Abril 2018, 1:53pm

Crédito: Mosuno / Stocksy.

Sou uma enfermeira de maconha – isto é, uma enfermeira registrada especialista em maconha medicinal – e sirvo como educadora de pacientes no MarjuanaMommy.com, nos EUA. Isso me faz intimamente familiar com os benefícios medicinais da maconha. Eu também medito todos os dias e, como uso maconha todos os dias, faço em poucas doses, para não ficar muito alta enquanto medito. Também não tenho medo de pegar um pouco mais pesado se, por exemplo, meus níveis de dor (decorrentes de uma lesão na espinha cervical há alguns anos) estiverem muitos altos. Como sabemos, a maconha não é usada somente para aliviar a dor – as pessoas gostam muito do modo como ficam presente quando a utilizam.



O aumento do apoio científico à meditação como estratégia de manejo e cura passam a sensação de que a maconha e o estado de consciência plena podem ser uma combinação natural. Pesquisas mostram que meditadores de longo tempo exibem “alterações no cérebro, e efeitos positivos de empatia, habilidades metacognitivas e saúde”. O modo exato como a meditação produz esses efeitos ainda não é totalmente conhecido, mas esses benefícios se correlacionam com a diminuição da atividade da rede neuronal padrão (DMN, na sigla em inglês). Suspeita-se que a diminuição na atividade da DMN signifique uma mente mais descansada. Enquanto não se dispõe de pesquisas substanciais sobre o efeito relaxante da maconha na mente, há uma crença grande de que o CBD – um de seus principais componentes – pode ter um efeito calmante.

Então, naturalmente, meu passo seguinte foi ver se uma dose maior de maconha poderia também aprofundar minha meditação.

Infelizmente, moro em Nova Jersey, onde a proibição ainda prevalece e não há aulas de ganja yoga (ainda). Então decidi simplesmente ir para minha aula de meditação normal, mas bastante medicada. Mais ou menos uma hora antes da aula, engoli um pontente kief cookie, na tentativa de sincronizar o ponto alto da chapação com o início do som do sino tibetano para meditação.

Stacey Mulvey, ganja yogi e fundadora da Marijuasana (uma comunidade de yogis simpatizantes da maconha em Las Vegas) me contou, “como usuários de maconha, nós chegamos à iluminação mais ou menos no sentido contrário. Em vez de chegar através de anos e anos de prática dedicada de meditação, nós estamos amplificando e tendo um vislumbre do outro lado primeiro [...] então nós aprendemos a lidar com isso, a equilibrá-lo, e a centralizá-lo, para termos uma compreensão melhor.”

A meditação chapada pode ter uma vibe new-age, mas a prática tem raízes antigas. Os vedas – textos históricos escritos na Índia em aproximadamente 1500 a.C. – nomeia a Cannabis como uma das cinco plantas sagradas. Além disso, muitas lendas descrevem Shiva, uma deidade hindu como um apaixonado pela Cannabis. Todos os anos, o Nepal sedia um festival espiritual em que a maconha serve como característica principal da celebração sagrada.

Ser capaz de ter calma quando você necessitar disso pode ser fisicamente benéfico. “A consciência plena pode ser útil para uma variedade de questões de saúde, geralmente falando, condições relacionadas a estresse como pressão arterial elevada”, afirma Diana Winston, diretora de educação em consciência plena no Centro de Pesquisa para a Consciência Plena do Instituto Semel da UCLA. “Problemas relacionados com inflamações podem ser afetados positivamente, como doenças cardiovasculares, diabetes etc. Também observou-se que promove um estímulo no sistema imunológico e promove uma resposta à regeneração.” A maconha também foi associada, em estudos iniciais muito pequenos, com uma diminuição da pressão arterial e um aumento nas problemas relacionados com inflamações. Também foi reportado ela que ajuda como relaxante muscular em casos de dor crônica e problemas gastrintestinais.

Por outro lado, o THC pode estimular a ansiedade. Foi exatamente o que aconteceu quando cheguei no estúdio e vi uma aula mais cheia do que de costume. O suor pingava da minha nuca e comecei a me perguntar se eu era a única aluna chapada. Será que meus olhos estavam vermelhos? Será que minha língua parecia o deserto do Saara (dica: levar água). Será que os outros colegas percebiam algo? Mas ninguém parecia notar ou sequer se importar. Então eu me lembrei que estava conduzindo uma pesquisa importante: ficar chapada e meditar era meu trabalho naquele dia. Depois de pegar uma garrafa d’água, relaxei e me voltei para o êxtase.

Naquela noite, eu não somente ouvi os sinos tibetanos, mas meu corpo todo sentiu eles.

Mulvey acredita que, quando meditamos, fazemos yoga ou nos exercitamos em geral, estamos naturalmente suplementando nosso sistema endocanabinoide (um conjunto de receptores do cérebro e do corpo que afeta a forma como nos sentimos e nos comportamos). E esse equilíbrio pode supostamente resultar em uma sensação de êxtase. As pesquisas apoiam isso: um estudo de 2015 sugere que a euforia da “chapação” dos praticantes de corrida é causada por um endocanabinoide natural chamado anandamida, em oposição às endorfinas anteriormente aceitas.

A espécie escolhida quando for meditar conduzirá a experiência. Tenha em mente que o CDB é relaxante, mas não intoxicante; o THC da erva é a parte que chapa – e, para algumas pessoas, isso basta. Já outras estão mais preparadas para o THC: meu cookie com maconha tinha um blend de Nigerian Haze com alto teor de THC, marcado por insights criativos, e Death Star, para relaxamento corporal. Seja qual for a espécie de sua escolha, é recomendado usar a maconha de modo responsável. Você não vai querer ficar inebriado a ponto de parecer um idiota. Também não vai querer cortar o êxtase de outras pessoas com um ataque de pânico pré-Savasana. Os iniciantes na maconha devem sempre começar com pouco e aumentar as doses gradualmente.

A Nigerian haze ampliou meus sentidos, como costuma acontecer para várias outras pessoas. À meia-luz, sentamos em nossos colchonetes. A instrutora nos orientou em uma série de respiração profunda, lembrando-nos de preencher os pulmões e expirar todo o ar. Ela nos encorajou a relaxar e a fazer a tensão se dissipar para além de nossos músculos.

Logo relaxamos em nossos colchonetes e nossa guia passou pela sala, passando um blend de óleos essenciais aromaterapêuticos na testa dos participantes. Ela nos garantiu que era comum cair no sono, e também apropriado, mas embora eu ouvisse roncos leves pela sala, não peguei no sono.

Todos estavam calmos e a guia de meditação começou a tocar o sino tibetano. Enquanto estava esparramada em meu colchonete, as ondas sonoras pareciam dançar sob a minha pele. O som dos sinos é difícil de ser descrito, e eu não chamaria de “belo” de um modo clássico, mas as vibrações são conhecidas por terem propriedades curativas e melhorar o estado meditativo. Talvez seja a erva trabalhando na minha imaginação ou uma qualidade mística ainda não explicada pela ciência, mas senti algo diferente durante aquela meditação. Ao redor da área onde agora uma placa de metal segura minha espinha, senti uma sensação de desejo. Somente consigo descrevê-la como uma massagem em que a massageadora acerta o ponto exato, mas deseja-se uma pressão maior.

Ao fim da sessão, a guia nos acordou gentilmente, instruindo-nos a sacudir os dedos das mãos e dos pés. Ela nos refrescou com água armazenada sinos enquanto estes eram tocados. Enquanto guardava meu colchonete, refleti. As vibrações dos sinos penetraram em minha psique, combinando-se com minha chapação. E como não fui capaz de identificar os benefícios das duas práticas – fumar maconha e meditar – a união das duas em uma hora intensificou minha convicção de ambas.

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